O Peso de um Livro/The Weight of a Book

O Brasil tem um dos sistemas prisionais mais precários e mais populosos do mundo. As condições em que os presos aqui se encontram são, muitas vezes, medievais. E pouco, ou quase nada, contribuem para que o apenado se ressocialize. A sociedade, livre do lado de fora das grades, por sua vez, perpetua o confinamento dos presos quando eles voltam a conviver com a liberdade.

Acabo de ler um livro que traz algumas luzes para o escuro mundo dos encarcerados. “O Peso do Jumbo” (editora Paulus, 2019), escrito pela jornalista Karla Maria, leva o leitor para dentro de presídios masculinos e femininos em diversos estados brasileiros. A autora dá voz aos presos, aos carcereiros, aos juízes a aos familiares dos encarcerados, retratando como é complicado para milhares de famílias pobres se deslocarem por longas distâncias toda semana para visitar seus parentes nas prisões. O perfil do preso no Brasil tem sexo, cor e classe econômica: homem preto e pobre. Acho que o livro de Karla Maria é um bom complemento para os livros que Drauzio Varella escreveu sobre este triste universo, que a maioria dos brasileiros insiste em varrer para debaixo do tapete. Este livro-reportagem merece ser lido, e as prisões em nosso país precisam ser repensadas, as penas comutadas e as drogas, legalizadas. Com medidas simples, a população carcerária pode diminuir muito. E, com ela, o poder de facções como o PCC, também. Quanto menos presos houver nas cadeias, menos violenta será a vida fora das prisões. “O Peso do Jumbo” é um ônus que fere os ombros de um país que grita por socorro. Não é uma leitura para amadores.

English: Brazil has one of the most precarious and populated prison systems in the world. The conditions that prisoners face in cells around the country are medieval and contribute very little to their resocialization. Brazilian society closes all doors to former inmates when they leave prison.

I have just read a book which portrays the life of inmates in Brazil: “O Peso do Jumbo” (“The Weight of the Bag”), written by journalist Karla Maria. The book takes the reader on a journey inside prisons in Brazil and it becomes the voice of inmates, families, judges and janitors. In this book, we learn how hard it can be for a family to travel miles just to arrive at prison and spend a Sunday visiting their son, husband, father or daughter. Inmates in Brazil are usually black and poor. Prisons in Brazil should be restructured in order for life outside them to be less violent. Sentences should be commuted and drugs legalized. “The Weight of the Bags” is a burden that hurts the shoulders of a country that shouts for help. It is not a book for amateurs. 

O Rio de Janeiro ganhou uma biografia/Rio de Janeiro receives a biography

O Rio de Janeiro continua lindo. O Rio de Janeiro é uma escultura da natureza, que acaba de ser biografado em sua juventude. O jornalista Ruy Castro, em seu mais recente lançamento, “Metrópole à beira-mar – O Rio Moderno dos anos 20” (Companhia das Letras), descreve com detalhes a cultura, os costumes e um pouco da política na então maior e mais importante cidade do Brasil. No livro de Ruy Castro, ficamos sabendo que, no início do século 20, os cariocas não iam à praia, cuja vista era a janela do fundo de suas casas. A praia era o quintal dos cariocas, que só começaram a nadar em Copacabana quando o rei da Bélgica visitou o Rio e deu ali um mergulho inaugural em suas águas. O Rio é pintado pela presença de nomes como Carmen Miranda, Bidú Sayão, Cecilia Meirelles, Di Cavalcanti, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Pixinguinha e Villa-Lobos, entre tantos outros. Conhece algum? Pois é, somos todos filhotes do Rio de Janeiro de 100 anos atrás. Como cereja do bolo, Ruy Castro nos brinda com informações que deixarão os paulistas um pouco menos orgulhosos de sua Semana de Arte Moderna, cuja organização mostrou que o Rio era uma cidade muito mais  vanguardista que a garoa que molhava São Paulo. Recomendo esta leitura.

English: Rio de Janeiro is still a beautiful city. It is a sculpture by nature, and a biography on the city has just been published. “Metrópole à beira-mar – O Rio Moderno dos anos 20” (“Metropolis by the Sea – Modern Rio in the 1920s”), by journalist Ruy Castro, describes  in detail the habits and the culture of the then largest and most important city in Brazil. In this book we learn that, until the beginning of last century, Cariocas (native Brazilians born in Rio) did not use to go to the beach, whose view was seen in their houses from the windows in their back gardens.  The beach was the yard of Cariocas, who only began to swim at Copacabana beach when the King of Belgium visited the city at the beginning of last century and swan in its warm water. Ruy Castro paints Rio with the presence of names such as Carmen Miranda, Bidú Sayão, Cecilia Meirelles, Di Cavalcanti, João do Rio, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Pixinguinha e Villa-Lobos, among so many others. You might have heard of some of them. It is also curious to read that the famous “Modern Art Week” held in São Paulo in 1922, of which Paulistanos  (native Brazilians born in São Paulo) are so proud of, proved that it was actually Rio the most avant-garde metropolis in Brazil. I recommend this book.

Ocupar é preciso/Occupying is precise

Acabo de ler o mais recente romance do brasileiro, filho de argentinos, Julián Fuks, “A Ocupação”. Ocupar a mente é brincar de esconde-esconde com o ócio. Ocupar a casa pode ser colocar filhos para habitá-la. Ocupar a sociedade pode ser participar, nas ruas, de protestos a favor de mais democracia, mais educação, mais habitação. O romance de Julián Fuks trata das diversas formas como somos ocupados e invadidos em nossos relacionamentos, no trabalho ou na falta de ocupação. Narrado em três níveis, “A Ocupação” tem em seu eixo central a invasão do Hotel Cambridge, prédio abandonado no centro de São Paulo e invadido pelos sem-teto, muito deles imigrantes de países como a Síria ou a Bolívia. Paralelamente, há a história do difícil relacionamento conjugal do narrador com a esposa, além de seu pai, que definha no leito de um hospital. O Brasil é silenciosamente ocupado; nós nos ocupamos de abrir espaços nas vidas que invadimos cotidianamente. Com uma linguagem lírica, Jilián Fuks nos convida a passear por casas ocupadas, a ocupar a nossa casa, a revisitar a nossa vida. Difícil resistir à leitura desta curta narrativa em uma só sentada.

English: I just finished reading the novel “A Ocupação” (“Occupy”), by Brazilian author Julián Fuks. The book is about the occupation of Hotel Cambridge, a building which was abandoned in downtown São Paulo. Hotel Cambridge is now is home to hundreds of people from various countries, like Syria and Bolivia. Julián deals with the lives of people who are invisible in a society occupied by commitments and dreams, which not always come true. I could not put it down up to its last page.

Um poeta que (en)cantou o mundo/A poet who (en)chanted the world

Estava mais angustiado que o goleiro na hora do gol. Assim me senti ao terminar de ler agora a biografia do cantor e compositor Belchior, “Apenas um rapaz latino-americano”, escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros. Belchior foi, mais do que cantor, mais do que músico, mais do que pintor, um poeta, que musicou angústias, amores e protestos. E sua música traduziu um pouco dos conflitos e embates que teve com Caetano Veloso e, principalmente, com o conterrâneo Fagner. Um livro que certamente vai agradar aos fãs do músico cearense e vai ser um boa porta de entrada ao infinito universo deste Bob Dylan brasileiro. Na próxima edição da Revista “Germina”, publicarei, na minha coluna lá, uma resenha crítica sobre esta biografia. Por enquanto, deixo a sugestão, para a leitura ficar mais gostosa, de ler o livro e ouvir as músicas de Belchior ao mesmo tempo.  

English: I felt somehow disturbed after reading Belchior’s biography “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (“Just a Latin American Boy” – title of one of his songs). Belchior was much more than a singer: he was a composer and a painter, but, above all, he was a poet. Considered by himself the Brazilian Bob Dylan, Belchior’s songs are a bridge that connects him with love, with his city, his country, his time and his past. I will elaborate all of these ideas shortly in my column, which will be published in the next issue of the “Germina” magazine.

Um belo romance indiano/A beautiful Indian novel

Há um ano estive na Índia e, de todas as viagens que fiz aos cinco continentes, com certeza, esta foi a experiência em que me senti mais longe do Brasil. Apesar de, como o Brasil, ser um país ricamente pobre, a Índia se apresenta ao mundo com uma aquarela de cores bem distintas de nós. Para não perder de vista o gosto que o subcontinente indiano me trouxe, li agora um romance que veio na bagagem desta viagem. Da jovem e premiada autora Arundhati Roy, “O Deus das Pequenas Coisas” é a história de dois irmãos gêmeos, um menino e uma menina, que são obrigados a se separar, ainda crianças, para se encontrarem décadas depois. Assim como o Brasil e a Índia, os irmãos Esthappen e Rahel se sentem muito distantes, uma distância que se acentua pela semelhança entre si, mas,  ao se encontrarem, tentam tratar de uma ferida que teima em não cicatrizar. Arundhati Roy é uma ótima porta de entrada para a moderna literatura indiana. 

English: One year ago I went to India and, from all the trips I took to the five continents, this was for sure the one that made me feel the farthest from Brazil. Although it is, like Brazil, a richly poor country, India has different colors than Brazil. In order not to lose the cool taste India has provided me with, I have now read a novel that I brought along from this trip. By young author Arundhati Roy, “The God of Small Things” is the story of two twins, a boy and a girl, who are forced to drift apart at a young age, to reunite decades later. Just like Brazil and India, the twins Esthappen and Rahel feel the distance between them grow as time goes by – a distance that is fed by the similarities in them. When they meet again, they try to heal a wound which never seems to disappear. Arundhati Roy is an excellent door to modern Indian literature.

Um poema meu na “Revista Conexão Literatura”/My poem published in Magazine “Conexão Literatura”

Foi publicado hoje na edição de janeiro de 2020 o meu poema “A Tua Mais Completa Tradução”, no qual eu brinco com as palavras em inglês e português a fim de sugerir as ideias de ação, formação, informação e transformação. Se quiser ler o poema, clique no link (espero que curta):

In today´s issue of Magazine “Conexão Literatura” my poem “A Tua Mais Completa Tradução” (“Your most complete translation”) was published. In this poem, I play with words in English and in Portuguese in order to suggest the ideas of action, formation, information and transformation. If you want to read it, just on this link (hope you enjoy it):

http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2020/01/poema-tua-mais-completa-traducao-por.html?fbclid=IwAR0IheaqDXLBV95_2X0EzDPYRjfnzXsyCFHRcZP9hgyzOFzOnficm-rAkFE

“Roda Viva” é digestão cerebral/”Life Goes On” is digestion for the brain

Ir ao teatro Oficina, em São Paulo, assistir a uma peça dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa é um ritual único e desafiador. Afinal, quem se dispõe a esperar em uma fila para comprar ingresso (e correr o risco de voltar pra casa de mãos vazias) para ver uma peça de 5 ou 6 horas sentado em uma arquibancada de cimento sem encosto? O interessante disso é que, quem vai, geralmente, quer voltar.

Foi assim comigo na noite de ontem, quando assisti à peça “Roda Viva”. A história de um músico que, com o objetivo de fazer sucesso a qualquer preço, se vende para um empresário ambicioso, que o força a se descaracterizar para atingir a glória, é um texto menor de Chico Buarque. No entanto, nas mãos de Zé Celso, a peça ganha um vigor absurdo, ao som de uma competente banda que toca ao vivo e, principalmente, do excelente ator que interpreta o empresário Anjo, Guilherme Calzavara. Apesar do fraco desempenho do protagonista, que faz o papel do músico Ben Silver (Roderick Himeros), assistir a “Roda Viva” é um desconfortável programa de sábado à noite, que levamos anos para digerir no cérebro.

In English: Going to Oficina Theater, in São Paulo, in order to see a play directed by Zé Celso Martinez Corrêa is a challenging ritual. You usually need to wait in line to get a ticket to watch a 5-6 hour long play sitting on an uncomfortable cement bench. Surprisingly, most people who undergo this ritual generally enjoy the experience.

I went to Oficina yesterday to watch “Life goes on” (“Roda Viva”) – the story of a singer whose aim is to become famous at any price and falls in the hands of an ambitious manager, who makes him change his original style to first gain and eventually lose fame. Although “Roda Viva” is a minor text by Chico Buarque, in the hands of Zé Celso, the play becomes super powerful. The highlight is the performance of actor Guilherme Calzavara and the awesome band on stage (although Oficina has no specific stage). “Roda Viva” is an uncomfortable Saturday night show, which will take years to be digested by the brain.

“Perdidos no Espaço” 50 anos depois/”Lost in Space” 50 years later

A minha infância e a minha adolescência foram marcadas pela televisão. Estou falando dos anos 70. E a televisão foi muito importante na minha formação intelectual. Foi ela que me apresentou, por exemplo, o universo do Monteiro Lobato. A minha imaginação foi também muito alimentada por séries de ficção americanas, como “O Túnel do Tempo”, “Terra de Gigantes” e “Perdidos no Espaço”. Quem cresceu nesta década carrega consigo para sempre esse universo.

Foi, portanto, com nostalgia que assisti na Netflix às duas temporadas de “Perdidos no Espaço” (a segunda acabou de ser lançada). Quem viu a série original (produzida nos anos 60) vai querer ver a atual. E quem não viu a original pode ter uma pequena ideia das fantasias que passavam pela mentes dos cinquentões e sessentões de hoje quando eram jovens.

Já adianto dizendo que, apesar das inúmeras “licenças poéticas” científicas da série em preto e branco que a ciência atual já negou faz tempo, a série original tinha mais apelo do que a recente produção da Netflix. Em tempos de Guerra Fria, um personagem malvado como o Dr Smith era, na verdade, a personificação de alguém que se opunha aos americanos. Ele foi criado para ser o vilão, o invasor, o desonesto, egoísta, o antiético, inescrupuloso: adjetivos que o americano comum associava imediatamente aos comunistas soviéticos. Mas, justamente por se opor à arrogância imperialista americana, o Dr Smith era um personagem antissistema, que, para o Brasil da ditadura militar, representava uma lufada de ar fresco. Além do mais, nos Estados Unidos, o Dr Smith era identificado com os hippies, que eram contra a Guerra do Vietnã (que os americanos patrocinaram e perderam – no tempo e no espaço).

A versão atual traz pouco da contracultura dos anos 60. A começar pelo personagem da nada convincente Parker Posey, que faz a Doutora Smith (sim, na Netflix, o malvado é uma mulher), que não tem o carisma que o ator Jonathan Harris dava ao Doutor Smith. É inegável, porém, que as mulheres têm muito mais voz e força na série da Netflix. A Maureen atual é uma mulher que se impõe com ideias próprias e com conhecimento científico, algo impensável para a subserviente esposa Maureen original. Na Netflix, ela até se separa do marido no início da primeira temporada. As duas filhas atuais (Penny e Judy) são mais ativas e menos coadjuvantes do que as de 50 anos atrás. Acompanham, portanto, as conquistas femininas neste século. Mas acho isso pouco em comparação ao vulcão de imaginação que a Família Robinson (referência ao romance de Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”) original provocou em jovens há meio século. Além do mais, o personagem atual Don West (Ignacio Serricchio) não tem a mesma simpatia do Major West (Mark Goddard) dos anos 60. 

Apesar de não achar que os jovens que estão sendo apresentados a “Perdidos no Espaço” agora irão querer revê-la daqui a 50 anos, recomendo esta série para os que querem se perder no tempo neste ano que se inicia agora.

In English: My childhood and my teenage have been strongly influenced by TV. I refer to the 1970s, when television shaped my intellect by introducing me to great writers, such as Brazilian novelist Monteiro Lobato. My imagination has also been stimulated by American TV series, like “The Time Tunnel”, “Land of the Giants” and “Lost in Space”. Anyone who grew up in the 60s/70s will bring this universe with them forever. It was, therefore, with a degree of nostalgia that I watched on Netflix the first two seasons of “Lost in Space”, a reimagining of the 1965 series.

I start off by saying that, despite a great deal of “poetic license” in the black and white series that current science has already denied, the original “Lost in Space” has more appeal than the reimagining of it by Netflix. During the Cold War, an evil character like Dr Smith was the impersonation of a brave man who dared to challenge the United States. He was the villain, the invader, the selfish man with no scruples; he carried all of the adjectives an ordinary American would immediately connect to the communists from the Soviet Union. However, for being anti-establishment, Dr Smith represented the possibility of being free from the arrogance of the American imperialism. (In Brazil in the 1970s, during the military dictatorship, Dr Smith represented a possibility of saying no to censorship and to torture). Besides, in the USA, Dr Smith was identified with the hippies, who were against the establishment and the Vietnam War, which the Americans lost – in time and in space.

The current version of “Lost in Space” has very little of the countercultural vibe from the 1960s. The not-so convincing actress Parker Posey, who plays the role of Dr Smith (yes, on Netflix, the evil character is a woman), does not have the same charisma actor Jonathan Harris originally gave Doctor Smith.

It is undeniable, however, that the female characters have a much stronger voice on the Netflix series. Maureen is now a woman with her own opinions and scientific knowledge – something unimaginable for the obedient wife in Maureen’s original “Lost in Space”. The two daughters (Judy and Penny) are more active and less of supporting actresses than their peers from the 1960s. However, I think this is very little in comparison to the volcano of imagination that the original Robinson Family (an obvious reference to  Daniel Defoe’s novel, “Robinson Crusoe”) caused in children and teenagers half a century ago. Besides, current character Don West (played by Ignacio Serricchio) is miles away from the competence shown by Major West (Mark Goddard) in the 60s.

Although I don’t think that young people, who are being introduced to “Lost in Space” now will feel like watching it again in 50 year’s time, I recommend this Netflix series to the ones who are willing to get lost in time in this year (2020), which has just begun.

Clarice Lispector faz 100 anos/100 years of Clarice Lispector

Um dos motivos pelos quais eu sou escritor atende pelo nome de Clarice Lispector. A primeira vez que li um romance escrito por esta ucraniana, que acidentalmente virou brasileira, eu fiquei “chapado” e quase aprendi a escrever. E até hoje, quando escrevo, escuto o eco de Clarice no fundo das minhas palavras. Como ela nasceu há exatos cem anos, em 2020 o nome Clarice Lispector será um dos mais pronunciados por aqui.

Assisti hoje à peça “Minhas Queridas- Cartas de Clarice Lispector às Irmãs”. Não se trata da literatura de Clarice no palco, pois o texto da peça é inspirado em cartas que ela escreveu para suas duas irmãs durante os 15 anos em que viveu em diversos países no exterior, acompanhando o marido diplomata, Maury Gurgel Valente. Trata-se mais da vida de Clarice, que traduziu a própria existência em sua ficção; portanto, o espetáculo é uma oportunidade de assistir a um pouco da literatura que ela escreveu. A peça procura entrar no universo clariciano pela margem: o espectador chega à ficção dela partindo da sua (sofrida) realidade. A mistura da vida real e da ficção de Clarice é muito bem articulada por um texto fluido e equilibrado entre as atrizes Marilene Grama e Simone Evaristo, que representam as irmãs e a própria autora. Há algumas “piscadelas” para o público em referências ao texto clariciano. Não poderiam faltar uma barata, um ovo e uma galinha (não necessariamente reais) no palco.

Com um cenário móvel, de três paredes que se transformam, e uma trilha sonora original com um potente blues, o ano do centenário de Clarice Lispector começa com esta peça, que introduz com competência um dos principais nomes de nossa literatura. Recomendo muito esta montagem, que fica em cartaz no Sesc Pinheiros até o dia 8 de fevereiro.


In English: I am a writer as a result of authors who influenced me. One of them is definitely Clarice Lispector. She would have turned 100 if she was still alive. Therefore 2020 will witness a number of plays, books and movies inspired by her work. Born in Ukraine, she came to Brazil when she was 2 years old. She always felt a foreigner anywhere in the world. The play “Dear Sisters”, which I watched today at Sesc Pinheiros, in São Paulo, is a great opportunity to be in touch with non-fiction texts by Lispector. The play is based on letters that she wrote to her 2 sisters when Clarice was living in various countries in Europe and in the US, when she was married to Diplomat Maury Gurgel Valente. The two actresses take turns as one of the sisters and as Clarice herself. The stage set consists of three movable walls and a powerful soundtrack of sad Blues. Elements of her fiction – as a cockroach, an egg and a chicken – will be on stage. I highly recommend this play.

Peça”Brincando com o Fogo”/Play “Playing with Fire”

Uma das principais companhias teatrais de São Paulo (o Grupo Tapa) encenando um dos mais renomados dramaturgos do século XIX (o sueco August Strindberg) só poderia resultar em uma bela produção nos palcos brasileiros, certo? Só que não. Fui ontem ver a estreia da peça “Brincando com o Fogo” no Teatro Aliança Francesa em São Paulo e não tive vontade de me levantar para aplaudir no final. O autor sueco escreve textos que se passam em espaços fechados (geralmente o interior de uma casa) para retratar criticamente as relações de  famílias burguesas. No entanto, nesta montagem do Tapa, o que se vê é um texto raso sobre um triângulo (ou quinteto) amoroso, envolvendo um casal que tem um relacionamento morno e burocrático e um amigo, que passa uma temporada morando em um quarto na casa deles. Além destes três, há os pais do marido, que são presença constante e incômoda (para o casal) na casa que o pai deu para o filho (um artista pouco chegado ao trabalho) morar de graça. O pai do artista, aliás, parece ter um caso amoroso com a moça que trabalha na casa do casal. 

A interpretação dos atores é artificial e pouco inspirada, com falas mornas que não dão a dramaticidade necessária possivelmente imaginada por Strindberg. O cenário (a sala do artista, com quadros que ele produz e um espelho que reflete o personagem nele pintado) não compromete e aponta para uma ideia interessante de metalinguagem. O saldo final, no entanto, é frustrante.

In English: One of the most renown theater companies in Brazil (Grupo Tapa) performing a text by one of the most famous playwrights ever (Swedish August Strindberg) should certainly be a successful combo. However, the performance of “Playing with Fire” in São Paulo is nothing less than embarrassing. Actors deliver a poor performance with lines artificially articulated. In a word: frustrating.