Peça “Ficções” é uma experiência que merece ser friccionada./The play “Fictions” is an experience that deserves to be rubbed

O palco do teatro é o espaço para que a ficção se torne realidade. Está em cartaz há um ano – viajando por palcos do Brasil e de Portugal – uma peça que é, a um só tempo, ficção e realidade. Ali, os antônimos se tornam sinônimos. O título da peça não poderia ser mais real: “Ficções”, um monólogo encenado pela atriz Vera Holtz e pelo músico Federico Puppi.

De forma bem simples, pode-se dizer que “Ficções” é uma tentativa de explicar à plateia a origem da vida, desde o Big Bang, passando pelo surgimento dos minerais, dos animais irracionais até chegar ao Homo Sapiens, que costuma ser a espécie dominante na plateia do teatro. Neste caminho, Vera Holtz conduz uma série de transformações, nas quais a ficção e a realidade se comunicam e se misturam. Uma banana é um telefone, mas ela é também uma fruta, comida ao vivo no palco. Vera Holtz é um primata, é um asno com aparência de professor, é o imperador da Babilônia, é uma mulher violentada e escravizada. É a atriz Vera Holtz. E é um ramo de trigo. Vera Holtz domestica o público do teatro, que busca a ficção, mas recebe de volta a realidade. O trigo domesticou os nômades no início da civilização humana, mantendo-os em casa e oferecendo-lhes a possibilidade de uma vida segura e farta com a atividade agrícola. Mas, ao mesmo tempo, a domesticação agrícola do ser humano trouxe uma consequência menos nobre: doenças, a busca por propriedades, violência, invasões, destruição. O lado de lá da ficção é a realidade.

Com um domínio de palco completo, cantando, dançando, tocando instrumentos e transformando objetos em vida, Vera Holtz, sob a direção criativa de Rodrigo Portella, faz o público rir com o desconforto de que as ficções provocam fricções na realidade. “Ficções” é uma experiência que merece ser esfregada. Assim, quem sabe, criamos o fogo.

English – The theater stage is the space for fiction to become reality. A play that is both fiction and reality has been on stage for a year now, traveling to stages in Brazil and Portugal. In it, antonyms become synonyms. The title of the play could not be more real: “Fictions”, a monologue performed by actress Vera Holtz and musician Federico Puppi.

In simple terms, one can say that “Fictions” is an attempt to explain to the audience the origin of life, from the Big Bang, through the emergence of minerals, irrational animals, and finally Homo Sapiens, which is usually the dominant species in theater audiences. Along the way, Vera Holtz leads a series of transformations in which fiction and reality communicate and mix. A banana is a telephone, but it is also a fruit, eaten live on stage. Vera Holtz is a primate, a donkey that looks like a professor, the emperor of Babylon, a woman who was raped and enslaved. She is the actress Vera Holtz. And she is a branch of wheat. Vera Holtz domesticates the theater audience, who seek fiction but receive reality in return. Wheat domesticated the nomads at the beginning of human civilization, keeping them at home and offering them the possibility of a safe and plentiful life through agricultural activity. However, at the same time, the agricultural domestication of human beings brought a less noble consequence: diseases, the search for property, violence, invasions, destruction. The other side of fiction is reality. With complete control of the stage, singing, dancing, playing instruments and transforming objects into life, Vera Holtz, under the creative direction of Rodrigo Portella, makes the audience laugh at the discomfort that fictions cause friction in reality. “Fictions” is an experience that deserves to be rubbed. That way, who knows, we might create fire.

Publicado por Anderson Borges Costa

Anderson Borges Costa, brasileiro, é autor dos romances “Rua Direita” (Chiado, 2013), “Avenida Paulista, 22″ (Giostri, 2019) e do livro de contos “O Livro que não Escrevi” (Giostri, 2016 – do qual, um dos contos foi traduzido para o inglês no Canadá), além das peças teatrais “Quarto Feito de Cinzas” (traduzida para o italiano para ser apresentada na Itália), “Elevador para o Paraíso” e “Três por Quarto”. Premiado no Prêmio Guarulhos de Literatura (categorias Livro do Ano e Escritor do Ano) e no Concurso Literário do Instituto Federal São Paulo. É coordenador do Departamento de Português da escola internacional Saint Nicholas, em São Paulo, onde também atua como professor de Português e de Literatura Brasileira. É professor de Inglês no curso Cel Lep. Formado e pós-graduado pela Universidade de São Paulo em Letras (Português, Inglês e Alemão), é crítico literário e resenhista de livros para várias revistas de arte e literatura, como a “Germina”, onde assina a coluna “Adrenalina nas Entrelinhas”. É paulistano e nasceu em 29 de janeiro de 1965. Participou do último filme da diretora Anna Muylaert, “Mãe só há uma”, fazendo uma figuração como o professor de literatura do protagonista.

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