“O Médico e o Monstro” é a revelação de um incômodo/”Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is the revelation of a nuisance” – 14 de abril de 2021

O Médico e o Monstro | Martin Claret Editora

Quem assistiu ao filme “A Escolha de Sofia”, com Meryl Sreep, sabe o arrepio que causa o momento no qual Sofia, presa com os filhos em um campo de concentração nazista, precisa escolher um dos filhos para morrer. Este é o tipo de escolha que nenhum pai ou mãe sonha em fazer. Acabo de ler a novela clássica de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”, que coloca o leitor frente a frente com um homem que precisa escolher uma das duas personalidades que lutam dentro de si: o rico e adorado doutor Henry Jekyll ou o sanguinário Edward Hyde. Uma escolha não menos arrepiante do que a de Sofia, já que os dois são o mesmo homem.

Ao desenvolver uma droga que permite que venha à tona uma personalidade inconsciente que habita o seu ser, o médico Henry Jekyll permite que ele entre em contato com seu “segundo eu”, o cruel e feroz Edward Hyde. Jekyll e Hyde, embora opostos na superfície, são expressões de um mesmo ser, complexo, ambivalente e conflituoso, como todos nós.

O espelho nos mostra apenas uma face de nossa essência. Há outros eus escondidos em nossa personalidade, e frequentemente evitamos que eus inconscientes frequentem a superfície de nosso caráter e se expressem de forma consciente. O nome Hyde tem a mesma sonoridade que o verbo “hide” (“esconder”), em inglês. Portanto, “O Médico e o Monstro” é um livro sobre o eu que escondemos dentro de nós.

Robert Louis Stevenson se inspirou em um caso real de um sociopata que viveu e aterrorizou a Inglaterra décadas antes de ele nascer. Edward Hyde é um psicopata que desequilibra a cartesiana Inglaterra vitoriana de Stevenson. “O Médico e o Monstro” é uma novela gótica, de terror, estranha, absurda.  Hyde é a máscara sobre a qual habita Jekyll.

“O Médico e o Monstro” é uma tragédia inglesa, brasileira, grega. E as tragédias gregas eram compostas dos seguintes elementos: máscaras, mitos e mortes. E é justamente aí que reside a incrível atualidade de “O Médico e o Monstro” no Brasil governado pelo coronavírus: em nome da vida, andamos com máscaras. Colado ao nosso corpo, há sempre um Edward Hyde nos ameaçando a vida. E, assim como os mitos nas tragédias gregas decidiam o destino dos personagens, nosso destino hoje está nas mãos de um “mito” em Brasília. Cabe a nós libertar a nossa essência e, em 2022, desmentir o mito que nos rege e recolocar o Brasil nas mãos de outro conceito grego: a democracia. Se “Sofia”, em grego, significa “sabedoria”, que saibamos fazer a nossa escolha com Sofia.

English – Anyone who watched the movie “Sophie’s Choice”, with Meryl Sreep, knows the shiver that causes the moment when Sophie, trapped with her children in a Nazi concentration camp, needs to choose one of the children to die. This is the kind of choice that no parent dreams of making. I have just read Robert Louis Stevenson’s classic novella, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde“, which puts the reader face to face with a man who must choose one of the two personalities who struggle within him: the rich and adored doctor Henry Jekyll or the bloodthirsty Edward Hyde. A choice no less chilling than Sophie´s, since the two are the same man.

In developing a drug that allows an unconscious personality to inhabit his being to emerge, doctor Henry Jekyll allows him to get in touch with his “second self”, the cruel and ferocious Edward Hyde. Jekyll and Hyde, although opposed on the surface, are expressions of the same being, complex, ambivalent and conflicting, like all of us.

The mirror shows us only one face of our essence. There are other selves hidden in our personality, and we often prevent unconscious selves from frequenting the surface of our character and expressing themselves consciously. The name Hyde has the same sound as the verb “hide”. Therefore, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a book about the self that we hide within us.

Robert Louis Stevenson was inspired by a real case of a sociopath who lived and terrified England decades before he was born. Edward Hyde is a psychopath who unbalances Stevenson’s Cartesian Victorian England. “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a strange, absurd, gothic, horror novella. Hyde is the mask under which Jekyll lives.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is an English, Brazilian, Greek tragedy. And Greek tragedies were composed of the following elements: masks, myths and deaths. And this is exactly where the incredible link between “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” and Brazil, today governed by the coronavirus: in the name of life, we walk in masks. Glued to our body, there is always an Edward Hyde threatening our lives. And, just as the myths in the Greek tragedies chose the fate of the characters, our fate today is in the hands of a “myth” in Brasília. It is up to us to liberate our essence and, in 2022, to deny the myth that governs us and to put Brazil in the hands of another Greek concept: democracy. If “Sophie”, in Greek, means “wisdom”, I hope we will be wise and make our choice with Sophie.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

4 comentários em ““O Médico e o Monstro” é a revelação de um incômodo/”Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is the revelation of a nuisance” – 14 de abril de 2021

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