Cerimônia de Premiação: Um Conto meu entre os premiados/Award Ceremony my Short Story was awarded

Prêmio de Literatura vai pagar R$ 212 mil a escritores em Minas - HOME

Hoje, às 19h00, receberei o prêmio no Concurso Literário Abrace um Autor. Meu conto “Dedicatória” ficou em segundo lugar. A cerimônia poderá ser acompanhada em live na conta do Instagram do Projeto Abrace um Autor. Abraço! https://www.instagram.com/p/CHxz7InjvW6/?igshid=1qnc2gr26h7wc

English – Tonight, at 7:00PM, the “Abrace um Autor” Award will host their Ceremony to the contest winners. My short story “Dedicatória” will receive the award for second best. You will be able to watch the ceremony live on Instagram on the Abraceumautor account:   https://www.instagram.com/p/CHxz7InjvW6/?igshid=1qnc2gr26h7wc

A Morte de Maradona/Maradona´s Death

Maradona relata bronca após gol de mão: "Cala a boca e continua  comemorando" | futebol argentino | ge

Chorei este poema após a morte do Maradona./I cried this poem after Maradona´s death

Ao Mar, a Dona

O mar é um horizonte de belos e bons ares

O mar é lento, é lenda

O mar é muito, é mito

O mar é um tempo de ampulhetas

O mar é uma onda

que sobe alto e toca o dedo do céu

mas depois desce forte 

e, de peixinho,

mergulha de cabeça no calor subterrâneo

O mar é um amargo gole em uma caneca Canniggia

O mar é um cano de enganos

O mar é uma bola

O mar é redondo, mas

O mar tem ângulos

O mar é um gol, uma trave, um entrave

O mar tem sal

O mar espuma

Um branco pó

Um dó

Uma dor

Amadora

Profissional

O mar, em horas,

No agora do gol

Agoniza um trago

Um tango

Um drible improvável

Na pátria

Na máfia

O mar é água

O mar é líquido

Escorre pelas mãos

Corre com as mãos

O mar é não

O mar é tão

O mar é são

O mar, então,

è uma guerra que mal vi nas

poucas vidas duramente ditadas

O mar é um século

O mar são vinte séculos

O mar é um século que acabou ontem

Após 90 minutos

Em um tiro artilheiro

O mar é um chute canhoto

O mar é um raio escanteio

O mar é um impedimento

Uma bandeira vermelha erguida com o punho fechado

O mar é fêmea

O mar é a mar

A mar é um sentimento que tem dono

Ao Mar, a Dona

Anderson Borges Costa

Vidas Negras Importam/Black Lives Matter

Camiseta Cinza/Branca Vidas Negras Importam | Reserva INK

A palavra francesa “Carrefour” significa, em português, “cruzamento”, “encruzilhada”. A palavra encruzilhada vem de cruz. A palavra cruz é carregada nas costas. As costas sustentam o passado, a ascendência, o trabalho. O trabalho, no passado, não era pago, era escravizado. Os escravizados tinham a pele negra, o sangue vermelho, o joelho de osso. A pele escravizada suava rugas, que envelheciam chicotes e enferrujavam correntes. Correntes, no presente, são presentes, que enfeitam pescoços com cruzes. Cruz é uma palavra com apenas uma sílaba. Fome se escreve com uma sílaba. Justiça se pronuncia em um só fôlego. Preconceito se grita em um assopro. Escravizado é um adjetivo escrito com uma sílaba há séculos. Um século são uma centena, uma sentença de anos que nunca foram alforriados. A alforria podia ser comprada. A carta de alforria está à venda no mercado Carrefour, onde, com fome, João Alberto carrega uma cruz para respirar. “Carrefour” é uma palavra cuja última sílaba é o número “four”, que são quatro pontos cardeais: o Morte, o Susto, o Lese e o Peste. No mercado da vida, o negro é uma mercadoria importada da África. A África exportou vida e rugas para o Brasil. O negro, de quatro, no mercado, cruz no pescoço, é um produto barato na prateleira de importados. A vida, no Brasil, é um equívoco importado. Uma cruz crucificada. A vida pulsa em negros grotões de grades e portas. Vidas negram importam.

English – The French word “Carrefour” means, in English, “crossroads”. The word crossroads comes from cross. The word cross is carried on the back. The back supports the past, ancestry, work. In the past, work was not paid, it was enslaved. The enslaved ones had black skin, red blood, bone knees. The enslaved skin sweated wrinkles, which aged whips and rusted chains. Chains, in the present, are gifts, which adorn necks with crosses. Cross is a word spelled with only one syllable. Hunger is written with one syllable. Justice is pronounced in one breath. Prejudice screams out in one single breath. Slave is an adjective written with one syllable for centuries. A century is a hundred years, a sentence of years that have never been freed. A deed of manumission could be purchased. The deed of manumission is for sale at the Carrefour supermarket, where starving João Alberto carries a cross on his back in order to breathe. “Carrefour” is a word whose last syllable is the number “four”, which are four cardinal points: Death, Fright, Pain and Pest. In the life market, a black life is a commodity imported from Africa. Africa exported life and wrinkles to Brazil. The black slave in the market, cross on his neck, is a cheap product on the imported product shelf. Life in Brazil is an imported mistake. A crucified cross. Life breathes in black lumps of bars and doors indoors in pain. Black lives matter.

A série “o Alienista” me mostrou que eu sou uma barata nojenta/”The Alienist” shows me that I am a disgusting cockroach

The Alienist: Angel of Darkness (TV Series 2018–2020) - IMDb

Imagine só se o pedido que Kafka fez a seu amigo no leito da morte fosse atendido? Ele pediu, pouco antes de morrer, que todos os seus livros fossem queimados e não publicados. Se isso tivesse acontecido, não conheceríamos o seu personagem principal, Gregor Samsa, que, após uma noite de sonhos intranquilos, acorda metamorfoseado em uma barata. Será? Acho que, mesmo que Gregor tivesse sido incinerado, ele não desapareceria: estaria escondido no inconsciente dos leitores que se incomodam com a existência humana.

Foi pensando no inconsciente que, por coincidência (ato falho do meu inconsciente?), li “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis enquanto assistia à série “O Alienista”, na Netflix. Apesar de terem o mesmo título, a série de TV não é inspirada no famoso conto de Machado. Mas ambas abordam um alienista (médico especialista em doenças mentais) e os subterrâneos do inconsciente. O ator alemão-espanhol Daniel Brühl, que dá um show falando em francês em “Bastardos Inglórios”, faz o papel do médico com um convincente e fluente sotaque americano.

As duas temporadas de “O Alienista” exploram humanos-baratas, que assassinam com violência adolescentes (primeira temporada) e bebês (segunda temporada). Daniel Brühl, muito bom na primeira temporada, perde o protagonismo para Dakota Fanning na segunda. Mas, em tempos de pandemia em que precisamos andar com máscaras para mantermos a vida, “O Alienista” esta aí para nos mostrar que, por trás de uma barata nojenta, se disfarça um humano do bem, como você e eu. 

EnglishJust imagine if Kafka’s last request to his friend was granted? He asked, just before he died, that all his books be burned down and not published. If this had happened, we would not have known his main character, Gregor Samsa, who, after a night of uneasy dreams, wakes up metamorphosed into a cockroach. Maybe. I think that, even if Gregor had been incinerated, he would not disappear: he would be hiding in the unconscious of readers who are bothered by human existence.

I was thinking about the unconscious when, coincidentally (a Freudian slip?), I read the novel “Esau and Jacob”, by Machado de Assis, while I watched the series “The Alienist”, on Netflix. Despite having the same title, the TV series is not inspired by Machado’s famous short story. But both approach an alienist (a doctor specializing in mental illness) and the subterranean of the unconscious. German-Spanish actor Daniel Brühl, who has a great performance speaking in French in “Inglorious Basterds”, plays the doctor with a convincing and fluent American accent.

The two seasons of “The Alienist” exploit human-cockroaches, who violently murder teenagers (first season) and babies (second season). Daniel Brühl, very good in the first season, loses the lead to Dakota Fanning in the second one. However, in times of pandemic when we need to wear masks to remain alive, “The Alienist” shows us that, behind a disgusting cockroach, lies a good human being, like you and me.

Leio Machado de Assis com o mesmo prazer com que como uma pizza de muçarela/I read Machado de Assis as if I was eating a mozzarella pizza

Machado de Assis | A influência de Machado de Assis nos estudos...

 A melhor pizza de todas é a mais simples de fazer: a pizza de muçarela. É a massa coberta com queijo e molhada com azeite. O sabor é imbatível. Eu leio Machado de Assis com o mesmo prazer que sinto quando como uma fatia de pizza de muçarela. Talvez seja ele o maior escritor brasileiro, talvez seja o maior escritor em língua portuguesa de todos os tempos, talvez a muçarela seja a mais deliciosa das pizzas no mundo. Eu adoro reler o Machado de Assis. Desta vez, no entanto, depois de vários anos, li um Machado até então inédito para mim. E compartilho com vocês o sabor dessa leitura.

Na verdade, não foi um, foram dois. É um livro dividido em dois. Mas podem ser lidos separadamente. Um é, talvez, o “spin-off” do outro. Li o romance “Esaú e Jacó” em uma edição que o compartilha com o “Memorial de Aires” no mesmo livro. É como se fosse uma pizza metade muçarela, metade marguerita.

Em Machado, as palavras repousam em páginas da alma. Os personagens são psicologicamente ricos, intrigantes, familiares e incômodos. Esaú e Jacó são irmãos gêmeos, de grande semelhança física, mas com opiniões opostas em tudo. Um é republicano; o outro, monarquista. Um estuda medicina; o outro, direito. Um dos baratos desse livro é que ele se passa nos anos 1888 e 1889, e podemos ver nele uma crônica do Rio no ano da abolição dos escravizados e no ano da Proclamação da República. Como todo Machado, é recheado de ironia e humor por todos os lados. 

O Conselheiro Aires é um personagem importante em “Esaú e Jacó”. Na narrativa do romance, ele aparece em vários momentos escrevendo seu memorial, seu diário. “Memorial de Aires” é o diário do Conselheiro, mas é totalmente independente da história dos gêmeos, que nem aparecem em suas memórias. Aliás, Esaú e Jacó concordam em apenas um ponto: ambos se apaixonam pela mesma moça, Flora, que não consegue se decidir com qual dos dois ela quer se casar. Aires é chamado a aconselhá-los.

Ler Machado de Assis é sempre um saboroso programa. Mas, se me perguntar qual dos dois, entre “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires” , eu gostei mais de ler, não terei dúvidas na resposta: a pizza de muçarela.

EnglishThe best pizza of all is the simplest to make: the mozzarella pizza. It is the dough covered with cheese and a drop of olive oil. The taste is unbeatable. I read Machado de Assis with the same pleasure that I feel when I eat a slice of mozzarella pizza. Perhaps he is the greatest Brazilian writer, perhaps he is the greatest Portuguese-language writer of all time, and perhaps mozzarella pizza is the most delicious of all in the world. I love re-reading Machado de Assis. This time, however, after several years, I read a novel by Machado which I had never read before. And I will share with you here the taste of that reading.

In fact, it wasn’t one, it was two novels in the same book, which can be read separately. One is, perhaps, the “spin-off” of the other. I read the novel “Esau and Jacob” in a coedition with “Counselor Ayres´ Memorial” in the same book. It’s like a half-mozzarella, half-margherita pizza.

In Machado, words rest on pages of the soul. The characters are psychologically rich, intriguing, familiar and uncomfortable. Esau and Jacob are twin brothers, of great physical similarity, but with opposing opinions in everything. One is a Republican; the other, a Monarchist. One studies medicine; the other, law. One of the highlights of this novel is that it takes place in the years 1888 and 1889, and we can see in it a chronicle of Rio de Janeiro in the year of the abolition of the enslaved and in the year of the Proclamation of the Republic. Like all Machado´s stories, “Esau and Jacob“ is filled with irony and humor on all pages.

Counselor Ayres is an important character in “Esau and Jacob”. In the novel’s narrative, he appears at various times writing his memorial. “Counselor Ayres´ Memorial” is the Counselor’s diary, but it is totally independent of the twins’ story, and the brothers do not even appear in Ayres´ memories. In fact, Esau and Jacó agree on only one point: they both fall in love with the same girl, Flora, who cannot decide which of the two she wants to marry. Aires is called in to advise them.

Reading Machado de Assis is always a tasty program. But, if you ask me which of the two, between “Esau and Jacó” and “Counselor Ayres´ Memorial”, I liked reading better, I will have no doubts in the answer: the mozzarella pizza.

Fui Premiado no Concurso Literário “Abrace um Autor”/I was awarded a Literature Prize

Resultado final do Concurso Literário Abrace um Autor 2019

 Acabo de ser informado que fui um dos vencedores do Prêmio Literário “Abrace um Autor”, organizado pelo Instituto Federal São Paulo, na categoria conto. Com mais de 1000 inscritos, de dez países, meu conto “Dedicatória” ficou em segundo lugar. Dedico este prêmio a todos vocês, que seguem o meu trabalho por aqui. Grande abraço!

English – I have just been informed that I was one of the winners of the Literary Award “Embrace an Author”, organized by the Federal Institute of São Paulo, in the short story category. With more than 1,000 writers, from ten different countries, my short story “Dedicatória” was the second best. I dedicate this award to all of you, who follow my work here.

Fui convidado a escrever poemas para fotografias/I was invited to write poems for photographs

O fotógrafo italiano Matteo Perazzo, que vive em Londres, me convidou para escrever poemas em inglês para suas fotografias. Para ver como as imagens conversam com as palavras, veja o site do Matteo e clique sobre o meu nome:
https://www.matteoperazzo.com/

English – Italian photographer Matteo Perazzo, who lives in London, has invited me to write poems in English for his photographs. If you want to see how  the images and the words talk in the photographs and the poems, please check out Matteo´s website and click on my name at the bottom of each page: https://www.matteoperazzo.com/  Hope you enjoy them.

O filme “Borat” é um deboche que provocará reações extremas no espectador/”Borat” is debauchery and provokes extreme reactions in the viewers

The new 'Borat' is a superhero movie. Mocking the cruel and powerful is a  great skill right now.

O filme “Borat 2” tem como tema a hipocrisia. Especificamente a hipocrisia na sociedade americana, que vende para o mundo e para si mesma que a felicidade está escondida atrás de uma casa com garagem de classe média em um bairro arborizado e não muito afastado de uma igreja cristã. De preferência, sob a pele branca e racista. De preferência, sob o governo de um presidente negacionista. De preferência, com um olhar enviesado e machista.

O filme estreou na sexta-feira (23 de outubro) na Amazon Prime. Gravado em sigilo durante a quarentena, “Borat” é uma mistura de ficção com documentário. Ou é um falso documentário, um documentário hipócrita, negacionista de seu verdadeiro gênero. O ator Sacha Baron Cohen faz novamente o papel de um jornalista do Cazaquistão, que, para sair da prisão onde se encontra, condenado pelo fracasso em que sua nação se meteu, precisa entregar um presente ao presidente McDonald Trump (sim, você leu certo). O deboche recheia a trama da primeira à última cena, e o lançamento no fim de outubro não deixa dúvidas de que o filme pretende causar um estrago na eleição presidencial americana daqui a algumas semanas. Em tempos de Covid, o filme pode contagiar também as eleições municipais no Brasil, já que, logo nas primeiras cenas, ao lado de “líderes mundiais durões” como os ditadores Putin e Kim Jong-un, surge na tela um tal de Jair  Bolsonaro. 

Este é o típico filme que raramente vai provocar reações medianas. Ou você vai adorar, ou detestar. Eu dei muitas risadas, do começo ao fim.

English The film “Borat 2” portraits hypocrisy as its main theme. Specifically the hypocrisy in American society, which sells to the world and to itself that happiness is hidden behind a house with a middle class garage in a leafy neighborhood and not far from a Christian church. Preferably, under white, racist skin. Preferably, under the government of a negationist president. Preferably, with a biased and sexist look.

The film premiered on Friday (October 23) on Amazon Prime. Recorded in secrecy during the quarantine, “Borat” is a mixture of fiction and documentary. Or is it a false documentary, a hypocritical documentary, denialist of its true genre. Actor Sacha Baron Cohen again plays the role of a Kazakh journalist, who, in order to get out of prison where he finds himself, condemned by the failure his nation has been in, needs to deliver a gift to President McDonald Trump (yes, you read that right) . The debauchery fills the film from the first to the last scene, and the release in late October leaves no doubt that the movie intends to wreak havoc on the American presidential election in a few weeks. In times of Covid, “Borat” can also infect the November elections in Brazil, since, in the first scenes, alongside “tough world leaders” like the dictators Putin and Kim Jong-un, a guy named Jair Bolsonaro appears on the screen .

This is the typical film that will rarely provoke balanced reactions. You will either love it or hate it. I laughed a lot, from beginning to end.

No último livro de Carlos Heitor Cony, a ficção está acima de todos/In Carlos Heitor Cony´s last novel, fiction is above all

Operação Condor | Amazon.com.br

Eu gosto de livros que misturam ficção com realidade. Livros que questionam os fatos históricos e acrescentam neles personagens, motivações e diálogos. A literatura é livre para brincar com a realidade, para torná-la mais real ao ficcionalizá-la. Por isso, gosto tanto do filme “Bastardos Inglórios”, do Tarantino, no qual o diretor americano reescreve a História, corrigindo-a de seus erros. Nele, o Nazismo é extirpado como um câncer dentro de um cinema, cuja dona é uma judia. Esta brincadeira, que é a própria razão de ser da ficção, está presente no livro “Operação Condor”, de Carlos Heitor Cony e Anna Lee, que acabei de ler.

Ao ler “operação Condor”, tive a impressão de estar dentro de uma grande reportagem, uma grande investigação. E realmente estava, embora soubesse que quem a estava conduzindo eram personagens fictícios: a jornalista Verônica (que, ironicamente, traz a palavra “verdade” dentro de seu nome) e seu namorado, o “Repórter”. O livro investiga a hipótese de três importantes nomes da política brasileira terem sido vítimas de assassinatos políticos por serem contra a ditadura militar: os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Embora pertencentes a partidos diferentes, tinham em comum a oposição ao golpe militar e começavam a esboçar a formação de uma Frente Ampla contra a ditadura. Exilados, os políticos, outrora adversários, por serem populares, representavam uma ameaça ao governo militar, que prendeu, assassinou e torturou quem se opôs a seus desmandos.

Um intervalo de meses separa a morte dos três políticos, um período de menos de um ano nos nublados Anos de Chumbo. Com farta documentação real, os autores voltam no tempo, um tempo em que os governos militares da América do Sul criaram uma rede de colaboração e delação para deletar quem se opunha a eles, a chamada Operação Condor.

A morte é uma personagem importante neste livro. E, ironicamente, um de seus autores, Carlos Heitor Cony, morreu antes de vê-lo publicado. Cony morreu em janeiro de 2018, ano em que o Brasil elegeu para a Presidência da República a ideia de que a ditadura militar deve estar acima de qualquer verdade democrática. A ficção ainda há de corrigir este equívoco.

English I like books that mix fiction with reality. Books that question historical facts and add characters, motivations and dialogs to them. Literature is free to play with reality, to make it more real by fictionalizing it. For this reason, I like Tarantino’s movie “Inglorious Basterds”, in which the American director rewrites History, correcting its mistakes. In this movie, Nazism is extirpated like a cancer inside a movie theater, whose owner is a Jewess. This fun feature, which is the very raison d’être of fiction, is present in the book “Operação Condor” (“Condor Operation”), by Carlos Heitor Cony and Anna Lee, which I just read.

While reading “Condor Operation”, I had the impression that I was inside a big news story, a big journalistic investigation. And in fact I was, although I knew that whoever was leading the investigation were fictional characters: the journalist Verônica (who, ironically, brings the word “truth” within the meaning of her name) and her boyfriend, the “Reporter”. The book investigates the hypothesis that three important names in Brazilian politics were victims of political assassinations for opposing the military dictatorship: ex-president Juscelino Kubitschek and João Goulart and ex-governor of Guanabara State, Carlos Lacerda. Although they had been members of different parties, they had in common the fact that they opposed the military coup and began to outline the formation of a Broad Front against the dictatorship. In exile, these politicians, once adversaries, because they were popular, posed a threat to the military government, which arrested, murdered and tortured those who opposed their misdemeanors.

An interval of months separates the death of the three politicians, a period of less than a year in those cloudy times. With abundant real documentation, the authors go back in time, a time when the military governments of South America created a network of collaboration and denouncement which deleted (murdered) those who opposed them, the so-called Condor Operation.

Death is an important character in this book. And, ironically, one of its authors, Carlos Heitor Cony, died before seeing it published. Cony died in January 2018, the year in which Brazil elected for President the idea that a military dictatorship must be above any democratic truth. Fiction has yet to correct this misconception.

Sobre a música “Sozinha”, de Peninha/About the song “Sozinha”, by Peninha

Caetano Veloso – Ouça na Deezer | Aplicativo de música

Pela primeira vez, fui convidado a escrever um texto para ser traduzido e publicado originalmente em italiano. Foi uma sensação diferente e um processo bacana, de muito diálogo com a tradutora. O convite foi para eu escrever sobre a música “Sozinha”, de Peninha (que fez sucesso na voz do Caetano Veloso), e  que acaba de ser gravada pela italiana Sara Trementini. Para ler o texto em italiano, clique em https://storiedeisamba.blogspot.com/2020/10/sozinho.html

Abaixo, o texto em português:

“Sozinho” (Peninha)

O Brasil, ao longo dos anos, construiu para o mundo a imagem de um país ensolarado e alegre. O sol tropical brilha durante o dia, portanto, quando se pensa em Brasil, imaginamos luz, calor, praia, peles bronzeadas, corpos despidos de vergonhas, liberdade e um permanente sorriso. O Brasil é uma mistura de povos e etnias, água doce dos rios, água salgada do mar. E aridez também. O Brasil se orgulha das suas horas de sol. Mas esconde suas horas noturnas, onde o escuro apaga as estrelas no céu.

A banda de rock progressivo Pink Floyd imortalizou a ideia de que existe um permanente “Dark Side of the Moon”. No entanto, a lua, ao contrário do que muitos imaginam, tem claridade e escuridão em cada centímetro de sua superfície. O Brasil é uma lua e vive, há algum tempo, uma longa noite que vem atrasando a alvorada.

O compositor brasileiro Peninha tem uma filha, Clariana Alves. Quando tinha 14 anos, Clariana namorava um rapaz, com quem brigou. O pai ouviu a briga de Clariana e ficou preocupado com o sofrimento da filha, que chorava por se sentir sozinha e longe do seu amor. Da preocupação com a filha, Peninha compôs “Sozinha”.

A canção de Peninha é noturna, é triste. É o oposto do que o Brasil se acostumou a ser para o mundo. Não é Bossa Nova nem Carmen Miranda. “Sozinha” é silêncio, uma lágrima doce e salgada, com versos que escorrem melancolia:

“Às vezes, no silêncio da noite

Eu fico imaginando nós dois

Eu fico ali sonhando acordada

Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solta?

Por que você não cola em mim?

‘Tô me sentindo muito sozinha” 

Esta música nasceu feminina e foi gravada inicialmente pela cantora Sandra de Sá com seu título original “Sozinha”, pois descrevia a solidão da menina Clariana Alves. Apesar da tristeza do tema da solidão, Sandra de Sá a interpreta com um gingado quase alegre, quase solar, quase dia de tão só.

Depois de Sandra de Sá, a canção foi gravada pela voz rouca, grave e carregada do cantor Tim Maia, um ícone do soul e do funk brasileiros. Com Tim Maia, a música se transformou e passou a ser masculina. “Sozinha” virou “Sozinho”. No trovão da voz de Tim Maia, a canção cresceu e chegou aos ouvidos de Caetano Veloso. Na voz do baiano Caetano, “Sozinho” se transformou em um sucesso imediato e levou seu álbum “Prenda Minha” a atingir um milhão de cópias vendidas.

Agora, a música foi gravada pela italiana Sara Trementini. Com ela, voltou a ser feminina. E a música, novamente em uma voz de menina, voltou a ser lua. Com Sandra de Sá, Tim Maia, Caetano Veloso e Sara Trementini, “Sozinho”, como a lua, completa um ciclo, com quatro fases solitárias que se complementam. E da escuridão da noite de um Brasil tropical, a tristeza da menina solitária exala um brilho secreto, escondido na luz e na brancura que seu nome colore: Clariana Alves, a claridade alva do sol e da lua. 

“Sozinha” é a menina. “Sozinho” é o Brasil, que mergulhou em uma noite escura que tem escondido o ensolarado país tropical em pandemias e autoritarismos políticos que apertam um povo no verso final da canção de Peninha: “Onde está você agora?”.

English – This text was written to be published in Italian on the following site: https://storiedeisamba.blogspot.com/2020/10/sozinho.html

Brazil, over time, gave the world an image of a sunny and cheerful country. The tropical sun shines during the day, therefore, when we think of Brazil, we imagine light, warmth, beach, tanned skins, bodies without shame, freedom and a permanent smile. Brazil is a mixture of peoples and ethnicities, fresh water of rivers, salt water of the sea. And even dryness. Brazil is proud of its sunny hours. But it hides its night hours, in which darkness shuts down stars in the sky.

Pink Floyd’s progressive rock band captured the idea of the existence of a permanent Dark Side of the Moon. Yet the moon, contrary to what many imagine, has light and darkness in every inch of its surface. Brazil is a moon and it’s been living a long night delaying the Aurora for some time.

Brazilian composer Peninha has a daughter, Clariana Alves. At age 14 Clariana had a boyfriend she fought with. Her father heard the two fighting and worried about the suffering of his daughter, who cried feeling lonely and distant from her love. Concern for her daughter inspired Peninha, who composed ′′ Sozinha “.

Peninha’s song is nightly, sad. It’s the opposite of what Brazil used to be for the world. It’s neither Bossa Nova nor Carmen Miranda. ′′ Sozinha ′′ is silence, a sweet and salty tear, with melancholy verses:

′′ Sometimes, in the silence of the night

I find the two of us

Standing there, daydreaming

Uniting the before, the now and the after.

Why are you letting me go so free?

Why don’t you stick to me?

I’m feeling very lonely ′′

This song was born female and was originally recorded by singer Sandra de Sá with the original title ′′ Sozinha” (“Her alone”), as it describes the loneliness of little Clariana Alves. Despite the sadness associated with the theme of loneliness, Sandra de Sá interprets it with an almost cheerful, almost sunny, almost day rhythm of loneliness.

After Sandra de Sá, the song was recorded by the powerful, serious and charged voice of singer Tim Maia, an icon of Brazilian soul and funk. With Tim Maia, the song changes and becomes male. ′′ Sozinha” (“Her alone”) becomes ′′ Sozinho” (“Him alone”). In Tim Maia’s mighty voice, the song grows louder and reaches the ears of Caetano Veloso. In Caetano’s voice, ′“Sozinho ′′ turns into an immediate hit and brings the album ′′ Prenda Minha′′ to reach a million copies sold.

Now the song was recorded by Italian singer Sara Trementini. With her, the song became what it originally was: the female. And the song, again in a girl’s voice, is back to being a moon. With Sandra de Sá, Tim Maia, Caetano Veloso and Sara Trementini, ′′Sozinha”, like the moon, completes a cycle, with four complementary solitary phases. And from the darkness of the night of a tropical Brazil, the sadness of the lonely girl radiates a secret glow, hidden in the light and whiteness that color her name: Clariana Alves, the light of the sun and the moon.

′′Sozinha′′ (“Her alone”) is the girl. ′′Sozinho′′ (“Him alone”) is Brazil, immersed in a dark night that keeps the sunny tropical country hidden behind pandemics and political authoritarianism that oppress a people in the final verse of Peninha’s song: ′′ Where are you now?”

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