“Perdidos no Espaço” 50 anos depois/”Lost in Space” 50 years later

Raza Jaffrey entra para o elenco do remake de Lost in Space - Mix de Séries

A minha infância e a minha adolescência foram marcadas pela televisão. Estou falando dos anos 70. E a televisão foi muito importante na minha formação intelectual. Foi ela que me apresentou, por exemplo, o universo do Monteiro Lobato. A minha imaginação foi também muito alimentada por séries de ficção americanas, como “O Túnel do Tempo”, “Terra de Gigantes” e “Perdidos no Espaço”. Quem cresceu nesta década carrega consigo para sempre esse universo.

Foi, portanto, com nostalgia que assisti na Netflix às duas temporadas de “Perdidos no Espaço” (a segunda acabou de ser lançada). Quem viu a série original (produzida nos anos 60) vai querer ver a atual. E quem não viu a original pode ter uma pequena ideia das fantasias que passavam pela mentes dos cinquentões e sessentões de hoje quando eram jovens.

Já adianto dizendo que, apesar das inúmeras “licenças poéticas” científicas da série em preto e branco que a ciência atual já negou faz tempo, a série original tinha mais apelo do que a recente produção da Netflix. Em tempos de Guerra Fria, um personagem malvado como o Dr Smith era, na verdade, a personificação de alguém que se opunha aos americanos. Ele foi criado para ser o vilão, o invasor, o desonesto, egoísta, o antiético, inescrupuloso: adjetivos que o americano comum associava imediatamente aos comunistas soviéticos. Mas, justamente por se opor à arrogância imperialista americana, o Dr Smith era um personagem antissistema, que, para o Brasil da ditadura militar, representava uma lufada de ar fresco. Além do mais, nos Estados Unidos, o Dr Smith era identificado com os hippies, que eram contra a Guerra do Vietnã (que os americanos patrocinaram e perderam – no tempo e no espaço).

A versão atual traz pouco da contracultura dos anos 60. A começar pelo personagem da nada convincente Parker Posey, que faz a Doutora Smith (sim, na Netflix, o malvado é uma mulher), que não tem o carisma que o ator Jonathan Harris dava ao Doutor Smith. É inegável, porém, que as mulheres têm muito mais voz e força na série da Netflix. A Maureen atual é uma mulher que se impõe com ideias próprias e com conhecimento científico, algo impensável para a subserviente esposa Maureen original. Na Netflix, ela até se separa do marido no início da primeira temporada. As duas filhas atuais (Penny e Judy) são mais ativas e menos coadjuvantes do que as de 50 anos atrás. Acompanham, portanto, as conquistas femininas neste século. Mas acho isso pouco em comparação ao vulcão de imaginação que a Família Robinson (referência ao romance de Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”) original provocou em jovens há meio século. Além do mais, o personagem atual Don West (Ignacio Serricchio) não tem a mesma simpatia do Major West (Mark Goddard) dos anos 60. 

Apesar de não achar que os jovens que estão sendo apresentados a “Perdidos no Espaço” agora irão querer revê-la daqui a 50 anos, recomendo esta série para os que querem se perder no tempo neste ano que se inicia agora.

In English: My childhood and my teenage have been strongly influenced by TV. I refer to the 1970s, when television shaped my intellect by introducing me to great writers, such as Brazilian novelist Monteiro Lobato. My imagination has also been stimulated by American TV series, like “The Time Tunnel”, “Land of the Giants” and “Lost in Space”. Anyone who grew up in the 60s/70s will bring this universe with them forever. It was, therefore, with a degree of nostalgia that I watched on Netflix the first two seasons of “Lost in Space”, a reimagining of the 1965 series.

I start off by saying that, despite a great deal of “poetic license” in the black and white series that current science has already denied, the original “Lost in Space” has more appeal than the reimagining of it by Netflix. During the Cold War, an evil character like Dr Smith was the impersonation of a brave man who dared to challenge the United States. He was the villain, the invader, the selfish man with no scruples; he carried all of the adjectives an ordinary American would immediately connect to the communists from the Soviet Union. However, for being anti-establishment, Dr Smith represented the possibility of being free from the arrogance of the American imperialism. (In Brazil in the 1970s, during the military dictatorship, Dr Smith represented a possibility of saying no to censorship and to torture). Besides, in the USA, Dr Smith was identified with the hippies, who were against the establishment and the Vietnam War, which the Americans lost – in time and in space.

The current version of “Lost in Space” has very little of the countercultural vibe from the 1960s. The not-so convincing actress Parker Posey, who plays the role of Dr Smith (yes, on Netflix, the evil character is a woman), does not have the same charisma actor Jonathan Harris originally gave Doctor Smith.

It is undeniable, however, that the female characters have a much stronger voice on the Netflix series. Maureen is now a woman with her own opinions and scientific knowledge – something unimaginable for the obedient wife in Maureen’s original “Lost in Space”. The two daughters (Judy and Penny) are more active and less of supporting actresses than their peers from the 1960s. However, I think this is very little in comparison to the volcano of imagination that the original Robinson Family (an obvious reference to  Daniel Defoe’s novel, “Robinson Crusoe”) caused in children and teenagers half a century ago. Besides, current character Don West (played by Ignacio Serricchio) is miles away from the competence shown by Major West (Mark Goddard) in the 60s.

Although I don’t think that young people, who are being introduced to “Lost in Space” now will feel like watching it again in 50 year’s time, I recommend this Netflix series to the ones who are willing to get lost in time in this year (2020), which has just begun.

Um comentário em ““Perdidos no Espaço” 50 anos depois/”Lost in Space” 50 years later

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