Um livro sobre canibais que não me alimentou/A book about cannibals that did not feed me

Sobre os canibais: Contos | Amazon.com.br

Caetano W. Galindo é um dos principais tradutores literários brasileiros. É dele, por exemplo, a premiada tradução do livro “Ulysses”, de James Joyce, ao português. Eu confesso que tentei, por duas vezes, ler o “Ulysses”, mas não passei da página 25. No entanto, reconheço o mérito do Galindo como tradutor, pois ele foi capaz de recriar em português uma obra cerebral que, para mim, é intraduzível. Justamente por isso, estava curioso para conhecer o lado ficcionista de Galindo e li agora seus contos em “Sobre os Canibais”. Infelizmente, me decepcionei com o livro.

Os temas no conto passeiam pela morte, por decepções amorosas, pela angústia existencial. Mas são irregulares. Apenas um ou dois foram capazes de me fazer suspirar, como o conto “Pentimenti”, que me lembrou a canção “Cotidiano”, do Chico Buarque, e o conto “Sozinho”, que leva o leitor a ter uma epifania. Os outros 40 contos são curtas histórias mal curtidas (no sentido de conservadas em molho) que não curti. Galindo tenta ser cerebral nos contos, tenta fazer trocadilhos e tenta subverter a linguagem e a pontuação. Abusa do uso de parênteses que não levam a lugar algum. Abusa da metalinguagem que não é capaz de tirar o leitor da história. Fica brega ao tentar transformar uma instalação artística em literatura. E acaba caindo em uma simplicidade que contrasta com o potencial que Galindo demonstra em suas traduções. Por isso, me desapontei com os contos de sua ficção. Fui com muita sede ao pote e terminei de ler “Sobre os Canibais” canibalizado por uma expectativa que não se concretizou. Acho melhor eu continuar a ser um leitor vegetariano mesmo. Se alguém leu “Sobre os Canibais”, fique à vontade para deixar suas impressões aqui.

English Caetano W. Galindo is one of the main Brazilian literary translators. For example, the award-winning translation of the novel “Ulysses”, by James Joyce, into Portuguese. I confess that I tried, twice, reading “Ulysses”, but I did not go anywhere beyond page 25. However, I recognize Galindo’s merit as a translator, as he was able to recreate in Portuguese a work that, for me, is untranslatable. Precisely for this reason, I was curious to know the fictional side of Galindo and I have now read his short stories in “Sobre os Canibais” (“About Cannibals”). Unfortunately, I was disappointed by the book.

The themes in the stories range from death, to love conflicts, to existential anguish. But they are irregular. Only one or two stories were able to make me sigh, like the short story “Pentimenti”, which reminded me of the song “Cotidiano”, by Chico Buarque, and the short story “Sozinho”, which leads the reader to have an epiphany. The other 40 are short stories badly elaborated which I did not enjoy. Galindo tries to be brainy in his short stories, tries to make puns and tries to subvert language and punctuation. He abuses the use of parentheses that lead to nowhere. He abuses metalanguage that is not able to take the reader out of the story. His style is tacky when tries to transform an artistic installation into literature. And it ends up falling into a simplicity that contrasts with the potential that Galindo shows in his translations. Therefore, I was disappointed by the tales of his fiction. I was hungry to read his fiction and ended up reading “About Cannibals” cannibalized by an expectation that did not materialize. I guess I’d better continue to be a vegetarian reader anyway. If anyone has read “About Cannibals”, feel free to leave your opinion here.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

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