“Peaky Blinders” é uma série para se ver no escuro/”Peaky Blinders” is a series to be watched in the dark

Todos sabem que a maior e mais importante cidade da Inglaterra é Londres. No entanto, é menos conhecida a informação de que a segunda cidade do país é Birmingham, cidade natal de bandas importantes como Led Zeppelin e Black Sabbath. “Black” em inglês, “Noir”, em francês, é em Birmingham que se passa a escura série “Peaky Blinders” (em cartaz na Netflix), uma história de gângsteres nos anos 20 e 30 do século XX em uma Inglaterra pouco parecida com o modelo de prosperidade que apresenta ao mundo no século XXI.

O grupo dos “Peaky Blinders” realmente existiu, mas o barato dessa série é a mistura de realidade (a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola, o crack de 29 e personagens como Winston Churchill, Al Capone, Mussolini) com a ficção dos rumos de cada personagem na trama. Lembra a atmosfera de “O Poderoso Chefão”, com o protagonista Thomas Shelby (o excelente ator irlandês Cillian Murphy) sussurrando em uma rouca e charmosa voz suas inteligentes estratégias para conquistar poder e dinheiro. “Peaky Blinders” é uma série “noir” com um cenário preto de carvão e ilicitudes. 

Como se trata de uma série “noir”, predominam as imagens com pouca iluminação, escuras de transações do mercado negro. As frequentes cenas em túneis e em minas de carvão ajudam a escurecer a trama do submundo inglês. O criador da série, Steven Knight (torcedor fanático do Birmingham City Football Club), caprichou também na trilha sonora, cool e dark, com músicas de Bob Dylan, Arctic Monkeys, Nick Cave e David Bowie, entre outros. Caso você não conheça a cidade, “Peaky Blinders” serve como um cartão de visitas a cidade de Birmingham, cidade industrial que é berço de uma rica cultura. Curti muito assistir a essa série. Apague as luzes antes de começar a vê-la.

English:  Everyone knows that the largest and most important city in England is London. However, it is less known that the second city in the country is Birmingham, the birthplace of important bands like Led Zeppelin and Black Sabbath. “Black” in English, “Noir” in French, it is in Birmingham that the dark series “Peaky Blinders” (on Netflix) is set, a story of gangsters in the 1920s and 1930s in an England less similar to the model of prosperity it presents to the world in the 21st century.

The “Peaky Blinders” gang really existed, but the highlight of this series is the mix of reality (the First World War, the Spanish flu, the crash of 1929 and characters like Winston Churchill, Al Capone, Mussolini) with the fictional characters in the plot. It reminds us of the atmosphere of “The Godfather”, with the protagonist Thomas Shelby (the excellent Irish actor Cillian Murphy) whispering in a hoarse and charming voice his clever strategies to conquer power and money.

As it is a “noir” series, dark images of black market transactions predominate. The frequent scenes in tunnels and coal mines help to darken the plot of the English underworld. The series creator, Steven Knight (a fan of the Birmingham City Football Club), used a cool and dark soundtrack, with songs by Bob Dylan, Arctic Monkeys, Nick Cave and David Bowie, among others. If you have never been to Birmingham, “Peaky Blinders” is like a business card to the “Second City”, an industrial area in the Midlands and its rich culture. I really enjoyed watching this series. Turn off the lights before you start to see it. An do not go blind with the “Blinders”.

“Expresso do Amanhã” (“Snowpiercer”): Uma Série que custa o ingresso para dentro de um trem

Acabo de assistir na Netflix à primeira (e, por enquanto, única) temporada da série “Expresso do Amanhã” (no original, “Snowpiercer”). Trata-se de uma série cujo título em português já aponta para o tempo e para o espaço. “Expresso” remete à rapidez; “Amanhã”, ao futuro. O futuro tem pressa e caminha em alta velocidade contra o tempo. É uma distopia, na qual os únicos sobreviventes de um planeta Terra congelado e inabitável vivem em um trem, que não para de dar voltas (revoluções) ao redor do planeta, sobre trilhos escondidos sob a incessante neve. A palavra “revoluções”, com seu sentido geográfico e político, ganha força no simbolismo do trem. O cenário externo totalmente branco contrasta com as cores e os dramas vividos dentro do trem: 1.001 carros habitados por primeira, segunda e terceira classes, além da parte traseira do trem (clandestinos, que tentam ter acesso às outras classes do trem). 

É uma metáfora para uma sociedade desigual, na qual pobres servem os mais privilegiados, onde há fome, violência, riqueza e miséria. E muita disputa de poder. Baseado no longa homônimo (dirigido pelo sul-coreano Bong Joon Ho, de “Parasita”), a série conta com um bom e multitalentoso elenco ( o rapper Daveed Diggs, a cantora Lena Hall e a modelo Annalise Basso). Assistir a “Expresso do Amanhã” é descobrir-se passageiro de um trem prestes a descarrilar. Vale evocar a música da Legião Urbana: “Que país é esse?”. A segunda temporada promete.

“Em Ritmo de Fuga” (“Baby Driver”) é um filme pra ser visto com os ouvidos

O filme “Em Ritmo de Fuga” (no original “Baby Driver”), que estreou há poucos dias na Netflix,  é um ballet com belas coreografias que casam uma gostosa trilha sonora (jazz, rock, blues, pop) com cenas de tensão e lirismo. Algumas são memoráveis, como o início do filme, com um belo plano-sequência, no qual o jovem ator Ansel Elgort dança com a urbana paisagem da cidade de Atlanta. Ao lado dos oscarizados Kevin Spacey e Jamie Foxx, além da bela Lily James, Elgort anda, dirige, se apaixona e comete alguns deslizes morais – (co)movendo-se pelas batidas sonoras. Tiros são sincronizados com as batidas na bateria de um rock ou com o motor de uma máquina de lavar; as letras de uma música ditam os passos e as falas do ator: trata-se de um musical altamente criativo e com uma linguagem inovadora. Em tempos de quarentena, “Em Ritmo de Fuga” é uma fuga da pandemia em ritmo de arte em alto nível. Se ainda não viu, sugiro que você vá dançar agora mesmo esta fuga.

Um Livro no qual a Justiça não é justa

O melhor presente que alguém pode me dar é sempre um livro. Em meu aniversário deste ano, o professor Ramildo Miguel, meu amigo e colega, me presenteou com um autor baiano que me agradou bastante: Itamar Vieira Junior, autor do romance “Torto Arado”. Em uma linguagem enxuta, sem perder o lirismo, Itamar Vieira descreve a vida no sertão do ponto de vista de mulheres negras que trabalham na terra, arando filhos, construindo casa e escola e agriculturando um dia a dia pós Lei Áurea. Fazendeiros ricos e brancos impondo suas vontades sobre negros trabalhadores rurais perfazem o pano de fundo de um romance no qual a descoberta da própria identidade nasce com o saber do sangue que pinga no arado. Ler “Torto Arado” é alimentar a indignação de perceber-se parte de um mundo onde a Justiça nem sempre é justa.

O Cândido, de Voltaire, é um bom adubo para o nosso jardim

Um jardim é um espaço planejado para a exibição de plantas e flores. Um jardim tem as cores e o cheiro de quem o planta. Um jardim pode exalar perfume ou odores fétidos. O jardim é a metáfora de Cândido, protagonista de mais um romance que acabo de ler durante a quarentena que me tem isolado do contato com seres humanos de verdade. “Cândido ou o Otimismo”, escrito por Voltaire, conta a história de um homem que nasce servo e se transforma socialmente, sem nunca perder a sede de conhecimento e de entender a essência do ser humano. Apaixonado por uma mulher que lhe escapa das mãos algumas vezes, Cândido traz a doçura no nome, mas carrega a amargura nas aventuras que a vida arremessa a sua frente. Um questionador nato, ele, após perder a ingenuidade em uma quarentena que, assim como nós, sem ter o recurso do Zoom, o isola de quem ele mais ama, conclui: “vamos cultivar nosso jardim”. Recomendo esta flor de livro para o seu jardim.

Ler “O Quarto de Giovanni” é como ser decapitado por um capitão reformado

Na semana em que o mundo se lembra que racismo é crime, eu termino de ler “O Quarto de Giovanni”, um romance escrito por um grande escritor americano, James Baldwin. Na semana em que um policial americano branco sufoca com o joelho o americano negro George Floyd, já algemado e rendido, por nove minutos até a morte, eu termino de ler o romance em que Baldwin, um escritor negro e homossexual, não coloca personagens negros em primeiro plano. 

Na semana em que os cidadãos americanos desafiam o presidente Trump em vigílias e caminhadas pelas ruas pedindo justiça e o fim do racismo, leio, em “O Quarto de Giovanni”, a história de amor entre David, um americano que vive em Paris, e Giovanni, um italiano pobre que trabalha como garçom na mesma Paris. Vigiado pelo FBI nos anos 60 e 70, Baldwin foi um militante da causa negra, amigo de Malcolm X, Martin Luther King, Nina Simone e dos Panteras Negras. Em “O Quarto de Giovanni”, não há personagens negros, mas todos os personagens, com exceção de um, que morre, são estrangeiros em Paris.

Ser estrangeiro é ser marginal, é ser diferente. Ser negro e homossexual é uma espécie de estranhamento, de estrangeirismo. Estar no quarto com Giovanni é também estar escondido, no armário, protegido, desnudado de frente com aquilo que se é, mas que não pode ser mostrado. O quarto de Giovanni é o lado debaixo do tapete onde a sujeira fica escondida. O quarto de Giovanni é também o quarto de Gregor Samsa, o quarto de Mersault, estrangeiros estranhos, sujos, escondidos.

Desde o início, o narrador já avisa que Giovanni não vai terminar bem. E o romance todo é a construção das angústias de David e de Giovanni, um americano e um italiano, que dividem, durante poucos meses, um quarto cujas paredes guardam verdades que precisam ficar trancadas. James Baldwin precisa ser descoberto no Brasil. O Brasil, em 2020, é um país que sufoca seu povo com mentiras e sujeiras sob um tapete de impunidades. O pescoço de Giovanni e o pescoço de George Floyd carregam veias que também escorrem um Brasil que insiste em ser decapitado por um capitão.

Harriet Ann Jacobs e os “Incidentes na Vida de uma Menina Escrava”

Acabo de ler um livro americano que me trouxe ao Brasil. “Incidentes na Vida de uma Menina Escrava” é um híbrido de autobiografia, romance e manifesto, escrito por Harriet Ann Jacobs, nascida escrava nos EUA no início do século XIX.  Oprimida, violentada e silenciada no sul da América, Harriet escreve para um leitor branco, livre, com algum didatismo para tentar mostrar a um ser humano livre o que é viver sem ser dono de seus atos. Harriet é forte e resiste. Foge e se esconde por 7 anos em um cômodo, onde mal consegue mexer as pernas. Nos estados do sul da América, Harriet descreve um país cristão e hipócrita, que prega a justiça e a fraternidade enquanto escraviza o seu povo. Na América do Sul, no negro Brasil, Harriet, vivesse hoje, talvez também precisasse descobrir um cômodo para experimentar alguma liberdade de movimento. O Brasil do século XXI ainda esconde o que os EUA trancaram em incômodos cômodos no sul de bíblias que catequizaram séculos. Deus acima de todos? A leitura deste singelo romance me causou dores e me algemou no meio da pandemia.

Hannah Arendt: a dúvida que conforta/Hannah Arendt: the comforting doubt

Em tempos de isolamento por conta do coronavírus, me tranco em casa e me tranco nos livros. Ao me trancar nos livros, me tranco nos meus pensamentos. Em um momento de tranca interna, me caiu nas mãos um livro de filosofia. Fui apresentado à filósofa alemã Hannah Arendt ao terminar de ler agora o seu “A Condição Humana”. Trata-se de um passeio pela cultura grega, pela cultura romana, pelas ideias medievais e modernas, em um caminho de idas e vindas, mostrando como a filosofia se move de forma espiralada. Ao definir conceitos como labor, trabalho e ação, Hannah Arendt fala direto com o leitor angustiado do século XXI, que, confinado em um isolamento filosófico, convive com incertezas que podem ser amenizadas caso pratique a dinâmica capacidade de duvidar. É na dúvida que reside a democracia.

English: In times of self-isolation due to the corona virus, I lock myself in at home and in my books. While locked in the books, I lock my thoughts. Locked in and locked down, I have been introduced to the German philosopher Hannah Arendt, as I just finished reading “The Human Condition”. It is a journey through Greek and Roman cultures, through medieval and modern ideas, which show how philosophy evolves in a spiral movement. By defining concepts like labor, work and action, Hannah Arendt speaks to the distressed reader of the XXI Century, who, locked down by a philosophical self-isolation, goes hand in hand with uncertainties which can be softened if they practice the dynamic capacity to doubt. Democracy resides in doubt.

Uma série da Netflix que é um soco na boca e no olho do estômago/A Netflix series which prevents you from sleeping

Quem acompanha os meus comentários neste blog já percebeu que eu raramente deixo de ler um livro até o fim ou desisto de assistir a uma série antes do último episódio da última temporada. No entanto, eu quase não cheguei ao final do primeiro episódio de uma série da Netflix que me incomodou demais. “Olhos que condenam”  é uma série inspirada em fatos. Não recomendo que vocês a assistam após o jantar. Ele embrulha o estômago. Cinco jovens são injustamente acusados de estuprar uma jovem no Central Park, em Nova Iorque. Pretos, pobres e moradores do Harlem. Poderiam ser pretos, pobres e moradores de Paraisópolis. Lá, como aqui. A mesma pontada no estômago. Injustiça, preconceito e violência. Assistir a “Olhos que Condenam” é olhar para o nosso rosto no espelho. E é descobrirmos que somos feios, muito feios. Os olhos que condenam do título são os nossos próprios olhos. Respirei fundo, pausei algumas vezes e segui até o fim. Ainda estou seguindo uma dieta só de folhas e frutas, até que meu estômago se recupere.

English: If you usually read the posts in this blog, you have noticed that rarely do I quit reading a book before its end or stop watching a series in the first episode of its first season. However, I almost did not finish watching the first episode of the Netflix series “When They See Us”. It made me feel disturbed and upset. Five boys are unfairly accused of raping a young lady in Central Park, New York. Black, poor boys from Harlem. They could as well be black, poor Brazilian boys from Paraisópolis. Far away, so close. “When They See Us” – when they see US, they also see Brazil. Watching this series is like looking in the mirror. And realize how ugly we are. I took a deep breath, paused here and there and then moved on to the end of the first episode. Did the same thing in the four episodes. I struggled to finish one of the most painful series I have ever watched. I recommend you get a relaxing place on the sofa and watch it with an empty stomach. Otherwise your digestion might upset you. But do not go to bed without “When they see us”.

Um Clássico para os Clássicos/A Classic for the Classics

Tenho muita curiosidade para saber quais autores os grandes autores leram. Os livros clássicos para os autores clássicos. Acho que acabei de ler um desses: um livro que os grandes leram e que influenciou a obra que criaram, séculos depois, milênios depois. Sim, falo de um livro escrito há muitos anos, no século II d.C., e que deixou ecos visíveis nos grandes autores que vieram depois – “O Asno de Ouro”. Escrito por Apuleio, nascido por volta de 125 d.C. na atual Argélia, então pertencente ao Império Romano, que se casou com uma rica viúva, mãe de um amigo seu. Foi acusado por parentes da esposa de ter usado magia para conquistar a mulher, o que era considerado um crime passível de ser punido com pena de morte pelas leis romanas. Apuleio foi julgado e, tendo realizado sua própria defesa, foi inocentado. “O Asno de Ouro” tem claras influências autobiográficas: trata-se da transformação do protagonista Lúcio em asno por Fótis, que, querendo fabricar um pássaro, metamorfoseou Lúcio em um burro, com grandes orelhas que a tudo ao seu redor ouvia. Com isso, Lúcio, o asno do título, enxergou a essência da alma humana, através da observação invisível dos mistérios da vida cotidiana. Na presença do asno, todos se mostram por inteiro. E é aí que nós, leitores do século XXI, podemos ouvir os ecos dos grandes autores que, provavelmente, entraram em contato com este “Asno” e deixaram rastros em seus livros. Só para citar alguns exemplos, há, no romance aventuresco de costumes de Apuleio, um quê das engraçadas aventuras de de “Dom Quixote”, do pícaro de “Lazarilho de Tormes”, da traição de “Hamlet”, das histórias de alcova de Boccaccio, da metamorfose de Kafka, das conversas com o leitor de Machado de Assis, do burrinho pedrês de Guimarães Rosa e tantos mais. Ficou curioso? Pois “O Asno de Ouro” merece a leitura. É a primeira cor de um arco-íris que vem tingindo a literatura mundial desde a época em que acreditar em um só deus era considerado um vício hipócrita. Os deuses estão dispostos a ajudar burros a se humanizarem. Apuleio, crucificá-lo, jamais!

English: I have always been curious to know which authors the great authors have read. I guess I have just finished reading one of them – “The Golden Ass”, by Apuleius, written in the II Century A.D. There are some autobiographical features in this novel, as Apuleius, born in current Algeria, then part of the Roman Empire, married a rich widow, mother of a friend of his. Apuleius was accused of using magic spells to conquer her, which was considered a crime by Roman laws punished with death penalty. Being his own defense attorney, Apuleius was judged and found not guilty. “The Golden Ass” tells a story written with elements of Apuleius´s own life: it is the story of Lucius, who experiments with magic and is accidently turned into an ass. Lucius, with his big ears, can then hear the essence of men´s soul and can observe the mystery of everyday life. In the presence of an ass, people can show who they really are. And that is where we, XXI Century readers, can hear the echoes of great authors who might have had contact with Apuleius´s literature. To name but a few: “Don Quixote”, the betrayal of Hamlet, Boccaccio´s sex stories, Kafka´s metamorphosis novel and Machado de Assis. Are you curious? “The Golden Ass” is worth reading, as it is the first color of a rainbow of writers who have been making first class world literature. Please, do not crucify him!