O filme “7 Prisioneiros” é perturbador porque nos coloca como cúmplices de um esquema que se alimenta de escravos/The movie “7 Prisoners” is disturbing because it puts us as accomplices in a scheme that feeds on slaves

7 Prisioneiros: Críticas AdoroCinema

A escravidão não foi abolida no Brasil no dia 13 de maio de 1888, pois o Brasil ainda é um país onde a escravidão é parte de uma engrenagem invisível a qual eu, você e milhões de brasileiros alimentamos com atos inocentes como, por exemplo, comprar uma camiseta nova ou trocar uma roda quebrtada do nosso carro. É isso o que mostra o filme “7 Prisioneiros”, que estreou esta semana na Netflix. O filme é perturbador, com um Rodrigo Santoro protagonizando um perverso e cruel capataz que administra um ferro velho em São Paulo. Nas ruas com postes de fios desencapados que cobrem as cabeças dos paulistanos, imigrantes e migrantes são encarcerados em quartos nos quais nenhum de nós gostaria de dormir.

Com a promessa de emprego na cidade mais rica do país, jovens saem do interior do estado para ganhar dinheiro e subir na vida, ajudando seus pais e mães com a renda que terão na capital. No entanto, bastam algumas cenas e cerca de vinte minutos do filme para entendermos que o sonho de liberdade é uma armadilha. E que, junto dos jovens personagens iludidos com a promessa do emprego, os espectadores nos encontramos presos dentro de um esquema em que somos escravizados e do qual não existe a opção de fuga. Entre a opressão da pobreza ou ser presa da indústria da escravidão, nós tomamos um café frio que amarga nossas manhãs nubladas e cinzentas, emaranhados em fios de postes que não nos iluminam. “7 Prisioneiros” prende o espectador, cujos sonhos são perturbados por muito mais do que 7 dias.

English Slavery was not abolished in Brazil on May 13, 1888, as Brazil is still a country where slavery is part of an invisible gear which I, you and millions of Brazilians feed with innocent acts such as buying a new shirt or change a broken wheel in our car. That’s what the movie “7 Prisoners”, which premiered this week on Netflix, shows. The film is disturbing, with Rodrigo Santoro playing a wicked and cruel foreman who runs a junkyard in São Paulo. In the streets with bare wire poles that cover the heads of São Paulo residents, immigrants and migrants are imprisoned in rooms in which none of us would like to sleep.

With the promise of employment in São Paulo, the richest city in Brazil, young people leave the interior of the country to earn money and rise in life, helping their fathers and mothers with the income they will have in the capital. However, it only takes a few scenes and about twenty minutes of the film to understand that the dream of freedom is a trap. And that, together with the young characters deluded by the promise of a job, the spectators find themselves trapped within a scheme in which we are enslaved and from which there is no option of escape. Between the oppression of poverty or falling prey to the slavery industry, we drink a cup of cold coffee that sours our cloudy gray mornings, tangled up in strands of streetlamps that do not illuminate us. “7 Prisoners” arrests the viewer, whose dreams are disturbed for much longer than 7 days.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: