O filme “A Flor do Meu Segredo”, de Almodóvar, é para ser visto a sós e em segredo/The film “The Flower of My Secret”, by Almodóvar, is to be seen alone and in secret

Pedro Almodóvar é um dos meus diretores favoritos. Ele, assim como eu, é uma pessoa colorida, que veste seus personagens com cores alegres e quentes, mas que disfarçam uma cinzenta angústia. Os personagens de Almodóvar são um disfarce de vida, que carregam, secretamente, desejos ocultos. Depois de quase 30 anos de seu lançamento, apenas agora assisti a “A Flor do Meu Segredo”, que é uma colorida aquarela de segredos pintados de aparentes verdades.

À primeira vista, achei o filme simples e menor, dentro da filmografia de Almodóvar. Depois, refletindo mais, descobri que o filme é um disfarce, é um lençol que cobre o enredo com uma sucessão de espelhos. Está ali uma escritora que escreve livros que fazem muito sucesso, mas que aborda temas que ela detesta, como a felicidade conjugal em histórias água com açúcar. Ela, que, ao contrário do que se imagina, por ser uma autora de sucesso, não tem dinheiro, tem dívidas, tem dúvidas e é muito infeliz em seu casamento. Ela é também uma “ghost writer” e chega a publicar uma crítica, com outro nome, à autora que é ela mesma, disfarçada de seu pseudônimo. Vive angustiada, e as cenas são um constante diálogo com o simbolismo da representação, com imagens de personagens que conversam sobrepostos por um vidro que projeta as suas imagens e que os transforma em alter-egos. O filme “A Flor do Meu Segredo” é para ser visto a sós. E o que nele vemos é para ser guardado em um colorido segredo.

English Pedro Almodóvar is one of my favorite directors. He, like me, is a colorful person, who dresses his characters in cheerful and warm colors, which disguises a gray anguish. Almodóvar’s characters are a disguise of life, who secretly carry hidden desires. After almost 30 years of its release, I have just now watched “The Flower of My Secret”, which is a colorful watercolor of secrets painted with apparent truths.

At first glance, I thought the film was simple and smaller, within Almodóvar’s filmography. Later, on reflection, I figured out that the film is a disguise, a sheet that covers the plot with a succession of mirrors. There is a writer who writes books that are very successful, but which addresses topics she hates, such as marital happiness in wishy-washy stories. She, who, contrary to popular belief, as a successful author, has no money, has debts, has doubts and is very unhappy in her marriage. She is also a “ghost writer” and even publishes a review, under another name, of the author who is herself, disguised as her pseudonym. She lives in anguish, and the scenes are a constant dialogue with the symbolism of representation, with images of characters who talk superimposed by a glass that projects their images and transforms them into alter-egos. The movie “The Flower of My Secret” is to be seen alone. And what we see in it is to be kept in a colorful secret.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: