“O Beijo da Mulher Aranha” é um sonho no fundo de um pesadelo/”Kiss of the Spider Woman” is a dream inside a nightmare

Um beijo é uma forma de atrair os lábios de outro e tornar-se um único ser. No amor, nos beijamos. A aranha, por amor à vida, atrai a presa para deixá-la presa à teia, que é a tela de sua vida, a morte da vida que suga. À fome, nos prendemos. O diretor Hector Babenco, um eterno estrangeiro, em sua Argentina natal ou no Brasil que adotou, dirigiu com lirismo político o filme “O Beijo da Mulher Aranha”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor direção. O cinema nos alimenta com beijos e nos prende com teias de telas.

No Brasil, sob a sangrenta ditadura militar que nos governou por mais de 20 anos e que ainda hoje segue elegendo presidentes, o filme nos prende no cárcere, onde um prisioneiro político, Valentín (Raul Julia), divide a cela com um homossexual, Luís Molina (William Hurt), condenado por corrupção de menor. Entre quatro paredes, Valentín se revela a Luís, que nos revela as motivações de suas ações encarceradas. Entre sessões de tortura e sofrimento, Luís descreve a Valentín as cenas de seus filmes favoritos, nos quais Sonia Braga faz o papel de uma mulher sedutora ou de uma mulher angelical ou de uma aranha-mulher: em todas elas, ela prende suas presas com beijos vitais e políticos. Se Hector Babenco é um estrangeiro em qualquer país do mundo, a ficção é a teia-tela que reflete uma janela para a liberdade em qualquer realidade encarcerada. “O Beijo da Mulher Aranha” é um convite para um sonho escondido no fundo de um pesadelo que insiste em não terminar. 

English A kiss is a way of attracting the lips of another and becoming a single being. In love, we kiss. The spider, for the love of life, attracts the prey to leave it trapped in the web, which is the fabric of its life, the death of the life it sucks. To hunger, we cling. Director Hector Babenco, an eternal foreigner, in his native Argentina or in his adopted Brazil, directed with political lyricism the film “Kiss of the Spider Woman”, which earned him an Oscar nomination for best director. Cinema feeds us with kisses and binds us with webs of screens.

In Brazil, under the bloody military dictatorship that ruled us for more than 20 years and which continues to elect presidents today, the film holds us in prison, where a political prisoner, Valentín (Raul Julia), shares a cell with a homosexual, Luís Molina (William Hurt), convicted of bribery of a minor. Within four walls, Valentín reveals himself to Luís, who reveals to us the motivations for his actions in prison. Between sessions of torture and suffering, Luís describes to Valentín scenes from his favorite films, in which actress Sonia Braga plays the role of a seductive woman or an angelic woman or a spider-woman: in all of them, she holds her fangs with vital and political kisses. If Hector Babenco is a foreigner in any country in the world, fiction is the web-screen that reflects a window to freedom in any incarcerated reality. “Kiss of the Spider Woman” is an invitation to a dream hidden in the depths of a nightmare that insists on not ending.

O filme “A Flor do Meu Segredo”, de Almodóvar, é para ser visto a sós e em segredo/The film “The Flower of My Secret”, by Almodóvar, is to be seen alone and in secret

Pedro Almodóvar é um dos meus diretores favoritos. Ele, assim como eu, é uma pessoa colorida, que veste seus personagens com cores alegres e quentes, mas que disfarçam uma cinzenta angústia. Os personagens de Almodóvar são um disfarce de vida, que carregam, secretamente, desejos ocultos. Depois de quase 30 anos de seu lançamento, apenas agora assisti a “A Flor do Meu Segredo”, que é uma colorida aquarela de segredos pintados de aparentes verdades.

À primeira vista, achei o filme simples e menor, dentro da filmografia de Almodóvar. Depois, refletindo mais, descobri que o filme é um disfarce, é um lençol que cobre o enredo com uma sucessão de espelhos. Está ali uma escritora que escreve livros que fazem muito sucesso, mas que aborda temas que ela detesta, como a felicidade conjugal em histórias água com açúcar. Ela, que, ao contrário do que se imagina, por ser uma autora de sucesso, não tem dinheiro, tem dívidas, tem dúvidas e é muito infeliz em seu casamento. Ela é também uma “ghost writer” e chega a publicar uma crítica, com outro nome, à autora que é ela mesma, disfarçada de seu pseudônimo. Vive angustiada, e as cenas são um constante diálogo com o simbolismo da representação, com imagens de personagens que conversam sobrepostos por um vidro que projeta as suas imagens e que os transforma em alter-egos. O filme “A Flor do Meu Segredo” é para ser visto a sós. E o que nele vemos é para ser guardado em um colorido segredo.

English Pedro Almodóvar is one of my favorite directors. He, like me, is a colorful person, who dresses his characters in cheerful and warm colors, which disguises a gray anguish. Almodóvar’s characters are a disguise of life, who secretly carry hidden desires. After almost 30 years of its release, I have just now watched “The Flower of My Secret”, which is a colorful watercolor of secrets painted with apparent truths.

At first glance, I thought the film was simple and smaller, within Almodóvar’s filmography. Later, on reflection, I figured out that the film is a disguise, a sheet that covers the plot with a succession of mirrors. There is a writer who writes books that are very successful, but which addresses topics she hates, such as marital happiness in wishy-washy stories. She, who, contrary to popular belief, as a successful author, has no money, has debts, has doubts and is very unhappy in her marriage. She is also a “ghost writer” and even publishes a review, under another name, of the author who is herself, disguised as her pseudonym. She lives in anguish, and the scenes are a constant dialogue with the symbolism of representation, with images of characters who talk superimposed by a glass that projects their images and transforms them into alter-egos. The movie “The Flower of My Secret” is to be seen alone. And what we see in it is to be kept in a colorful secret.

O Documentário “Elza & Mané” é um afinado gol de placa/The Documentary “Elza & Mané” is a fine goal

Ele passava o pé sobre a bola, fazia que ia para a direita, passava o pé sobre a bola novamente, fazia que ia para a esquerda e, após deixar o zagueiro deitado no gramado, ia para a direita. Assistir aos dribles de Garrincha sempre foi um momento feliz, engraçado, que levava sorriso ao rosto de todos os torcedores. Ela passava por dor, dó, ré, mi, fá até atingir um inatingível rouco sol com sua voz quente e ensolarada para afinar o grito de pretos e famintos estômagos roucos de fome. O casal mais divino que o Brasil já produziu é tema de um delicioso documentário, “Elza & Mané”, que estreou na semana passada no Globoplay. 

A vida de Elza Soares e de Mané Garrincha foi um sobe e desce, defesa contra ataque, sons graves e agudos, que se alternaram em doces e amargos goles de uma vida em comum que se iniciou há 60 anos, em 1962, ano em que Mané deu de presente à Elza a Copa do Mundo. Para Mané, Elza foi seu mundo. Para Elza, Mané foi todas as notas musicais, entoadas com emocionantes variações de altura, que provocaram doloridas quedas na cantora que interpretou, com heroísmo épico e trágico, um Brasil mestiço que teve coragem de mostrar o talento macunaímico que canta e encanta um mundo que dá voltas em redondos microfones em redondas bolas. O documentário “Elza & Mané” é um afinado gol de placa para o Brasil.

English – He would pass his foot over the ball, make it go to the right, pass his foot over the ball again, make it go to the left and, after leaving the defender lying on the ground, go to the right. Watching Garrincha’s dribbles was always a happy, funny moment, which brought a smile to the faces of all the fans. She went through C, D, E, M until she reached an unattainable F with her warm and sunny voice to tune the scream of black and hungry stomachs filled with poverty. The most divine couple that Brazil has ever produced is the subject of a delightful documentary, “Elza & Mané”, which premiered last week on Globoplay.

The life of Elza Soares and Mané Garrincha was an up and down, defense against attack, bass and treble sounds, which took turns in sweet and bitter sips of a life in common that began 60 years ago, in 1962, the year in which Mané gave Elza the World Cup as a gift. For Mané, Elza was his world. For Elza, Mané was all the musical notes, sung with exciting variations in height, which caused painful falls in the singer who interpreted, with epic and tragic heroism, a mestizo Brazil that had the courage to show the macunaímic talent that sings and enchants a world that turns around microphones into round balls. The documentary “Elza & Mané” is a perfect goal for Brazil.

Julia Garner é uma atriz que inventa e reinventa em “Inventando Anna”/Julia Garner is an actress who invents and reinvents in “Inventing Anna”

Anna Delvey é uma mulher inventada por Anna Sorokin. Anna é uma jovem de 20 e poucos anos que enganou amigos e bancos, envolvendo centenas de milhares de dólares, ao se passar por uma rica herdeira no exclusivo circuito de vida noturna de Nova York. Anna Sorokin foi presa e condenada. Sua história se transformou em uma instigante série da Netflix, na qual Anna é interpretada pela ótima atriz Julia Garner, premiada por sua atuação na série “Ozark”, também em cartaz na Netflix. Anna, em “Inventando Anna”, é magistralmente inventada por Julia Garner, que merece o Oscar na categoria Melhor Atriz Inventada.

Se em “Ozark”, a personagem de Julia Garner surpreende os protagonistas e ganha força conforme as temporadas avançam, em “Inventando Anna”, Julia é o centro das atenções desde o início, conquistando os espectadores com um personagem inteligente, estrategista, que sabe se aproveitar do mundo do glamour em Nova York e com um sotaque russo bastante convincente. Se “Inventando Anna” é uma série sobre a invenção, Julia Garner é uma atriz que inventa e, como um furacão, venta Anna de trás para frente. Recomendo Julia Garner, digo, “Inventando Anna”.

English Anna Delvey is a woman invented by Anna Sorokin. Anna is a young woman in her early 20s who has swindled friends and banks, involving hundreds of thousands of dollars, by posing as a wealthy heiress on New York’s exclusive nightlife circuit. Anna Sorokin was arrested and convicted. Her story became an exciting Netflix series, in which Anna is played by the great actress Julia Garner, awarded for her performance in the series “Ozark”, also showing on Netflix. Anna in “Inventing Anna” is masterfully invented by Julia Garner, who deserves an Academy Award in the Best Invented Actress category.

If in “Ozark”, Julia Garner’s character surprises the protagonists and gains strength as the seasons progress, in “Inventing Anna”, Julia is the center of attention from the beginning, conquering viewers with an intelligent, strategist character, who knows how to take advantage of the glamor world in New York and with a very convincing Russian accent. If “Inventing Anna” is a series about invention, Julia Garner is an actress who invents and, like a hurricane, blows Anna backwards. I highly recommend Julia Garner, I mean, “Inventing Anna”.

“Niketche” é a história do sofrimento que só as mulheres enfrentam em Moçambique/“The First Wife” is the story of the suffering that only women face in Mozambique

Niketche (Nova edição): Uma história de poligamia | Amazon.com.br

Começo o ano com uma leitura que recomendo com entusiasmo. Se ter uma mulher é algo que exige dedicação e esforço, imagine ter 4, 5 ou 6 esposas? A poligamia é uma prática comum em vários países, e é sobre o drama e o sofrimento de ter que dividir o marido amado com outras companheiras o tema do romance “Niketche, Uma História de Poligamia”, da escritora moçambicana Paulina Chiziane.

Rami é uma esposa apaixonada e submissa ao marido Tony, com quem é casada há 20 anos. É só então que descobre que ele tem outras mulheres e vários filhos com cada uma. Lemos o relato das duras descobertas de Rami através de uma linguagem lírica, poética e dolorosa. O sofrimento de Rami é uma janela para o duro cotidiano de milhões de mulheres em Moçambique, um país que fala português e que pratica injustiças seculares com as mulheres. “Niketche” é uma lágrima que merece ser lida.

English – I start the year with a book that I recommend with enthusiasm. If having a wife is something that requires dedication and effort, imagine having 4, 5 or 6 wives? Polygamy is a common practice in several countries, and the theme of the novel “The First Wife: A Tale of Polygamy”, by Mozambican writer Paulina Chiziane, is about the drama and suffering of having to share a husband with other partners.

Rami is a passionate and submissive wife to her husband Tony, to whom she has been married for 20 years. It is only then that she discovers that he has other women and several children with each of them. We read the account of Rami’s hard discoveries through a lyrical, poetic and painful language. Rami’s suffering is a window into the harsh daily lives of millions of women in Mozambique, a Portuguese-speaking country that practices centuries-old injustices against women. “The First Wife” is a tear that deserves to be read.

O filme italiano “A Mão de Deus” é um poema sobre o futebol nosso de cada dia/Italian movie “The Hand of God” is a poem about our daily soccerly life

A Mão de Deus (2021) | Tolookat.com

Eu adoro futebol. Adoro cinema. Adoro poesia. Se existe um jogo que é capaz de unir estas paixões que nutro eu diria, sem dúvida, que são os 90 minutos em que Maradona faz, na Copa de 1986 contra a Inglaterra que havia aniquilado os sul-americanos em uma guerra poucos anos antes, dois gols que a História eternizou. O primeiro, com a mão, mas com a cabeça de pensamentos ágeis, que ele batizou de “A Mão de Deus”. O segundo, o mais belo gol na história das Copas, em que ele sai da intermediária defensiva e dribla quase todo o time inglês para tirar da História a derrota que a Argentina sofrera para os ingleses na batalha das Malvinas. A poesia deste jogo se transformou em um lindo filme italiano, na Netflix, que concorrerá ao próximo Oscar. Cinema, poesia, futebol: tudo junto, no apaixonante “A Mão de Deus”, do diretor Paolo Sorrentino.

Em Nápoles nos anos 80, época em que Maradona jogou no Napoli, o filme acompanha o adolescente Fabietto Schisa, vivido pelo ator Filippo Scotti. Ele é sensível e observa o mundo a sua volta com curiosidade; assim, perde a virgindade, aprende a amar o cinema e sofre uma tragédia. Para quem, como eu, foi adolescente nos anos 80, “A Mão de Deus” é um poema autobiográfico. Para quem gosta de cinema, “A Mão de Deus” é um filme imperdível.

English I love soccer. I love cinema. I love poetry. If there is a game that is capable of uniting these passions that I nurture, I would say, without a shadow of a doubt, that it is the 90 minutes Maradona plays, in the 1986 World Cup against England which had annihilated the South Americans in a war a few years before, two goals that history has eternalized. The first, with his hand, but with a quick head of thoughts, which he dubbed “The Hand of God”. The second, the most beautiful goal in the history of the Cups, in which he leaves the defensive intermediate and dribbles almost the entire England team and takes away from History the defeat that Argentina suffered to the English in the Falklands War. The poetry of this game has turned into a beautiful Italian movie, on Netflix, which will compete for the next Oscar Awards. Cinema, poetry, football: everything together, in the passionate “The Hand of God”, by director Paolo Sorrentino.

In Naples in the 1980s, when Maradona played for Napoli, the film portrays teenager Fabietto Schisa, played by actor Filippo Scotti. He is sensitive and looks at the world around him with curiosity; thus, he loses his virginity, learns to love cinema and suffers an imense tragedy. For someone like me, who was a teenager in the 1980s, “The Hand of God” is an autobiographical poem. For movie lovers, “The Hand of God” is a must-see movie.

“Americanah” é a África impressa no mundo/“Americanah” is Africa printed in the world

Amazon.com.br eBooks Kindle: Americanah, Adichie, Chimamanda Ngozi, Romeu,  Julia

O Brasil é o maior país africano fora da África. A cultura do continente vizinho à América do Sul pode ser aqui observada nos temperos, na música, nas cores, cabelos, danças e crenças que tingem o Brasil. E na literatura. Um livro que acabo de ler e que é um retrato bacana da Nigéria e de quão próximos estamos deste país é “Americanah”, da premiada escritora Chimamanda Ngozi Adichie.

É uma história de amor. Mas é também uma história sobre ser negro, sobre preconceito, sobre imigração, sobre a busca pela dignidade nos Estados Unidos e na Europa, como se só fosse possível ser digno fora da África. Justamente no momento em que os Estados Unidos elegem um presidente negro. A protagonista é uma blogueira, e o livro acaba sendo o depósito das impressões que ela deixa em seu blog. “Americanah” imprime o amor e a dor de ser a expressão da África em um mundo desigual.

English – Brazil is the largest African country outside of Africa. The culture of the continent neighboring South America can be seen here in the spices, music, colors, hair, dances and beliefs that color Brazil. And in literature. A book I have just read that is a nice portrait of Nigeria and how close we are to this country is “Americanah”, by award-winning writer Chimamanda Ngozi Adichie.

It’s a love story. But it’s also a story about being black, about prejudice, about immigration, about the quest for dignity in the United States and Europe, as if it were only possible to be dignified outside of Africa. Just as the United States elects a black president. The protagonist is a blogger, and the book ends up being the depository of the impressions she leaves on her blog. “Americanah” imprints the love and pain of being the expression of Africa in an unequal world.

“Round 6” é um soco no estômago/”Squid Game” is a punch in the stomach

Round 6 bate recorde e se torna a maior série da Netflix - NerdBunker

A Coreia do Sul, no nosso imaginário, é um país organizado, bem administrado, que sabe investir em educação de alto padrão e que distribui de forma justa a renda entre a população. No entanto, a julgar pela surpreendente série “Round 6”, a Coreia do Sul é um lugar onde os muito ricos vivem a anos-luz dos muito pobres, onde um cidadão endividado e miserável é capaz de participar de um cruel jogo para quitar suas dívidas. O dinheiro, na penúria sul-coreana, pauta ambições, ética e amores. 

Quem acompanha a recente produção cinematográfica da Coreia e do Brasil reconhecerá imediatamente fortes paralelos entre “Round 6” e o premiado filme “Parasita”, que trabalha muito bem a linha horizontal que separa a riqueza da pobreza no país asiático. Da mesma forma, “Round 6” nos lembra da cruel diversão que leva humanos a assassinar humanos como se a vida fosse uma brincadeira de crianças mimadas como no filme “Bacurau”. “Round 6” reduz a vida a um jogo ao qual o espectador assiste com a dor de um soco no estômago.

English South Korea, in our imagination, is an organized, well-run country that knows how to invest in high-quality education and that distributes income fairly among the population. However, judging by the astonishing “Squid Game” series, South Korea is a place where the very rich live light years away from the very poor, where an indebted and miserable citizen is able to play a cruel game to pay off their debts. Money, in South Korean penury, guides ambitions, ethics and loves.

Anyone following recent Korean and Brazilian cinematographic production will immediately recognize strong parallels between “Squid Game” and the award-winning film “Parasite”, which works very well on the horizontal line that separates wealth from poverty in the Asian country. Likewise, “Squid Game” reminds us of the cruel fun that leads humans to murder humans as if life were a spoiled children’s play, like the Brazilian movie “Bacurau”. “Squid Game” reduces life to a game which the spectator watches with the pain of a punch in the stomach.

 O filme “7 Prisioneiros” é perturbador porque nos coloca como cúmplices de um esquema que se alimenta de escravos/The movie “7 Prisoners” is disturbing because it puts us as accomplices in a scheme that feeds on slaves

7 Prisioneiros: Críticas AdoroCinema

A escravidão não foi abolida no Brasil no dia 13 de maio de 1888, pois o Brasil ainda é um país onde a escravidão é parte de uma engrenagem invisível a qual eu, você e milhões de brasileiros alimentamos com atos inocentes como, por exemplo, comprar uma camiseta nova ou trocar uma roda quebrtada do nosso carro. É isso o que mostra o filme “7 Prisioneiros”, que estreou esta semana na Netflix. O filme é perturbador, com um Rodrigo Santoro protagonizando um perverso e cruel capataz que administra um ferro velho em São Paulo. Nas ruas com postes de fios desencapados que cobrem as cabeças dos paulistanos, imigrantes e migrantes são encarcerados em quartos nos quais nenhum de nós gostaria de dormir.

Com a promessa de emprego na cidade mais rica do país, jovens saem do interior do estado para ganhar dinheiro e subir na vida, ajudando seus pais e mães com a renda que terão na capital. No entanto, bastam algumas cenas e cerca de vinte minutos do filme para entendermos que o sonho de liberdade é uma armadilha. E que, junto dos jovens personagens iludidos com a promessa do emprego, os espectadores nos encontramos presos dentro de um esquema em que somos escravizados e do qual não existe a opção de fuga. Entre a opressão da pobreza ou ser presa da indústria da escravidão, nós tomamos um café frio que amarga nossas manhãs nubladas e cinzentas, emaranhados em fios de postes que não nos iluminam. “7 Prisioneiros” prende o espectador, cujos sonhos são perturbados por muito mais do que 7 dias.

English Slavery was not abolished in Brazil on May 13, 1888, as Brazil is still a country where slavery is part of an invisible gear which I, you and millions of Brazilians feed with innocent acts such as buying a new shirt or change a broken wheel in our car. That’s what the movie “7 Prisoners”, which premiered this week on Netflix, shows. The film is disturbing, with Rodrigo Santoro playing a wicked and cruel foreman who runs a junkyard in São Paulo. In the streets with bare wire poles that cover the heads of São Paulo residents, immigrants and migrants are imprisoned in rooms in which none of us would like to sleep.

With the promise of employment in São Paulo, the richest city in Brazil, young people leave the interior of the country to earn money and rise in life, helping their fathers and mothers with the income they will have in the capital. However, it only takes a few scenes and about twenty minutes of the film to understand that the dream of freedom is a trap. And that, together with the young characters deluded by the promise of a job, the spectators find themselves trapped within a scheme in which we are enslaved and from which there is no option of escape. Between the oppression of poverty or falling prey to the slavery industry, we drink a cup of cold coffee that sours our cloudy gray mornings, tangled up in strands of streetlamps that do not illuminate us. “7 Prisoners” arrests the viewer, whose dreams are disturbed for much longer than 7 days.

“O Apanhador no Campo de Centeio” é um pesadelo que nunca acaba/”The Catcher in the Rye” is nightmare that will never be over

The Catcher in the Rye | Amazon.com.br

A adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizado por atitudes impulsivas como parte do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e social do indivíduo em busca de alcançar os objetivos relacionados às expectativas culturais da sociedade em que vive. Só que, para amadurecer e se encaixar nas expectativas que a sociedade coloca sobre o adolescente, o jovem sofre e se revolta. É sobre este complicado período na nossa vida que trata o livro que só agora li, “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger. Este romance traduz a confusa mente de um jovem que tenta entender esta passagem. Foi segurando um exemplar deste livro, por exemplo, que o assassino de John Lennon apertou o gatilho que levou para sempre o sonho que o Beatle imaginou em canções.

O protagonista nesta história, o jovem Holden Caulfield, não consegue se enquadrar nos rígidos esquemas das caras escolas onde estuda e das quais é expulso seguidamente. Não tem paciência para ouvir os adultos, tem medo da reação do pai quando souber que foi novamente expulso de mais uma escola, quer conhecer garotas e se envolver romanticamente, quer fugir de casa, quer mudar o mundo. Mas acaba não fazendo nada, pois tem medo, é inseguro e traduz a sua insegurança em uma rebeldia que não consegue controlar. Este livro é um gatilho que traduz com ímpeto os sonhos e pesadelos que, ao contrário do que John Lennon disse, nunca acabam.

English – Adolescence is the transition period between childhood and adulthood, characterized by impulsive attitudes as part of the individual’s physical, mental, emotional, sexual and social development, seeking to achieve goals related to the cultural expectations of the society in which they live. But, in order to mature and fit in with the expectations that society places on adolescents, teenagers suffer and rebel. It is about this complicated period in our life that the book I have just read, “The Catcher in the Rye”, by J. D. Salinger, is about. This novel translates the confused mind of a young man trying to understand this passage. It was holding a copy of this book, for example, that John Lennon’s killer pulled the trigger that took forever the dream the Beatle imagined in songs.

The protagonist in this story, the young Holden Caulfield, cannot fit into the rigid schemes of the expensive schools he attends and from which he is repeatedly expelled. He does not have the patience to listen to adults, he is afraid of his father’s reaction when he finds out that he’s been kicked out of yet another school again, he wants to meet girls and get romantically involved, he wants to run away from home, he wants to change the world. But he ends up doing nothing, because he is afraid, insecure and translates his insecurity into a rebellion he cannot control. This book is a trigger that translates with impetus the dreams and nightmares that, contrary to what John Lennon said, will never be over.

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