Cazuza, meus inimigos estão no poder/Cazuza, my enemies are in command

Exagerado: a carreira marcante de Cazuza | Em tempo

Tenho visto muitos vídeos no YouTube. Adoro mergulhar em pessoas e assuntos que me intrigam, que me inspiram, ver entrevistas, shows, conversas. Gente que já se foi há tempos segue muito viva em mim. Um destes que insistem em não morrer para mim é o Cazuza.

Dentro da minha orelha fria, Cazuza segue cochichando segredos encaracolados em ideologias que precisam dizer que me amam. Faz parte do show dele, um show de mentiras sinceras. Tudo isso me interessa, principalmente em tempos de ideologias, eu quero uma. Em tempos de ideologia de gênero, o gênero musical que eu mais tenho ouvido são os versos eróticos que Cazuza compôs olhando a cara da morte.

A morte espirra no Brasil um vírus exagerado, inventado, invadido. O nosso amor, a gente inventa. Meus inimigos estão no poder. A falsidade é popular, pra que usar de tanta educação pra destilar terceiras intenções? Eu ouço Cazuza hoje e escuto o presente como um museu de grandes novidades. Vida louca, vida imensa, O Brasil é um crime que não pensa, não compensa.  Mas que cabe no Bolso.

Eu protegi o teu nome por amor. Amor aos brasileiros que sentem fome e não pensam. Vida intensa. Nós na batida, no embalo da rede, fantasiando segredos. O teu futuro é duvidoso. Brasil, mostra a tua cara, vai. Pro dia nascer feliz.

O Brasil chora. O Brasil arde uma dor. Cazuza morreu há 30 anos. Mas seus versos ainda dançam no infinito dos cliques do You Tube, em um tubo de sonhos. Quem tem um sonho não dança. Cazuza, continue criando versos, nadando contra a corrente. Essa é a vida que eu quis. O tempo anda feio. Por isso, busco no YouTube um às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. O Brasil hoje arde uma dor em que nem as mães são felizes. O Brasil desperdiça o seu mel em tempos em que nem mesmo beija a flor. Eu quero outros tempos. O tempo não para. O Brasil chora uma festa brega de brigas. O Brasil, hoje, é uma dor, um Arpoador. Não me convidaram pra esta festa pobre, mas ela faz parte do nosso triste show. Quero que este show acabe logo, antes da Sessão Coruja, pois estamos por um triz.

Meu Brasil é um Brasil partido. Cazuza, cem gramas, sem dramas, por que a gente é assim?

English I have seen lots of videos on YouTube. I love to dive into people and topics that intrigue me, that inspire me. I love to watch interviews, concerts, talks. People who are long gone are still very much alive in me. One of those who insist on not dying for me is Cazuza.

Inside my cold ear, Cazuza continues to whisper curly secrets in ideologies that need to say that they love me. It is part of his show, a show of sincere lies. All of this interests me, especially in times of ideologies, I want one. In times of gender ideology, the musical genre that I have heard the most are the erotic verses that Cazuza composed looking death in the eyes.

Death in Brazil sneezes an exaggerated, invented, invaded virus. We invent our love. My enemies are in command. Falsehood is popular, why use so much politeness to distill third intentions? I listen to Cazuza today and listen to the present as a museum of great novelties. Crazy life, immense life, Brazil is a crime that does not think, does not pay. But it fits in the pocket of Bolso.

I protected your name out of love. Love for Brazilians who feel hungry and don’t think. Intense life. Us on the beat, us on the net, fantasizing secrets. Your future is doubtful. Brazil, show us your face, please. So another morning can shine in happiness. 

Brazil cries. Brazil burns with pain. Cazuza died 30 years ago. But his verses still dance in the infinite clicks of YouTube, in a tube of dreams. Whoever has a dream does not dance. Cazuza, keep creating verses, swimming against the current. This is the life I wanted. Our times are ugly. So, I search on YouTube the hate I feel for you for almost one second, then I love you more. Brazil today burns a pain in which even mothers are not happy. Brazil wastes its honey in times when it does not even kiss the flower. I want other times. Time does not stop. Brazil mourns a fierce party of fights. Brazil today is a pain in Arpoador. I was not invited to this poor party, but it is part of our sad show. I want this show to end soon, before the Night Owl, because we are on the verge of dying.

My Brazil is a parted Brazil. Cazuza, one hundred grams, without programs, why are we like this?

Tarantino é o meu cineasta favorito/Tarantino is my favorite moviemaker

Pulp Fiction – Wikipédia, a enciclopédia livre

Quentin Tarantino é o meu diretor de cinema favorito. Seus filmes são um diálogo permanente com a cultura pop, com a cultura clássica e com o próprio cinema. Adoro assistir, mas, mais do assistir, eu gosto mesmo é de rever os seus filmes.

Na última semana decidi fazer uma maratona tarantinesca. Assisti na sequência todos os filmes dele disponíveis na Netflix e na Amazon Prime. Vistos em série, fica mais fácil perceber como um filme conversa com o outro, é possível enxergar o fio transparente com que Tarantino costura as histórias. Personagens, nomes e objetos saem de um e visitam outros filmes tarantinescos, recheados com uma violência bem-humorada e sempre com uma trilha sonora deliciosa. 

Em seus filmes, há sempre uma crítica social e uma crítica psicológica, na qual Tarantino costuma dar voz a minorias e tenta “corrigir” a História, assumindo uma culpa social e oferecendo alguma redenção. Em “Bastardos Inglórios”, os judeus, dentro do cinema, derrotam o nazismo. Em “Kill Bill” e em “À Prova de Morte”, a mulher se impõe a séculos de machismo. Em “Django”, o negro escravizado fecha o punho e afirma que “Black Lives Matter”.

No entanto, de todos os filmes do meu diretor favorito, o meu favorito é “Pulp Fiction”. A chave para entendê-lo está no subtítulo da tradução para o português no Brasil: “Tempo de Violência”. O tempo é o condutor das três histórias dentro do filme. Um relógio que passa de geração em geração por um século. O grande astro do cinema na década de 1970 (John Travolta) derrotado pelo grande astro do cinema na década de 1980 (Bruce Willis) dentro do filme feito nos anos 1990. A garota mimada que cresce sob a música “Girl, you will be a woman soon”. Relógios e mais relógios espalhados nas paredes em cenas regadas a violência e suspense comprimem a tensão do espectador em minutos que nos prendem à poltrona. E, ao chegar ao fim do filme, eu volto a ser criança e sempre tenho vontade de assistir a tudo de novo. 

Sim, Tarantino é meu cineasta favorito. Deste e de outros tempos.

English Quentin Tarantino is my favorite movie director. His films are a permanent dialog between pop culture, classic culture and cinema itself. I love to watch them, but, more than watching, I really like to rewatch his movies.

Last week I indulged myself in binge watching Tarantino. I saw all of his films available on Netflix and Amazon Prime. When watched in a sequence, it becomes easier to realize how one film talks to another, and it is possible to see the transparent thread which Tarantino uses to sew his plots. Same characters, names and objects invade and visit his movies, filled with good-natured violence and a delicious soundtrack.

In his films, there is always a social criticism and a psychological criticism, in which Tarantino usually gives voice to minorities and tries to “correct” History, admitting a social guilt and providing some redemption. In “Inglorious Basterds”, the Jews, within the cinema, defeat Nazism. In “Kill Bill” and in “Death Proof”, women impose themselves over centuries of sexism. In “Django”, the enslaved blacks clench their fists and claim that “Black Lives Matter”.

However, of all my favorite director’s movies, my favorite one is “Pulp Fiction”. The key to understanding it is in the title of it in the Brazilian Portuguese translation: “Time of Violence” (“Tempo de Violência”). Time is the driver of the three stories within the film. A watch that passes down from generation to generation for a century. The great movie star in the 1970s (John Travolta) defeated by the big movie star in the 1980s (Bruce Willis) within a movie made in the 1990s. The spoiled girl who grows up under the song “Girl, you`ll be a woman soon”. Clocks and more clocks scattered on the walls in scenes watered with violence and suspense compress the viewer’s tension in minutes that tie us down to the armchair. And when I get to the end of the film, Iike a child, I always feel like watching it all over again.

Yes, Tarantino is my favorite moviemaker. From this and other times.

Não Lerás País Nenhum/You Shall Read No Country-

Não Verás País Nenhum - Ignácio De Loyola Brandão - Traça Livraria e Sebo

George Orwell escreveu a distopia “1984” quarenta anos antes do ano que dá título ao livro, na década de 1940. Nos anos 80 do século vinte, Ignácio de Loyola Brandão escreveu uma distopia cujo enredo se passa em São Paulo em um futuro que poderia ocorrer quarenta anos após a publicação. Se você fizer as contas, 40 anos após os anos 1980 apontarão para os nossos dias. O romance de Ignácio de Loyola Brandão “Não Verás País Nenhum” se passa em um futuro incerto, mas bem que poderia descrever o mundo que nos cerca hoje.

Vivemos tempos de incerteza, de terror, de perdas, de morte. Centenas de pessoas morrem todos os dias há meses no Brasil. O país não apresenta soluções, as lideranças se ausentam, o Ministério da Saúde nega a doença e pede para as pessoas não se protegerem da morte, que está no ar. Trump e Bolsonaro seguem populares. O absurdo dos nossos dias pauta o enredo do romance distópico de Loyola Brandão: um homem não consegue entender o fato de sua mulher desaparecer sem dar notícias; sua casa é invadida por estranhos que passam a morar ali e se apossar dos móveis; a comida desaparece; o emprego o aposenta; o livre-arbítrio passa a ser comandado pelo governo de de um Brasil que apagou a memória do povo; a cidade de São Paulo é um espaço árido e habitado por pessoas que se aglomeram em sujeira, sede e em acusações sem provas.

Ler este livro de Loyola Brandão hoje traz um amargo gosto de espelho. Um espelho que mostra a quem o encara a visão de que o país nenhum que não verás está se afirmando por inteiro na fumaça amazônica que arde no olho que o vê dentro e fora do livro.  Em quarentena, li “Não Verás País Nenhum” e, a cada página, eu me via na história. Este romance nunca foi tão atual no Brasil.

English George Orwell wrote the dystopia “1984” forty years before the year that gave the book its title, in the 1940s. In the 1980s, Ignácio de Loyola Brandão wrote a dystopia whose story takes place in São Paulo in a future that could take place forty years after its publication. If you do the math, 40 years after the 1980s will point to our day. Ignácio de Loyola Brandão’s novel “Não Verás País Nenhum” (“You Shall See No Country”) takes place in an uncertain future, but it could well describe the world around us today.

We live in times of uncertainty, of terror, of losses, of death. Hundreds of people have died every day for months in Brazil. The country has no solutions to it, the leaders are absent, the Ministry of Health denies the disease and asks people not to protect themselves from death, which is in the air. Trump and Bolsonaro remain popular. The absurdity of our days guides the plot of Loyola Brandão’s dystopian novel: a man cannot understand the fact that his wife disappears without any previous warning; his house is invaded by strangers who start to live there and get hold of the furniture; the food disappears; employment retires you; free will starts to be commanded by the government of a Brazil that erased the memory of its people; the city of São Paulo is an arid space inhabited by people who crowd in dirt, thirst and in accusations without proof.

Reading this book by Loyola Brandão today brings a bitter taste of mirror. A mirror that shows the viewer that the country that you shall not see is asserting itself entirely in the Amazonian smoke that burns down in the eye that sees it inside and outside the book. In self-isolation, I read “Não Verás País Nenhum” (“You Shall See No Country”) and, on each page, I saw myself in the plot. This novel has never been as real in Brazil as it is today.

Inspire-se e Pire-se com Livros/ Get yourself inspired and go wild with books*

Distopia: aprenda mais sobre a sociedade e política através desses livros

Estou isolado desde março de 2020. Sem sair à rua, sem andar na calçada, sem sentir o cheiro da fumaça dos ônibus, sem entrar no banco, sem esperar na fila do pãozinho na padaria, sem apertar a mão de alguém. Estou mascarado. Sinto o hálito no meu rosto. Sinto minha unha crescer, meu cabelo embranquecer para baixo, minha saliva mergulhar pela garganta. Meu nariz respira o isolamento que já conta praticamente um outono e um inverno inteiros. O isolamento é frio.

O sol nasce no meu quarto, a noite nasce na minha sala, a notícia nasce na TV todos os dias em mil e uma mortes. Estou isolado dentro de um distanciamento. Sem pessoas para trocar um aperto de mão, eu me isolo no abraço que os livros me oferecem. A pandemia espalha vírus impressos em páginas as quais eu tenho permissão de olhar sem usar máscaras. Na pandemia do coronavírus, isolado em casa, me martelo na madeira da estante que sustenta um universo em verso e prosa.

Encarcerado no meu quarto, me permito ser algemado por livros que tonificam o limite de meus movimentos. Sou observado pelo olho do Grande Irmão de “1984” e volto assustado para a poltrona. Tento olhar pela janela, mas não consigo enxergar nada além de uma branca capa de papel de “O Ensaio sobre a Cegueira”. Viro as páginas do romance do Saramago e percebo que já estou em outro livro, agora no Brasil, ainda cego dentro de “Não Verás País Nenhum”. De Loyola ao Canadá, eu entendo que o isolamento é mundial, em todos os cantos, todos os contos e desencontros do “Conto da Aia”. Vou à cozinha e espremo um suco artificial de uma amarga “Laranja Mecânica”. No primeiro gole, me transformo em uma barata.

“A Metamorfose” me provoca pesadelos em uma noite de sonhos intranquilos nos quais “Eu, Robô”, só penso em roubar um “Admirável Mundo Novo” no qual “Androides sonham com Ovelhas Elétricas” e “A Estrada” é a rouca voz de um “Homem na Escuridão”. Já no banheiro, me olho no espelho e berro para ninguém ouvir: “Não me abandone jamais”. E, sem achar graça nenhuma, choro no subsolo na “Divina Comédia”. O isolamento destrói o tempo em uma fria “Máquina do Tempo”.

Estou isolado desde março de 2020. Espirro a tinta dos parágrafos. Expiro as capas dos capítulos. E inspiro histórias que me fazem escapar de um isolamento físico, que me inspira a entrar desmascarado em distopias fictícias que apertam a minha mão. Isolado em casa, eu respiro, expiro, inspiro. E, na solidão de um livro ao alcance de meus dedos higienizados de contato humano, eu piro.

English – I have been self-isolated since March 2020. Without going out on the streets, without walking on the sidewalk, without smelling the smoke from the buses, without going into the bank, without waiting in line for bread at the bakery, without shaking someone’s hand. I’m masked. I feel my own breath on my face. I feel my nail grow, my hair whiten down, my saliva plunge down my throat. My nose breathes in the isolation that has practically covered a whole autumn and a winter. Being self-isolated feels cold.

The sun rises in my room, the night rises in my living room, the news rises on TV every day in a thousand and one deaths. I am self-isolated within a distance. Without people around me to shake hands, I isolate myself in the embrace that books offer me. The pandemic spreads viruses printed out on pages that I am allowed to look at without wearing masks. In the coronavirus pandemic, self-isolated at home, I hammer myself on the wood of the bookshelf that holds a universe in verse and prose.

Imprisoned in my room, I allow myself to be handcuffed by books that tone the limit of my movements. I am watched by the eye of Big Brother from “1984” and I return to the armchair in awe. I try to look out the window, but I can’t see anything but a white paper cover of “Blindness”. I turn the pages of Saramago’s novel and realize that I am already inside another novel, now in Brazil, still blind within “No Country To Be Seen”. From Loyola to Canada, I understand that self-isolation is worldwide, in all corners, all the tales of the “The Handmaid´s Tale”. I go to the kitchen and squeeze an artificial juice from a bitter “Clockwork Orange”. In the first sip, I become a cockroach.

“Metamorphosis” causes me nightmares in a night of uneasy dreams in which “I, Robot”, only think of robbing a “Brave New World” in which I ask myself: “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. And the answer blows into “The Road” in a hoarse voice of a “Man in the Dark”. In the bathroom, I look at myself in the mirror and shout so no one can hear: “Never Let Me Go”. And, lost within my tears, I cry alone under the ninth circle of the  “Divine Comedy”. My self-isolation destroys time in a cold “Time Machine”.

I’ve been self-isolated since March 2020. I sneeze out ink into paragraphs. I exhale the covers on top of chapters. And I inhale stories that make me escape physical isolation; stories that inspire me to unmask myself into fictional dystopias that shake my hand. Self-isolated at home, I breathe in, breathe out and in again. And, in the solitude of a book within reach of my sanitized fingers, isolated from any human contact, I go wild, like Oscar Wilde.

Um livro russo que faz o ato de ler ser uma maratona no streaming/ Reading this Russian novel is like binge watching a streaming series

Oblomov | Amazon.com.br

Li o romance “Oblómov” como quem assiste a uma série na Netflix. Escrito no século 19 pelo russo Ivan Gontcharóv, Oblómov é um sujeito que vive os últimos suspiros da nobreza na Rússia, que usufrui o privilégio  de ter servidores em sua casa. Mas que, enquanto o país se transforma, enquanto a nobreza vai desaparecendo, ele não reage e passa seus dias deitado na cama e no sofá, com preguiça e sem vontade de salvar a sua propriedade, de salvar a sua saúde, de salvar o amor por Olga, de dar algum sentido à vida.

“Oblómov” é um calhamaço de mais de 600 páginas. É um livro do romantismo russo, meio água com açúcar, mais próximo de uma história de José de Alencar do que das complexas tramas psicológicas de Tolstói ou Dostoiévski. Enquanto eu atravessava as centenas de páginas do livro, pensava que foi publicado como folhetim, em capítulos semanais nos jornais russos. E me deixei levar por essa estrutura do século 19 ao mesmo tempo em que tentava saboreá-la como assisto a uma série da Netflix, maratonando vários capítulos do livro e tendo total controle do momento e do local em que quis lê-lo. Ler “Oblómov” como assisto a uma série em streaming me deixou otimista em relação à sobrevivência do livro: afinal, o ato de ler e alimentar a mente com a ficção está na origem do cada vez mais crescente hábito de mergulhar em histórias que pingam nas temporadas que invadem nossas vidas no século 21. “Oblómov” é uma história que se estica por capítulos desnecessários, redundantes, mas que é capaz de fazer o leitor seguir lendo pois é difícil não se identificar com um personagem tão próximo de nós. A preguiça nos une em remotos séculos, antes do essencial controle remoto. O sofá de Oblómov é a história da qual não dá vontade de levantar.

English I read the novel “Oblómov” as if I was watching a series on Netflix. Written in the 19th century by Russian Ivan Gontcharóv, Oblómov is a guy who lives the last breaths of the nobility in Russia, who enjoys the privilege of having servants in his house. However, as the country changes, while the nobility fades away, he does not react and instead spends his days lying in bed and on the couch, lazily and unwilling to save his property, to save his health, to save his love by Olga, to give some meaning to life.

“Oblómov” is a novel with more than 600 pages. It is a book from Russian romanticism, wishy-washy, closer to a novel by José de Alencar than to the complex psychological plots by Tolstoy or Dostoevsky. As I went through the hundreds of pages of the book, I figured out it was published as a serial, in weekly chapters in Russian newspapers. And I let myself be carried away by this 19th century structure while trying to enjoy it as I watch a Netflix series, feeling the taste of the several chapters of the book and having total control of when and where I wanted to read it. Reading “Oblómov” as I watch a streaming series made me optimistic about the book’s survival: after all, the act of reading and feeding the mind with fiction is at the origin of the growing habit of diving into stories that drip into seasons that invade our lives in the 21st century. “Oblómov” is a story that stretches through unnecessary, redundant chapters, but that is able to keep the reader reading because it is difficult not to identify with a character so close to us. Laziness unites us in remote centuries, before the essential invention of the remote control. Oblómov’s couch is a story we do not want to get up from.

“Peaky Blinders” é uma série para se ver no escuro/”Peaky Blinders” is a series to be watched in the dark

Peaky Blinders: Jogo baseado na série da Netflix será lançado em agosto

Todos sabem que a maior e mais importante cidade da Inglaterra é Londres. No entanto, é menos conhecida a informação de que a segunda cidade do país é Birmingham, cidade natal de bandas importantes como Led Zeppelin e Black Sabbath. “Black” em inglês, “Noir”, em francês, é em Birmingham que se passa a escura série “Peaky Blinders” (em cartaz na Netflix), uma história de gângsteres nos anos 20 e 30 do século XX em uma Inglaterra pouco parecida com o modelo de prosperidade que apresenta ao mundo no século XXI.

O grupo dos “Peaky Blinders” realmente existiu, mas o barato dessa série é a mistura de realidade (a Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola, o crack de 29 e personagens como Winston Churchill, Al Capone, Mussolini) com a ficção dos rumos de cada personagem na trama. Lembra a atmosfera de “O Poderoso Chefão”, com o protagonista Thomas Shelby (o excelente ator irlandês Cillian Murphy) sussurrando em uma rouca e charmosa voz suas inteligentes estratégias para conquistar poder e dinheiro. “Peaky Blinders” é uma série “noir” com um cenário preto de carvão e ilicitudes. 

Como se trata de uma série “noir”, predominam as imagens com pouca iluminação, escuras de transações do mercado negro. As frequentes cenas em túneis e em minas de carvão ajudam a escurecer a trama do submundo inglês. O criador da série, Steven Knight (torcedor fanático do Birmingham City Football Club), caprichou também na trilha sonora, cool e dark, com músicas de Bob Dylan, Arctic Monkeys, Nick Cave e David Bowie, entre outros. Caso você não conheça a cidade, “Peaky Blinders” serve como um cartão de visitas a cidade de Birmingham, cidade industrial que é berço de uma rica cultura. Curti muito assistir a essa série. Apague as luzes antes de começar a vê-la.

English:  Everyone knows that the largest and most important city in England is London. However, it is less known that the second city in the country is Birmingham, the birthplace of important bands like Led Zeppelin and Black Sabbath. “Black” in English, “Noir” in French, it is in Birmingham that the dark series “Peaky Blinders” (on Netflix) is set, a story of gangsters in the 1920s and 1930s in an England less similar to the model of prosperity it presents to the world in the 21st century.

The “Peaky Blinders” gang really existed, but the highlight of this series is the mix of reality (the First World War, the Spanish flu, the crash of 1929 and characters like Winston Churchill, Al Capone, Mussolini) with the fictional characters in the plot. It reminds us of the atmosphere of “The Godfather”, with the protagonist Thomas Shelby (the excellent Irish actor Cillian Murphy) whispering in a hoarse and charming voice his clever strategies to conquer power and money.

As it is a “noir” series, dark images of black market transactions predominate. The frequent scenes in tunnels and coal mines help to darken the plot of the English underworld. The series creator, Steven Knight (a fan of the Birmingham City Football Club), used a cool and dark soundtrack, with songs by Bob Dylan, Arctic Monkeys, Nick Cave and David Bowie, among others. If you have never been to Birmingham, “Peaky Blinders” is like a business card to the “Second City”, an industrial area in the Midlands and its rich culture. I really enjoyed watching this series. Turn off the lights before you start to see it. An do not go blind with the “Blinders”.

“Expresso do Amanhã” (“Snowpiercer”): Uma Série que custa o ingresso para dentro de um trem

Watch Snowpiercer | Prime Video

Acabo de assistir na Netflix à primeira (e, por enquanto, única) temporada da série “Expresso do Amanhã” (no original, “Snowpiercer”). Trata-se de uma série cujo título em português já aponta para o tempo e para o espaço. “Expresso” remete à rapidez; “Amanhã”, ao futuro. O futuro tem pressa e caminha em alta velocidade contra o tempo. É uma distopia, na qual os únicos sobreviventes de um planeta Terra congelado e inabitável vivem em um trem, que não para de dar voltas (revoluções) ao redor do planeta, sobre trilhos escondidos sob a incessante neve. A palavra “revoluções”, com seu sentido geográfico e político, ganha força no simbolismo do trem. O cenário externo totalmente branco contrasta com as cores e os dramas vividos dentro do trem: 1.001 carros habitados por primeira, segunda e terceira classes, além da parte traseira do trem (clandestinos, que tentam ter acesso às outras classes do trem). 

É uma metáfora para uma sociedade desigual, na qual pobres servem os mais privilegiados, onde há fome, violência, riqueza e miséria. E muita disputa de poder. Baseado no longa homônimo (dirigido pelo sul-coreano Bong Joon Ho, de “Parasita”), a série conta com um bom e multitalentoso elenco ( o rapper Daveed Diggs, a cantora Lena Hall e a modelo Annalise Basso). Assistir a “Expresso do Amanhã” é descobrir-se passageiro de um trem prestes a descarrilar. Vale evocar a música da Legião Urbana: “Que país é esse?”. A segunda temporada promete.

“Em Ritmo de Fuga” (“Baby Driver”) é um filme pra ser visto com os ouvidos

Baby Driver: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Bernthal, Jon  Hamm, Jamie Foxx, Eiza González, Flea, Sky Ferreira, Lanny Joon, Edgar  Wright, Tim Bevan, Eric Fellner, Nira Park, Bambino Films UK

O filme “Em Ritmo de Fuga” (no original “Baby Driver”), que estreou há poucos dias na Netflix,  é um ballet com belas coreografias que casam uma gostosa trilha sonora (jazz, rock, blues, pop) com cenas de tensão e lirismo. Algumas são memoráveis, como o início do filme, com um belo plano-sequência, no qual o jovem ator Ansel Elgort dança com a urbana paisagem da cidade de Atlanta. Ao lado dos oscarizados Kevin Spacey e Jamie Foxx, além da bela Lily James, Elgort anda, dirige, se apaixona e comete alguns deslizes morais – (co)movendo-se pelas batidas sonoras. Tiros são sincronizados com as batidas na bateria de um rock ou com o motor de uma máquina de lavar; as letras de uma música ditam os passos e as falas do ator: trata-se de um musical altamente criativo e com uma linguagem inovadora. Em tempos de quarentena, “Em Ritmo de Fuga” é uma fuga da pandemia em ritmo de arte em alto nível. Se ainda não viu, sugiro que você vá dançar agora mesmo esta fuga.

Um Livro no qual a Justiça não é justa

Torto arado | Amazon.com.br

O melhor presente que alguém pode me dar é sempre um livro. Em meu aniversário deste ano, o professor Ramildo Miguel, meu amigo e colega, me presenteou com um autor baiano que me agradou bastante: Itamar Vieira Junior, autor do romance “Torto Arado”. Em uma linguagem enxuta, sem perder o lirismo, Itamar Vieira descreve a vida no sertão do ponto de vista de mulheres negras que trabalham na terra, arando filhos, construindo casa e escola e agriculturando um dia a dia pós Lei Áurea. Fazendeiros ricos e brancos impondo suas vontades sobre negros trabalhadores rurais perfazem o pano de fundo de um romance no qual a descoberta da própria identidade nasce com o saber do sangue que pinga no arado. Ler “Torto Arado” é alimentar a indignação de perceber-se parte de um mundo onde a Justiça nem sempre é justa.

O Cândido, de Voltaire, é um bom adubo para o nosso jardim

Candide: Voltaire: 9781087113494: Amazon.com: Books

Um jardim é um espaço planejado para a exibição de plantas e flores. Um jardim tem as cores e o cheiro de quem o planta. Um jardim pode exalar perfume ou odores fétidos. O jardim é a metáfora de Cândido, protagonista de mais um romance que acabo de ler durante a quarentena que me tem isolado do contato com seres humanos de verdade. “Cândido ou o Otimismo”, escrito por Voltaire, conta a história de um homem que nasce servo e se transforma socialmente, sem nunca perder a sede de conhecimento e de entender a essência do ser humano. Apaixonado por uma mulher que lhe escapa das mãos algumas vezes, Cândido traz a doçura no nome, mas carrega a amargura nas aventuras que a vida arremessa a sua frente. Um questionador nato, ele, após perder a ingenuidade em uma quarentena que, assim como nós, sem ter o recurso do Zoom, o isola de quem ele mais ama, conclui: “vamos cultivar nosso jardim”. Recomendo esta flor de livro para o seu jardim.

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