Um livro russo que faz o ato de ler ser uma maratona no streaming/ Reading this Russian novel is like binge watching a streaming series

Oblomov | Amazon.com.br

Li o romance “Oblómov” como quem assiste a uma série na Netflix. Escrito no século 19 pelo russo Ivan Gontcharóv, Oblómov é um sujeito que vive os últimos suspiros da nobreza na Rússia, que usufrui o privilégio  de ter servidores em sua casa. Mas que, enquanto o país se transforma, enquanto a nobreza vai desaparecendo, ele não reage e passa seus dias deitado na cama e no sofá, com preguiça e sem vontade de salvar a sua propriedade, de salvar a sua saúde, de salvar o amor por Olga, de dar algum sentido à vida.

“Oblómov” é um calhamaço de mais de 600 páginas. É um livro do romantismo russo, meio água com açúcar, mais próximo de uma história de José de Alencar do que das complexas tramas psicológicas de Tolstói ou Dostoiévski. Enquanto eu atravessava as centenas de páginas do livro, pensava que foi publicado como folhetim, em capítulos semanais nos jornais russos. E me deixei levar por essa estrutura do século 19 ao mesmo tempo em que tentava saboreá-la como assisto a uma série da Netflix, maratonando vários capítulos do livro e tendo total controle do momento e do local em que quis lê-lo. Ler “Oblómov” como assisto a uma série em streaming me deixou otimista em relação à sobrevivência do livro: afinal, o ato de ler e alimentar a mente com a ficção está na origem do cada vez mais crescente hábito de mergulhar em histórias que pingam nas temporadas que invadem nossas vidas no século 21. “Oblómov” é uma história que se estica por capítulos desnecessários, redundantes, mas que é capaz de fazer o leitor seguir lendo pois é difícil não se identificar com um personagem tão próximo de nós. A preguiça nos une em remotos séculos, antes do essencial controle remoto. O sofá de Oblómov é a história da qual não dá vontade de levantar.

English I read the novel “Oblómov” as if I was watching a series on Netflix. Written in the 19th century by Russian Ivan Gontcharóv, Oblómov is a guy who lives the last breaths of the nobility in Russia, who enjoys the privilege of having servants in his house. However, as the country changes, while the nobility fades away, he does not react and instead spends his days lying in bed and on the couch, lazily and unwilling to save his property, to save his health, to save his love by Olga, to give some meaning to life.

“Oblómov” is a novel with more than 600 pages. It is a book from Russian romanticism, wishy-washy, closer to a novel by José de Alencar than to the complex psychological plots by Tolstoy or Dostoevsky. As I went through the hundreds of pages of the book, I figured out it was published as a serial, in weekly chapters in Russian newspapers. And I let myself be carried away by this 19th century structure while trying to enjoy it as I watch a Netflix series, feeling the taste of the several chapters of the book and having total control of when and where I wanted to read it. Reading “Oblómov” as I watch a streaming series made me optimistic about the book’s survival: after all, the act of reading and feeding the mind with fiction is at the origin of the growing habit of diving into stories that drip into seasons that invade our lives in the 21st century. “Oblómov” is a story that stretches through unnecessary, redundant chapters, but that is able to keep the reader reading because it is difficult not to identify with a character so close to us. Laziness unites us in remote centuries, before the essential invention of the remote control. Oblómov’s couch is a story we do not want to get up from.

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