Velhice/Old Age

Acabo de fazer sessenta anos e entendo que a velhice é uma metonímia do tempo. A juventude e a meia-idade também o são. No sentido legal, sou agora um homem velho, um senhor que o tempo batizou sessenta vezes por ano. Percebo como muita gente já me chama de senhor, o pronome “você” vai ficando cada vez menos comum a meus ouvidos. 

A velhice vai imprimindo marcas em nosso corpo: rugas, menos flexibilidade, músculos mais flácidos, pele mais solta, barriga maior, cabelo rareando. Noto tudo isso em mim, inclusive no meu cabelo, já percebo falhas que antes não tinha. Há falhas nas articulações, há falhas dentárias, há falhas no falo. No trabalho, eu convivo com alunos jovens, por isso me sinto distante deles cronologicamente. Mas também convivo com professores jovens. Percebo que meu repertório é diferente daquele de pessoas de 30 anos. As referências são outras. Eles falam coisas das quais eu nunca ouvi. A velhice é também uma espécie de isolamento. 

A velhice é uma surdez aos sons presentes, que não se fazem presentes na audição de um velho. Músicas, nomes e pessoas enviam vozes que soam como ruídos.

A velhice são memórias, que procuramos aproximar do coração, embora elas morem em outro bairro, em uma cidade distante. Envelhecer é mudar de endereço. E é preciso saber se ver na nova morada.

A velhice é uma casa térrea, sem quarto, sem teto. A velhice é um aposento onde me aposento. Na janela do aposento da velhice, o vento não bate, a saudade bate. E me torno um Batman encavernado por escuras asas sem olhos.

Me deito no sofá da velhice. E durmo o sono de uma estranha calmaria que não acalma. O sono do sofá no aposento da terceira idade é um descanso de um dia que tem hora para terminar.

English – Old age

I have just turned 60 and I understand that old age is a metonymy of time. Youth and middle age are also. In the legal sense, I am now an old man, a gentleman who has been baptized by time sixty times a year. I notice that many people now call me sir, and the pronoun “you” is becoming less and less common to my ears.

Old age leaves its mark on our bodies: wrinkles, less flexibility, flabby muscles, looser skin, a bigger belly, thinning hair. I notice all of this in myself, including my hair; I already notice flaws that I didn’t have before. There are flaws in my joints, there are flaws in my teeth, there are flaws all over. At work, I interact with young students, so I feel distant from them chronologically. But I also interact with young teachers. I realize that my repertoire is different from that of 30-year-olds. The references are different. They say things that I have never heard of. Old age is also a kind of isolation.

Old age is a deafness to the present sounds, which are not present in the hearing of an old man. Music, names and people send voices that sound like noises.

Old age is memories, which we try to bring closer to our hearts, even though they live in another neighborhood, in a distant city. Getting old is changing addresses. And you have to know how to see yourself in the new home.

Old age is a single-story house, without a room, without a roof. Old age is a room where I retire. Retired. Tired. In the window of the room of old age, the wind does not blow, longing beats. And I become a Batman trapped by dark, eyeless wings.

I lie down on the couch of old age. And I sleep the sleep of a strange calm that does not calm. The sleep on the couch in the room of old age is a rest from a day that has a time to end.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

13 comentários em “Velhice/Old Age

  1. Quanta verdade, quanta beleza nesse texto…

    Você sabe que minha mãe é idosa, assim como a sua e, tamanha a aproximação e a empatia que tenho por ela, pude quase chegar a sentir tudo que você descreve nesse texto.

    Lindo. Me emocionei. Obrigado, Dê!

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  2. Certeiro e pesado, né Dê ?!Meu “velho” ( este sem o real sentido da palavra) amigo! Que como outros poucos, sempre foram chamados de “velhos amigos”, mesmo quando jovens!E viva 65!!!Tâmu junto!!!

    Yahoo Mail – E-mail Simplificado

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  3. Exactly like I am feeling lately….Moradas diferentes onde cada vez mais não me encaixo!  Bora viver o que ha de viver .. Bora viver…:: Forte abraco! 

    Sent from Yahoo Mail for iPhone

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  4. Nunca consigo postar nada no wordpress, tentei redefinir senha… Mas queria que vc soubesse que gostei muito do seu texto. É por aí, diz tudo. As vezes a gente se assusta quando olha no espelho pois aquela imagem não bate com aquela pessoa que vc sente que é: alguém de uns 50 anos. Nem lá nem cá. (estou com 70).  Ainda tenho vontade de aprender coisas, na verdade, ler sobre história que nunca estudei na escola. Mas o corpo se cansa tão rápido. Outro dia saí com a Edna, a Graça e a Angélica.  Engraçado. A gente sabe que essas pessoas sabem do que estamos falando. Faz bem. Temos uma história em comum,não só profissionalmente como de vida. Vimos os mesmos filmes, lemos os mesmos livros. Um beijo grande prá vc. Acompanhando suas realizações de longe, mas perto.

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  5. Meu querido amigo! Me encantou , como sempre! Más também é um estado de espirito e, você é este ser jovem, atual, energético,que todos nós amigos e Alunos gostamos de ter sempre por perto! Abraço!!! Dé

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