Ler “O Quarto de Giovanni” é como ser decapitado por um capitão reformado

Na semana em que o mundo se lembra que racismo é crime, eu termino de ler “O Quarto de Giovanni”, um romance escrito por um grande escritor americano, James Baldwin. Na semana em que um policial americano branco sufoca com o joelho o americano negro George Floyd, já algemado e rendido, por nove minutos até a morte, eu termino de ler o romance em que Baldwin, um escritor negro e homossexual, não coloca personagens negros em primeiro plano. 

Na semana em que os cidadãos americanos desafiam o presidente Trump em vigílias e caminhadas pelas ruas pedindo justiça e o fim do racismo, leio, em “O Quarto de Giovanni”, a história de amor entre David, um americano que vive em Paris, e Giovanni, um italiano pobre que trabalha como garçom na mesma Paris. Vigiado pelo FBI nos anos 60 e 70, Baldwin foi um militante da causa negra, amigo de Malcolm X, Martin Luther King, Nina Simone e dos Panteras Negras. Em “O Quarto de Giovanni”, não há personagens negros, mas todos os personagens, com exceção de um, que morre, são estrangeiros em Paris.

Ser estrangeiro é ser marginal, é ser diferente. Ser negro e homossexual é uma espécie de estranhamento, de estrangeirismo. Estar no quarto com Giovanni é também estar escondido, no armário, protegido, desnudado de frente com aquilo que se é, mas que não pode ser mostrado. O quarto de Giovanni é o lado debaixo do tapete onde a sujeira fica escondida. O quarto de Giovanni é também o quarto de Gregor Samsa, o quarto de Mersault, estrangeiros estranhos, sujos, escondidos.

Desde o início, o narrador já avisa que Giovanni não vai terminar bem. E o romance todo é a construção das angústias de David e de Giovanni, um americano e um italiano, que dividem, durante poucos meses, um quarto cujas paredes guardam verdades que precisam ficar trancadas. James Baldwin precisa ser descoberto no Brasil. O Brasil, em 2020, é um país que sufoca seu povo com mentiras e sujeiras sob um tapete de impunidades. O pescoço de Giovanni e o pescoço de George Floyd carregam veias que também escorrem um Brasil que insiste em ser decapitado por um capitão.

Um comentário em “Ler “O Quarto de Giovanni” é como ser decapitado por um capitão reformado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: