“O Médico e o Monstro” é a revelação de um incômodo/”Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is the revelation of a nuisance” – 14 de abril de 2021

O Médico e o Monstro | Martin Claret Editora

Quem assistiu ao filme “A Escolha de Sofia”, com Meryl Sreep, sabe o arrepio que causa o momento no qual Sofia, presa com os filhos em um campo de concentração nazista, precisa escolher um dos filhos para morrer. Este é o tipo de escolha que nenhum pai ou mãe sonha em fazer. Acabo de ler a novela clássica de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”, que coloca o leitor frente a frente com um homem que precisa escolher uma das duas personalidades que lutam dentro de si: o rico e adorado doutor Henry Jekyll ou o sanguinário Edward Hyde. Uma escolha não menos arrepiante do que a de Sofia, já que os dois são o mesmo homem.

Ao desenvolver uma droga que permite que venha à tona uma personalidade inconsciente que habita o seu ser, o médico Henry Jekyll permite que ele entre em contato com seu “segundo eu”, o cruel e feroz Edward Hyde. Jekyll e Hyde, embora opostos na superfície, são expressões de um mesmo ser, complexo, ambivalente e conflituoso, como todos nós.

O espelho nos mostra apenas uma face de nossa essência. Há outros eus escondidos em nossa personalidade, e frequentemente evitamos que eus inconscientes frequentem a superfície de nosso caráter e se expressem de forma consciente. O nome Hyde tem a mesma sonoridade que o verbo “hide” (“esconder”), em inglês. Portanto, “O Médico e o Monstro” é um livro sobre o eu que escondemos dentro de nós.

Robert Louis Stevenson se inspirou em um caso real de um sociopata que viveu e aterrorizou a Inglaterra décadas antes de ele nascer. Edward Hyde é um psicopata que desequilibra a cartesiana Inglaterra vitoriana de Stevenson. “O Médico e o Monstro” é uma novela gótica, de terror, estranha, absurda.  Hyde é a máscara sobre a qual habita Jekyll.

“O Médico e o Monstro” é uma tragédia inglesa, brasileira, grega. E as tragédias gregas eram compostas dos seguintes elementos: máscaras, mitos e mortes. E é justamente aí que reside a incrível atualidade de “O Médico e o Monstro” no Brasil governado pelo coronavírus: em nome da vida, andamos com máscaras. Colado ao nosso corpo, há sempre um Edward Hyde nos ameaçando a vida. E, assim como os mitos nas tragédias gregas decidiam o destino dos personagens, nosso destino hoje está nas mãos de um “mito” em Brasília. Cabe a nós libertar a nossa essência e, em 2022, desmentir o mito que nos rege e recolocar o Brasil nas mãos de outro conceito grego: a democracia. Se “Sofia”, em grego, significa “sabedoria”, que saibamos fazer a nossa escolha com Sofia.

English – Anyone who watched the movie “Sophie’s Choice”, with Meryl Sreep, knows the shiver that causes the moment when Sophie, trapped with her children in a Nazi concentration camp, needs to choose one of the children to die. This is the kind of choice that no parent dreams of making. I have just read Robert Louis Stevenson’s classic novella, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde“, which puts the reader face to face with a man who must choose one of the two personalities who struggle within him: the rich and adored doctor Henry Jekyll or the bloodthirsty Edward Hyde. A choice no less chilling than Sophie´s, since the two are the same man.

In developing a drug that allows an unconscious personality to inhabit his being to emerge, doctor Henry Jekyll allows him to get in touch with his “second self”, the cruel and ferocious Edward Hyde. Jekyll and Hyde, although opposed on the surface, are expressions of the same being, complex, ambivalent and conflicting, like all of us.

The mirror shows us only one face of our essence. There are other selves hidden in our personality, and we often prevent unconscious selves from frequenting the surface of our character and expressing themselves consciously. The name Hyde has the same sound as the verb “hide”. Therefore, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a book about the self that we hide within us.

Robert Louis Stevenson was inspired by a real case of a sociopath who lived and terrified England decades before he was born. Edward Hyde is a psychopath who unbalances Stevenson’s Cartesian Victorian England. “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a strange, absurd, gothic, horror novella. Hyde is the mask under which Jekyll lives.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is an English, Brazilian, Greek tragedy. And Greek tragedies were composed of the following elements: masks, myths and deaths. And this is exactly where the incredible link between “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” and Brazil, today governed by the coronavirus: in the name of life, we walk in masks. Glued to our body, there is always an Edward Hyde threatening our lives. And, just as the myths in the Greek tragedies chose the fate of the characters, our fate today is in the hands of a “myth” in Brasília. It is up to us to liberate our essence and, in 2022, to deny the myth that governs us and to put Brazil in the hands of another Greek concept: democracy. If “Sophie”, in Greek, means “wisdom”, I hope we will be wise and make our choice with Sophie.

Um romance que mascara angústias com roupas de falsa felicidade/A novel that masks anguish with clothes of false happiness

Sobre sapatos, sandálias e suas (devidas) caixas

A literatura é uma roda que não para de girar. Escritores clássicos e consagrados se misturam a produções contemporâneas, alimentando um moinho de palavras e tecendo enredos em livros que não param de sair do forno. Um deles é o romance “Sobre Sapatos, Sandálias e suas (devidas) Caixas”, da escritora Sada Ali, nascida em Barretos, interior de São Paulo. O livro foi lançado em fevereiro de 2021 e traz um enredo que chacoalha o asfalto da cidade de São Paulo.

Uma maneira de enxergar o enredo é observar, em detalhes, o monótono cotidiano da família Monroe, da elite paulistana – um aristocrata inglês, dono de uma empresa na área de calçados de luxo, sua esposa ninfomaníaca e duas filhas, com mordomos, motoristas, carros blindados e um permanente medo de ser roubado. Esta narrativa é complementada pelos personagens que orbitam a família: amantes, funcionários e moradores de espaços menos nobres da cidade. O dinheiro e o poder dos Monroes é o motor de disputas financeiras e sentimentais, com direito a um sequestro cinematográfico, mas é incapaz de saciar as angústias que unem 100% dos personagens. O terço final do romance lembra um pouco a série espanhola “La Casa de Papel”. Sada, que é psicóloga, mergulha nas descrições psicológicas de cada um, talvez com palavras carregadas de didatismo, mas sem deixar que eles se tornem menos interessantes.

Os conflitos psicológicos de um elenco de milionários e miseráveis, que convive através de uma parede invisível que os separa, são recheados pelos vestidos, ternos, camisetas e, claro, sapatos, que vestem para mascarar uma falsa felicidade. Na nova fornada de livros saindo do forno, esta é uma leitura que prende da primeira à última página.

English – Literature is a spinning wheel of classical and renowned writers mixed with contemporary productions, feeding a windmill of words and weaving plots in books that keep coming out of the oven. One of them is the novel  “Sobre Sapatos, Sandálias e suas (devidas) Caixas” (“On Shoes, Sandals and their (due) boxes”), by writer Sada Ali, born in Barretos, Brazil. The book was released in February 2021 and has a plot that shakes the asphalt of the city of São Paulo.

One way of looking at the plot is to observe, in detail, the monotonous daily life of the Monroe family, of the São Paulo elite – an English aristocrat, owner of a company in the area of ​​luxury shoes, his nymphomaniac wife and two daughters, with butlers, drivers, armored cars and a permanent fear of being robbed. This narrative is complemented by the characters that orbit the family: lovers, employees and residents of less noble spaces in the city. The money and power of the Monroes is the engine of financial and sentimental disputes, with the right to a cinematic hijacking, but it is unable to satisfy the anxieties that unite 100% of the characters. The final third of the novel is somewhat reminiscent of the Spanish series “Money Heist”. Sada, who is a psychologist, delves into the psychological descriptions of each one, perhaps with words full of didacticism, but without making them become less interesting.

The psychological conflicts of a cast of millionaires and the miserable, who live through an invisible wall that separates them, are filled with dresses, suits, T-shirts and, of course, shoes, which they wear in order to mask a false happiness. In the new batch of books coming out of the oven, this is a reading that you cannot put down from the first to the last page.

“Unorthodox” (“Nada Ortodoxa”) é uma minissérie perfeita para ser assistida na Páscoa/“Unorthodox” is a perfect miniseries to be watched at the Passover

Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots: Feldman, Deborah:  9781982148201: Amazon.com: Books

Hoje, durante a Páscoa cristã, muitos de nós celebramos o renascimento após a morte. O ovo de Páscoa traz o simbolismo da vida. Mas, neste momento, também é celebrada a Páscoa judaica, que comemora a liberdade do povo judeu após um longo período de escravidão no Egito. Com a ideia de liberdade em mente, assisti, em uma sentada aos 4 episódios da interessante minissérie na Netflix “Nada Ortodoxa” (“Unorthodox”, no original). O tema aqui, assim como na Páscoa judaica, é a liberdade, mas a liberdade de uma jovem nascida em uma ultraortodoxa comunidade judaica, com casamento arranjado e repressão à feminilidade.

Etimologicamente, o adjetivo “ortodoxo”, do grego, é a junção das palavras “ortho” (verdadeiro, correto) e “doxa” (opinião). Ou seja, ortodoxo está relacionado ao rigor, a quem segue estritamente as normas estabelecidas. Em “Nada Ortodoxa”, a ainda adolescente Esty foge de um casamento arranjado, de uma tradição que a reprime, do cabelo raspado, do uso de peruca, da passividade feminina em uma comunidade no Brooklyn, Nova Iorque, para a liberdade e o cosmopolitismo de Berlim, onde pretende ter aulas de música em um conservatório e arriscar-se em aventuras inimagináveis até então.

Esty é muito bem interpretada pela jovem atriz israelense Shira Haas, e a série é falada em alemão, inglês e, principalmente, em ídiche. Para quem não está acostumado com o ortodoxismo judaico, a mistura de línguas e a rigidez da cultura conservadora desta comunidade, assistir a “Nada Ortodoxa” é uma boa reflexão durante a Páscoa judaica, que é uma celebração à liberdade que Esty procura. Com apenas 4 episódios, esta é uma minissérie certeira. Combina também com um meio amargo ovo de chocolate.

English – Today, during Christian Easter, many of us celebrate rebirth after death. The Easter egg brings the symbolism of life. But at this time, Passover is also celebrated, and it commemorates the freedom of the Jewish people after a long period of slavery in Egypt. With the idea of ​​freedom in mind, I binge watched on Netflix the 4 episodes of the interesting miniseries “Unorthodox”. The theme here, as with Passover, is freedom, but the freedom of a young woman born in an ultra-orthodox Jewish community, with arranged marriage and repression of femininity.

Etymologically, the adjective “orthodox”, from the Greek, is the combination of the words “ortho” (true, correct) and “doxa” (opinion). In other words, orthodox is related to rigor, to who strictly follows the established norms. In “Unorthodox”, the still teenager Esty flees from an arranged marriage, from a tradition that represses her, from shaved hair, from wearing a wig, from female passivity in a community in Brooklyn, New York, to freedom and cosmopolitanism in Berlin, where she intends to take music lessons in a conservatory and take chances on until then unimaginable adventures.

Esty is very well performed by young Israeli actress Shira Haas, and the series is spoken in German, English and, mainly, in Yiddish. For those who are not used to Jewish orthodoxism, the mixture of languages ​​and the rigidity of the conservative culture of this community, watching “Unorthodox” is a good reflection during Passover, which is a celebration of the freedom that Esty seeks. With only 4 episodes, this is a very good miniseries. And it also matches a bittersweet chocolate egg.

Jacqueline Woodson escreve uma novela curta, mas cuja leitura insiste em ficar dentro do leitor/Jacqueline Woodson writes a short novel; however, it insists on remaining inside the reader

Um outro Brooklyn | Amazon.com.br

“Por muito tempo, minha mãe ainda não estava morta”. Este é o intrigante início do livro “Um Outro Brooklyn”, da escritora americana Jacqueline Woodson. Em 111 páginas, Woodson leva o leitor a Nova Iorque, no Brooklyn, onde, nos anos 70, a personagem Augusta cresceu. O livro é sobre memórias, sobre ser mulher e negra, sobre dor, sobre perda. E sobre a morte. Jacqueline Woodson escreve em prosa poética e conduz o leitor a um passado que toca bem de perto no presente que o Brasil vive.

Augusta não aceita a morte. É antropóloga e centra sua pesquisa em rituais funerários de várias culturas. O motivo para a volta ao Brooklyn que deixou na juventude é o enterro do pai. A morte do pai traz a Augusta as memórias de uma juventude que ficou distante, embora mal resolvida, para ela. Uma singela novela que pode ser lida rapidamente. Mas que tem fôlego para ficar dentro do leitor por muito tempo. Por muito tempo, este livro ainda não estará morto.

English – “For a long time, my mother wasn’t dead yet.” This is the intriguing beginning of the novel “Another Brooklyn”, by American writer Jacqueline Woodson. In 111 pages, Woodson takes the reader to Brooklyn, New York, where, in the 70s, protagonist Augusta grew up. The book is about memories, about being a woman and black, about pain, about loss. And about death. Jacqueline Woodson writes in poetic prose and leads the reader to a past that is  closely connected to the present times in Brazil.

Augusta does not accept death. She is an anthropologist and focuses her research on funerary rituals from different cultures. The reason for the return to the Brooklyn that she left in her youth is her father’s funeral. The death of her dad brings to Augusta the memories of a youth that was distant, although poorly resolved. A simple novel that can be read quickly. But one which has the strength to stay inside the reader for a long time. For a long time, this novel won´t be dead yet.

“Terra em Transe” não é um filme; é uma ideia/”Earth Entranced” is not a movie; it is an idea

Terra em Transe - 2 de Maio de 1967 | Filmow

Finalmente respirei fundo e assisti até o fim a um filme do Glauber Rocha. “Terra em Transe” não é um filme fácil. É denso, uma narrativa lenta para quem está acostumado com o cinema do século 21. Mas Martin Scorsese adorou. É em preto e branco. E se passa em um país fictício, Eldorado, mas que, logo nas primeiras cenas, percebe-se que é uma metáfora para o Brasil. Assistir a “Terra em Transe” não é assistir a um filme; é assistir a uma ideia. A democracia na narrativa de Glauber Rocha é uma ironia.

A palavra “democracia”, do grego, significa, governo do povo. O povo, em “Terra em Transe”, é feito de figurantes que não têm voz. Na única cena em que é dada ao povo a oportunidade de falar, o protagonista branco e macho (Jardel Filho, em uma interpretação excelente) tapa a boca do pobre sujeito que seria o porta-voz dos desprovidos. “Terra em Transe” é um filme do Terceiro Mundo. Além do sofrimento, cabe ao povo também o silêncio. As mulheres são apenas figurantes. Reduzidas ao erotismo, as personagens femininas também são silenciadas. 

Produzido em 1967, durante a ditadura militar no Brasil, “Terra em Transe” define Eldorado como uma república de bananas, corrupta, machista, violenta e inescrupulosa. Glauber Rocha atirou para todos os lados: direita, centro e esquerda. Gosto de artistas que provocam. Glauber Rocha é um provocador.

English – Finally I took a deep breath and watched a Glauber Rocha movie until the end. “Earth Entranced” is not an easy film. It is dense, a slow narrative for those who are used to 21st century cinema. But Martin Scorsese loved it. It is in black and white. And it takes place in a fictitious country, Eldorado, but that, in its first scenes, one realizes that it is a metaphor for Brazil. Watching “Earth Entranced” is not watching a movie; is to watch an idea. Democracy in Glauber Rocha’s narrative is ironic.

The word “democracy”, from the Greek, means government of the people. The people, in “Earth Entranced”, are made up of extras who have no voice. In the only scene in which the people are given the opportunity to speak, the white and male protagonist (Jardel Filho, in an excellent interpretation) covers the mouth of the poor fellow who would be the spokesman for the destitute. “Earth Entranced” is a Third World film. In addition to suffering, it is also up to the people to remain silent. Women are just extras. Reduced to eroticism, female characters are also silenced.

Produced in 1967, during the military dictatorship in Brazil, “Earth Entranced” defines Eldorado as a banana republic, corrupt, sexist, violent and unscrupulous. Glauber Rocha shot fire at all political sides: right, center and left. I like artists who provoke. Glauber Rocha is a provocateur.

O filme “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” é o Brasil que se nega a aceitar a cor de sua pele/Movie “M8” is Brazil and the denial of its blackness

M8': Jeferson De e Mariana Nunes de bisturis afiados

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Deveria doer ler esta estatística. Mas ela é disfarçada de silêncio. Esta dor está na Netflix, no recém-lançado filme de Jeferson De “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”. É sobre morte de negros que o Brasil silencia; é sobre o racismo contra negros; é sobre o silêncio de um país que maltrata sua maioria negra; é sobre o aumento de alunos negros em universidades graças à política de cotas. É um pedido de socorro.

O ator Juan Paiva constrói uma interpretação segura para o protagonista que mora em uma favela no Rio de Janeiro e entra em contato com a elite branca que estuda medicina na Universidade Federal do RJ. Um elenco estrelado por Zezé Motta, Lázaro Ramos, Mariana Nunes e Ailton Graça aborda o cadáver M8, cujo corpo é objeto de estudos de anatomia na faculdade. Um corpo que carrega uma história de vida, de desaparecimento e muito sofrimento para sua família. M8 é a cara do Brasil anônimo que vive dentro de cada um de nós. Assistir a este filme impactante é soltar um grito de socorro. Espero que o grito ecoe para além da tela da Netflix.

English – Every 23 minutes, a young black person is murdered in Brazil. It should hurt to read this statistic. But it is disguised as silence. This pain is on Netflix, in Jeferson De’s recently released film “M8”. It is about the death of blacks which is silenced in Brazil; it is about racism against blacks; it is about the silence of a country that mistreats its black majority; it is about the increase of black students in universities thanks to affirmative action. It’s a cry for help.

Actor Juan Paiva builds a safe interpretation for the protagonist who lives in a slum in Rio de Janeiro and gets in touch with the white elite who study medicine at the Federal University of RJ. A cast starring Zezé Motta, Lázaro Ramos, Mariana Nunes and Ailton Graça addresses the M8 corpse, whose body is the subject of anatomy studies in college. A body that carries a story of life, disappearance and much suffering for his family. M8 is the face of an anonymous Brazil that lives within each one of us. To watch this impactful film is to cry out for help. I hope the scream echoes beyond the Netflix screen.

Ler ‘A Autobiografia”, de Woody Allen, é um prazer comparado ao de assistir a seus melhores filmes/Reading Woody Allen´s “Apropos of Nothing” is as pleasurable as watching his best films

GLOBO LIVROS LANÇA WOODY ALLEN - A AUTOBIOGRAFIA

Woody Allen é um dos diretores de cinema mais interessantes e um dos meus favoritos. Com diálogos e personagens bem-humorados, seus filmes retratam situações dramáticas com as quais nós rapidamente nos identificamos. Recentemente ele lançou a história de sua vida em livro, “A Autobiografia”, que poderia muito bem ser o enredo de um dos filmes que dirigiu. Woody Allen é um grande escritor, e ler sua autobiografia é um ato tão prazeroso quanto assistir a seus melhores filmes. Mas ele foi “cancelado” por vários atores e atrizes, por uma filha e, principalmente, por sua ex-mulher, a atriz Mia Farrow.

O barato de ler “A Autobiografia” é poder enxergar, através da visão do Woody Allen, os bastidores dos filmes, saber a opinião dele sobre os atores que dirigiu, seus gostos musicais, literários e gastronômicos, os locais que ele curte em Nova Iorque, na Europa, seu lado musical, o gosto pelo jazz, pelo clarinete, as mulheres que amou e os filhos. Allen está há mais de 30 anos sem ver nem falar com uma filha, Dylan. E só há pouco tempo, o filho, Moses, tomou a iniciativa de contatá-lo. Isso deve ser muito triste. Segundo Woody, a atriz Mia Farrow faz a cabeça dos filhos para construir a imagem de um pai pedófilo e inescrupuloso. Ele acha que Mia faz isso porque não se conforma em ter perdido o marido para uma filha adotiva, com quem o cineasta é casado há quase 30 anos. Eu acho que o Woody Allen escreveu o livro simplesmente para poder se comunicar com a filha, Dylan. Mas ele não consegue perder o bom humor, mesmo nas situações mais dramáticas. Ler “A Autobiografia” dá vontade de ver os filmes de um dos meus diretores favoritos. Ele diz que, mais do que dirigir, curte escrever. Olha só: antes de ser diretor, ele se sente escritor. Então, sugiro que ”A Autobiografia” seja lido como quem vê um filme. Pegue a pipoca, sente-se na poltrona e curta a leitura.

English Woody Allen is one of the most interesting film directors and one of my favorite. With sharp dialogs and humorous characters, his films portray dramatic situations with which we quickly identify. He recently released his autobiography “Apropos of Nothing”, with the story of his life, which could very well be the plot of one of the several movies he directed. Woody Allen is a great writer, and reading his autobiography is as pleasurable as watching his best films. But he was “canceled” by several actors and actresses, by a daughter and, mainly, by his ex-wife, actress Mia Farrow.

The point of reading “Apropos of Nothing” is to be able to see, through Woody Allen’s view, the backstage of the films, to know his opinion about the actors he directed, his musical, literary and gastronomic tastes, the places he enjoys in New York , in Europe, his musical side, his taste for jazz, the clarinet, the women he loved and his children. Allen has not seen or spoken to a daughter, Dylan, for more than 30 years. And only recently, his son, Moses, took the initiative to contact him. This must be very sad. According to Woody, actress Mia Farrow talks their children into building the image of a pedophile and unscrupulous father. He thinks Mia does this because she is not content to have lost her husband to her adopted daughter, to whom the filmmaker has been married for almost 30 years. I think Woody Allen wrote the book simply to be able to communicate with his daughter, Dylan. But he does not lose his good mood, even in the most dramatic situations. Reading “Apropos of Nothing” makes me want to see the films of one of my favorite directors. He says that, more than directing, he enjoys writing. More than being a director, he feels like a writer. So, I suggest that “Apropos of Nothing” be read as if you would watch a movie. Get your popcorn, sit back and enjoy reading it. After all, “Apropos of Nothing” is not apropos of nothing.

“Breaking Bad” e “Ozark” unem na hipocrisia os Estados Unidos ao Brasil/“Breaking Bad” and “Ozark” unite Brazil and the USA in hypocrisy

Image result for breaking bad and Ozark

“Breaking Bad” e “Ozark” são duas séries da Netflix que prendem a atenção do espectador desde o primeiro momento. São muitas as semelhanças entre elas: os protagonistas são pessoas comuns; em “Breaking Bad”, o professor de química Walter White. Em “Ozark”, o planejador de finanças Marty Byrde. Ambos casados, com filhos. Amam a família e a ela se dedicam para lhe oferecer uma vida decente. Até que, pensando no bem-estar da família, acabam imersos no mundo do crime. São dois roteiros muito bem escritos, com atores que desempenham seus papéis com segurança. Mas White e Byrde são alegorias para a hipocrisia que vem pautando as administrações dos Estados Unidos (do Brasil).

Walter White, em “Breaking Bad”, ao ser diagnosticado com câncer no pulmão, com enormes dívidas, um filho com paralisia cerebral e a mulher grávida, decide produzir metanfetamina com um ex-aluno. Marty Byrde, em “Ozark”, contrai uma dívida com um traficante mexicano ao não conseguir êxito em um esquema de lavagem de dinheiro. Para pagar a dívida com um esquema milionário de lavagem, leva sua família de Chicago para os Montes Ozark. 

Ao deslocar a ação, nas duas séries, para o interior dos EUA – “Breaking Bad” se passa no Novo México; “Ozark” se passa no Missouri -, as duas séries carregam os espectadores para dentro de um país que se mostra ao mundo como magnânimo por suas grandes cidades externas, na costa do Atlântico e na costa do Pacífico. Assistir às tramas e às reviravoltas constantes nelas nos ajuda a entender o interior de um país que sustenta a ética através da hipocrisia. E, nas entranhas destas séries, escondem-se princípios que justificam a eleição de um presidente como Donald Trump. Que estes estados americanos sirvam de metáfora para o país enxergar suas sujas entranhas. E que o Brasil consiga entender que o estado em que se encontra hoje também é resultado de uma falsa ética que atropela o Estado. Que a vacina mande para longe o câncer que tem nos tirado o fôlego. Walter White e Marty Byrde conectam estados enfermos nos Estados Unidos  e no Brasil.

English – “Breaking Bad” and “Ozark” are two Netflix series that catch the viewer’s attention from the first moment. There are many similarities between them: the protagonists are ordinary people; in “Breaking Bad”, the chemistry teacher Walter White. In “Ozark”, the finance planner Marty Byrde. Both married, with children. They love their family and dedicate themselves to offering them a decent life. Thinking about the family’s well-being, they end up immersed in the world of crime. They are two very well written scripts, with actors who play their roles safely. But White and Byrde are allegories for the hypocrisy that has been guiding the administrations of the United States (of Brazil).

Walter White, in “Breaking Bad”, when diagnosed with lung cancer, with huge debts, a son with cerebral palsy and a pregnant woman, decides to produce meth with a former student. Marty Byrde, in “Ozark”, contracts a debt to a Mexican drug dealer for failing a money laundering scheme. To pay the debt off with a millionaire money laundering scheme, he takes his family from Chicago to the Ozark Mountains.

When moving the action, in both series, to the interior of the USA – “Breaking Bad” takes place in New Mexico; “Ozark” takes place in Missouri -, the two series take viewers into a country that shows itself to the world as magnanimous for its large cities on the Atlantic coast and the Pacific coast. Watching the plots and the constant twists in them helps us to understand the interior of a country that sustains ethics through hypocrisy. And in the core of these series are hidden principles that justify the election of a president like Donald Trump. May these American states serve as a metaphor for the country to see its dirty insides. And may Brazil understand that the state it is in today is also the result of a false ethics that runs over the State. May the vaccine send away the cancer that has taken our breath away. Walter White and Marty Byrde connect sick states in the United States and Brazil.

O poema épico “Eneida”, do romano Virgílio, daria uma boa série na Netflix/Epic poem “The Aeneid”, by Roman poet Virgil, would make a good series on Netflix

Image result for a eneida virgílio imagem

Acabo de ler “Eneida”, um grande poema épico, publicado no ano 19 antes de Cristo. Escrito pelo poeta romano Virgílio, “Eneida” é uma continuação da “Ilíada”, de Homero, e é um fio que aponta para o futuro, pois, a partir de Virgílio, foram escritos, séculos depois, “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, e “Os Lusíadas”, de Camões. “Eneida” foi escrito por Virgílio a pedido do imperador Augusto, que queria um poema que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Neste sentido, “Eneida” está para o imperador Augusto, assim como “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, está para Getúlio Vargas. 

O poema é a história do herói Eneias, um troiano sobrevivente da Guerra de Troia. Ele narra como conseguiu fugir da guerra com o pai e com o filho, com a ajuda de sua mãe, Vênus. A “Eneida” é uma narrativa que envolve amor, traição, muita (mas muita mesmo) luta e que nos traz a história da fundação de Roma. Tivesse vivido uns anos mais, Virgílio poderia ter conhecido um jovem judeu, filho de um carpinteiro, que pregou a paz e acabou crucificado aos 33 anos. A “Eneida” é grande poesia, é mitologia grega e mitologia romana temperadas com história e uma pitada de ufanismo. Mas a leitura é deliciosa, especialmente se for acompanhada de Homero, Camões e Dante. Os poetas conversam em versos, mesmo que separados por séculos. Se o Brasil tem uma forte presença da colônia italiana que imigrou para a América do Sul, talvez Eneias esteja caminhando por nossas esquinas de dura poesia concreta. A obra-prima de Virgílio daria uma boa série na Netflix. 

English- I just read “The Aeneid”, a great epic poem, published in the year 19 BC. Written by the Roman poet Virgil, “The Aeneid” is a continuation of Homer’s “Iliad”, and it is a thread that points to the future, since, inspired by Virgil, centuries later, Dante Alighieri’s “Divine Comedy” and Camões´s “The Lusiads” were written. “The Aeneid” was written by Virgil at the request of Emperor Augustus, who wanted a poem that would sing the glory and power of the Roman Empire. In this sense, “The Aeneid” is for Emperor Augustus the equivalent to “Aquarela do Brasil”, by Ary Barroso,  for President Getúlio Vargas.

The poem is the story of the hero Aeneas, a Trojan survivor of the Trojan War. He narrates how he managed to escape the war with his father and son, with the help of his mother, Venus. “The Aeneid” is a narrative that involves love, betrayal, a lot (I do mean a lot) of fighting and one which tells the history of the foundation of Rome. Had Virgílio lived a few more years, he could have met a young Jew, the son of a carpenter, who preached peace and ended up crucified at the age of 33. “The Aeneid” is great poetry, it is Greek mythology and Roman mythology seasoned with History and a hint of nationalism. But its reading is delicious, especially if accompanied by Homer, Camões and Dante. Poets talk in verse, even if separated by centuries. If Brazil has a strong presence of the Italian colony that emigrated to South America, perhaps Eneias is walking around our roman-like streets. Virgil’s masterpiece would make a good series on Netflix.

Um poema meu publicado na mais recente edição da Revista “Conexão Literatura”/My poem published in the latest edition of magazine “Conexão Literatura”

Revista Conexão Literatura - N° 56 Fevereiro/2020 - Livreando

Queridos leitores do blog, foi publicado na mais recente edição da revista “Conexão Literatura” o meu poema ‘A Palavra Engana”. Para ler o poema (publicado na página 8) e a edição completa, veja o link:

Clique para acessar o conexao_literatura68.pdf

English – Dear blog followers, my poem “A Palavra Engana” has been published in the latest edition of magazine “Conexão Literatura”. Check it out on page 8 on the link below:

Clique para acessar o conexao_literatura68.pdf

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: