No último livro de Carlos Heitor Cony, a ficção está acima de todos/In Carlos Heitor Cony´s last novel, fiction is above all

Operação Condor | Amazon.com.br

Eu gosto de livros que misturam ficção com realidade. Livros que questionam os fatos históricos e acrescentam neles personagens, motivações e diálogos. A literatura é livre para brincar com a realidade, para torná-la mais real ao ficcionalizá-la. Por isso, gosto tanto do filme “Bastardos Inglórios”, do Tarantino, no qual o diretor americano reescreve a História, corrigindo-a de seus erros. Nele, o Nazismo é extirpado como um câncer dentro de um cinema, cuja dona é uma judia. Esta brincadeira, que é a própria razão de ser da ficção, está presente no livro “Operação Condor”, de Carlos Heitor Cony e Anna Lee, que acabei de ler.

Ao ler “operação Condor”, tive a impressão de estar dentro de uma grande reportagem, uma grande investigação. E realmente estava, embora soubesse que quem a estava conduzindo eram personagens fictícios: a jornalista Verônica (que, ironicamente, traz a palavra “verdade” dentro de seu nome) e seu namorado, o “Repórter”. O livro investiga a hipótese de três importantes nomes da política brasileira terem sido vítimas de assassinatos políticos por serem contra a ditadura militar: os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Embora pertencentes a partidos diferentes, tinham em comum a oposição ao golpe militar e começavam a esboçar a formação de uma Frente Ampla contra a ditadura. Exilados, os políticos, outrora adversários, por serem populares, representavam uma ameaça ao governo militar, que prendeu, assassinou e torturou quem se opôs a seus desmandos.

Um intervalo de meses separa a morte dos três políticos, um período de menos de um ano nos nublados Anos de Chumbo. Com farta documentação real, os autores voltam no tempo, um tempo em que os governos militares da América do Sul criaram uma rede de colaboração e delação para deletar quem se opunha a eles, a chamada Operação Condor.

A morte é uma personagem importante neste livro. E, ironicamente, um de seus autores, Carlos Heitor Cony, morreu antes de vê-lo publicado. Cony morreu em janeiro de 2018, ano em que o Brasil elegeu para a Presidência da República a ideia de que a ditadura militar deve estar acima de qualquer verdade democrática. A ficção ainda há de corrigir este equívoco.

English I like books that mix fiction with reality. Books that question historical facts and add characters, motivations and dialogs to them. Literature is free to play with reality, to make it more real by fictionalizing it. For this reason, I like Tarantino’s movie “Inglorious Basterds”, in which the American director rewrites History, correcting its mistakes. In this movie, Nazism is extirpated like a cancer inside a movie theater, whose owner is a Jewess. This fun feature, which is the very raison d’être of fiction, is present in the book “Operação Condor” (“Condor Operation”), by Carlos Heitor Cony and Anna Lee, which I just read.

While reading “Condor Operation”, I had the impression that I was inside a big news story, a big journalistic investigation. And in fact I was, although I knew that whoever was leading the investigation were fictional characters: the journalist Verônica (who, ironically, brings the word “truth” within the meaning of her name) and her boyfriend, the “Reporter”. The book investigates the hypothesis that three important names in Brazilian politics were victims of political assassinations for opposing the military dictatorship: ex-president Juscelino Kubitschek and João Goulart and ex-governor of Guanabara State, Carlos Lacerda. Although they had been members of different parties, they had in common the fact that they opposed the military coup and began to outline the formation of a Broad Front against the dictatorship. In exile, these politicians, once adversaries, because they were popular, posed a threat to the military government, which arrested, murdered and tortured those who opposed their misdemeanors.

An interval of months separates the death of the three politicians, a period of less than a year in those cloudy times. With abundant real documentation, the authors go back in time, a time when the military governments of South America created a network of collaboration and denouncement which deleted (murdered) those who opposed them, the so-called Condor Operation.

Death is an important character in this book. And, ironically, one of its authors, Carlos Heitor Cony, died before seeing it published. Cony died in January 2018, the year in which Brazil elected for President the idea that a military dictatorship must be above any democratic truth. Fiction has yet to correct this misconception.

2 comentários em “No último livro de Carlos Heitor Cony, a ficção está acima de todos/In Carlos Heitor Cony´s last novel, fiction is above all

  1. Anderson, Eis, para mim, o êxito máximo de sua bela resenha: ela me deu vontade de ler o livro do Cony. E, em se tratando de um texto seu, sempre há uma janela para achados poéticos… Gostei muito do encontro sonoro e semântico em “delação para deletar”… Ótimo! Parabéns, meu amigo! Um grande abraço, César

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