Sobre a música “Sozinha”, de Peninha/About the song “Sozinha”, by Peninha

Caetano Veloso – Ouça na Deezer | Aplicativo de música

Pela primeira vez, fui convidado a escrever um texto para ser traduzido e publicado originalmente em italiano. Foi uma sensação diferente e um processo bacana, de muito diálogo com a tradutora. O convite foi para eu escrever sobre a música “Sozinha”, de Peninha (que fez sucesso na voz do Caetano Veloso), e  que acaba de ser gravada pela italiana Sara Trementini. Para ler o texto em italiano, clique em https://storiedeisamba.blogspot.com/2020/10/sozinho.html

Abaixo, o texto em português:

“Sozinho” (Peninha)

O Brasil, ao longo dos anos, construiu para o mundo a imagem de um país ensolarado e alegre. O sol tropical brilha durante o dia, portanto, quando se pensa em Brasil, imaginamos luz, calor, praia, peles bronzeadas, corpos despidos de vergonhas, liberdade e um permanente sorriso. O Brasil é uma mistura de povos e etnias, água doce dos rios, água salgada do mar. E aridez também. O Brasil se orgulha das suas horas de sol. Mas esconde suas horas noturnas, onde o escuro apaga as estrelas no céu.

A banda de rock progressivo Pink Floyd imortalizou a ideia de que existe um permanente “Dark Side of the Moon”. No entanto, a lua, ao contrário do que muitos imaginam, tem claridade e escuridão em cada centímetro de sua superfície. O Brasil é uma lua e vive, há algum tempo, uma longa noite que vem atrasando a alvorada.

O compositor brasileiro Peninha tem uma filha, Clariana Alves. Quando tinha 14 anos, Clariana namorava um rapaz, com quem brigou. O pai ouviu a briga de Clariana e ficou preocupado com o sofrimento da filha, que chorava por se sentir sozinha e longe do seu amor. Da preocupação com a filha, Peninha compôs “Sozinha”.

A canção de Peninha é noturna, é triste. É o oposto do que o Brasil se acostumou a ser para o mundo. Não é Bossa Nova nem Carmen Miranda. “Sozinha” é silêncio, uma lágrima doce e salgada, com versos que escorrem melancolia:

“Às vezes, no silêncio da noite

Eu fico imaginando nós dois

Eu fico ali sonhando acordada

Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solta?

Por que você não cola em mim?

‘Tô me sentindo muito sozinha” 

Esta música nasceu feminina e foi gravada inicialmente pela cantora Sandra de Sá com seu título original “Sozinha”, pois descrevia a solidão da menina Clariana Alves. Apesar da tristeza do tema da solidão, Sandra de Sá a interpreta com um gingado quase alegre, quase solar, quase dia de tão só.

Depois de Sandra de Sá, a canção foi gravada pela voz rouca, grave e carregada do cantor Tim Maia, um ícone do soul e do funk brasileiros. Com Tim Maia, a música se transformou e passou a ser masculina. “Sozinha” virou “Sozinho”. No trovão da voz de Tim Maia, a canção cresceu e chegou aos ouvidos de Caetano Veloso. Na voz do baiano Caetano, “Sozinho” se transformou em um sucesso imediato e levou seu álbum “Prenda Minha” a atingir um milhão de cópias vendidas.

Agora, a música foi gravada pela italiana Sara Trementini. Com ela, voltou a ser feminina. E a música, novamente em uma voz de menina, voltou a ser lua. Com Sandra de Sá, Tim Maia, Caetano Veloso e Sara Trementini, “Sozinho”, como a lua, completa um ciclo, com quatro fases solitárias que se complementam. E da escuridão da noite de um Brasil tropical, a tristeza da menina solitária exala um brilho secreto, escondido na luz e na brancura que seu nome colore: Clariana Alves, a claridade alva do sol e da lua. 

“Sozinha” é a menina. “Sozinho” é o Brasil, que mergulhou em uma noite escura que tem escondido o ensolarado país tropical em pandemias e autoritarismos políticos que apertam um povo no verso final da canção de Peninha: “Onde está você agora?”.

English – This text was written to be published in Italian on the following site: https://storiedeisamba.blogspot.com/2020/10/sozinho.html

Brazil, over time, gave the world an image of a sunny and cheerful country. The tropical sun shines during the day, therefore, when we think of Brazil, we imagine light, warmth, beach, tanned skins, bodies without shame, freedom and a permanent smile. Brazil is a mixture of peoples and ethnicities, fresh water of rivers, salt water of the sea. And even dryness. Brazil is proud of its sunny hours. But it hides its night hours, in which darkness shuts down stars in the sky.

Pink Floyd’s progressive rock band captured the idea of the existence of a permanent Dark Side of the Moon. Yet the moon, contrary to what many imagine, has light and darkness in every inch of its surface. Brazil is a moon and it’s been living a long night delaying the Aurora for some time.

Brazilian composer Peninha has a daughter, Clariana Alves. At age 14 Clariana had a boyfriend she fought with. Her father heard the two fighting and worried about the suffering of his daughter, who cried feeling lonely and distant from her love. Concern for her daughter inspired Peninha, who composed ′′ Sozinha “.

Peninha’s song is nightly, sad. It’s the opposite of what Brazil used to be for the world. It’s neither Bossa Nova nor Carmen Miranda. ′′ Sozinha ′′ is silence, a sweet and salty tear, with melancholy verses:

′′ Sometimes, in the silence of the night

I find the two of us

Standing there, daydreaming

Uniting the before, the now and the after.

Why are you letting me go so free?

Why don’t you stick to me?

I’m feeling very lonely ′′

This song was born female and was originally recorded by singer Sandra de Sá with the original title ′′ Sozinha” (“Her alone”), as it describes the loneliness of little Clariana Alves. Despite the sadness associated with the theme of loneliness, Sandra de Sá interprets it with an almost cheerful, almost sunny, almost day rhythm of loneliness.

After Sandra de Sá, the song was recorded by the powerful, serious and charged voice of singer Tim Maia, an icon of Brazilian soul and funk. With Tim Maia, the song changes and becomes male. ′′ Sozinha” (“Her alone”) becomes ′′ Sozinho” (“Him alone”). In Tim Maia’s mighty voice, the song grows louder and reaches the ears of Caetano Veloso. In Caetano’s voice, ′“Sozinho ′′ turns into an immediate hit and brings the album ′′ Prenda Minha′′ to reach a million copies sold.

Now the song was recorded by Italian singer Sara Trementini. With her, the song became what it originally was: the female. And the song, again in a girl’s voice, is back to being a moon. With Sandra de Sá, Tim Maia, Caetano Veloso and Sara Trementini, ′′Sozinha”, like the moon, completes a cycle, with four complementary solitary phases. And from the darkness of the night of a tropical Brazil, the sadness of the lonely girl radiates a secret glow, hidden in the light and whiteness that color her name: Clariana Alves, the light of the sun and the moon.

′′Sozinha′′ (“Her alone”) is the girl. ′′Sozinho′′ (“Him alone”) is Brazil, immersed in a dark night that keeps the sunny tropical country hidden behind pandemics and political authoritarianism that oppress a people in the final verse of Peninha’s song: ′′ Where are you now?”

8 comentários em “Sobre a música “Sozinha”, de Peninha/About the song “Sozinha”, by Peninha

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