“A Lua é uma Bola e se Faz Presente em São Paulo”

Os comportamentos de Corinthians, Palmeiras e São Paulo no mercado da bola  | 90min

Luan é um Trio de Ferro com fases distintas:

Luan alviverde:  na meia-lua da defesa, atrai pólos opostos e faz o movimento de translação da defesa para o meio do campo magnético. Fase minguante.

Luan tricolor: na lua grande, no centro de gravidade, sustenta marés altas e baixas no oceano de secas. Fase crescente. 

Luan alvinegro: na meia-lua de ataque, responsável pelo eclipse solar, flutua entre a lua de mel e a lua de fel. Fase nova.

A Lua é uma bola de ferro com um lado visível e um lado oculto. Sem Luan, a bola não gira a maior cidade do Brasil.

“Minari” é uma sequência de clichês que não empolgam/”Minari” is a sequence of tedious clichés

Minari - Em Busca da Felicidade - Filme 2020 - AdoroCinema

“Minari” é um filme com muitas indicações ao Oscar este ano: Melhor Filme, Diretor,  Ator, Atriz Coadjuvante, Roteiro Original e Trilha Sonora Original. “Minari” é a história de uma família de imigrantes sul-coreanos tentando ganhar a vida nos EUA, no Arkansas nos anos 1980, vivendo em casas com poucos recursos e com pais que tentam mostrar aos filhos que, embora imigrantes, são capazes de obter sucesso na terra onde há oportunidade para todos. Vi o filme e não vi nada demais; um roteiro clichê, uma história pouco original e atuações pouco empolgantes, com exceção do simpático garotinho Alan S. Kim Breaks, que rouba várias cenas, mas que não recebeu nenhuma indicação no Oscar. Se é para ver filmes indicados ao Oscar, há outros muito melhores. 

English – “Minari” is a film with many Oscar nominations this year: Best Film, Director, Actor, Supporting Actress, Original Screenplay and Original Soundtrack. “Minari” is the story of a family of South Korean immigrants trying to make a living in the USA, in Arkansas in the 1980s, living in low-income homes and with parents trying to show their children that, in spite of being immigrants, they are able to obtain success in the land where there is opportunity for everyone. I saw the movie and nothing positive in it stood out: a cliché script, an unoriginal story and uninspiring performances, with the exception of the cute little boy Alan S. Kim Breaks, who steals several scenes, but who received no Oscar nomination. If you are willing to watch Oscar nominated films, there are much better ones.

Stephen Hawking traduz o universo com as dúvidas de Hamlet/Stephen Hawking translates the universe through Hamlet ‘s questions

Livro - O universo numa casca de noz no Submarino.com

Hamlet, o príncipe dinamarquês na peça de Shakespeare, diz no Ato 2: “Eu poderia ficar encerrado numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”. O físico inglês Stephen Hawking parte desta fala de Hamlet para tentar explicar para leigos, em seu livro “O Universo numa Casca de Noz”, os complexos sistemas de teorias  e leis que regem a natureza, palavra que, no grego, é … “física”. A ciência é construída com questionamentos, com dúvidas, com incertezas, características que pautam o personagem mais célebre de Shakespeare. Hamlet é um ser (ou um não ser?), cuja dúvida transforma seus leitores em candidatos a rei. Stephen Hawking, com um bom humor contagiante, trata com ironia o real tamanho do ser humano dentro do universo. Entendendo as bases da física, nos sentimos mais como o bobo da grande corte, que é o universo.

A vida que nos cerca é construída com uma lógica que vem sendo desvendada aos poucos pela inteligência humana. É como quem descasca uma banana que Stephen Hawking nos apresenta, com incrível clareza, conceitos como buracos negros, viagens no tempo, supernovas ou a teoria da relatividade. Através de comparações, ele traz a física para o dia a dia de qualquer mortal. Mas, assim como o príncipe da Dinamarca na peça de Shakespeare, ao terminar a leitura, nós saímos com mais dúvidas do que certezas. Ser ou não ser, em suma, é o universo.

English – Hamlet, the Danish prince in Shakespeare’s play, says in Act 2: “I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space”. The English physicist Stephen Hawking quotes this line by Hamlet in order to explain to laypeople, in his book “The Universe in a Nutshell”, the complex systems of theories and laws that govern nature, a word that, in Greek, is… “physics”. Science is built with questions, with doubts, with uncertainties, characteristics that guide Shakespeare’s most celebrated character. Hamlet is a being (or not a being?), whose doubt turns his readers into candidates for king. Stephen Hawking, with a contagious sense of humor, ironically treats the real size of the human being within the universe. Understanding the basics of physics, we feel more like the court jester, which is the universe.

The life that surrounds us is built with a logic that has been gradually unveiled by human intelligence. As if he was peeling a banana, Stephen Hawking introduces to us, with incredible clarity, concepts like black holes, time travel, supernovae or the theory of relativity. Through comparisons, he brings physics to the daily life of any mortal. But, like the Prince of Denmark in Shakespeare’s play, when we finish reading the book, we have more doubts than certainties. To be or not to be, in short, is the universe.

Filme “Relatos Selvagens” revela a vingança que escondemos dentro do cotidiano nosso de cada dia/Movie “Wild Tales” reveals the revenge that we hide inside our daily routine

Relatos Selvagens - Filme 2014 - AdoroCinema

Nós, humanos, vivemos no difícil equilíbrio entre a sanidade da civilização e a barbárie da insanidade. Basta apenas um empurrãozinho para que saiamos da serenidade e caiamos no total descontrole, capaz de acender um adormecido desejo de vingança.  Tal desejo pode estar dentro das mais cotidianas ações. É sobre o desejo de vingança que escondemos embaixo de nossa sombra que trata o simpático filme argentino “Relatos Selvagens”.

O cinema argentino é mais psicológico e mais sutil do que boa parte dos filmes brasileiros e italianos, por exemplo. E “Relatos Selvagens” se concentra no momento de total descontrole emocional a que estamos sujeitos no cotidiano estressante a que nos dedicamos. O filme é uma interessante sequência de seis pequenas histórias que têm a vingança como tema em comum. Vingança que leva ao descontrole emocional latente  engatilhado por um desentendimento no trânsito, pela descoberta de traição amorosa, por um acidente de carro por ou uma reprovação na escola: tudo é motivo para a busca da vingança. Com um elenco que desempenha com “tranquilidade” o desejo de vingança (mais uma vez encabeçado pelo onipresente Ricardo Darín), “Relatos Selvagens” conseguiu a proeza de ficar mais de um ano em cartaz nos cinemas em São Paulo. Mas a vingança que ele guarda em cada espectador tem a duração de uma vida inteira.

English – We humans live in the difficult balance between the sanity of civilization and the barbarism of insanity. It only takes a little push to get out of serenity and fall into total uncontrollability, capable of igniting a dormant desire for revenge. Such a desire may be part of most of our everyday actions. The Argentine movie “Wild Tales” deals with the desire for revenge that we hide under our shadow.

Argentine cinema is more psychological and more subtle than most Brazilian and Italian films, for example. And “Wild Tales” focuses on the moment of total emotional lack of control to which we are subjected in the stressful daily life to which we dedicate ourselves. The film is an interesting sequence of six short stories that have revenge as a common theme. Revenge that leads to latent emotional uncontrol triggered by a misunderstanding in traffic, by the discovery of amorous betrayal, by a car accident or a failure at school: everything is a reason to seek revenge. With a cast that plays the desire for revenge with “tranquility” (once again headed by the ubiquitous Ricardo Darín), “Wild Tales” achieved the feat of showing more than a year in theaters in São Paulo. But the revenge that lives inside each spectator lasts for a lifetime.

“O Médico e o Monstro” é a revelação de um incômodo/”Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is the revelation of a nuisance” – 14 de abril de 2021

O Médico e o Monstro | Martin Claret Editora

Quem assistiu ao filme “A Escolha de Sofia”, com Meryl Sreep, sabe o arrepio que causa o momento no qual Sofia, presa com os filhos em um campo de concentração nazista, precisa escolher um dos filhos para morrer. Este é o tipo de escolha que nenhum pai ou mãe sonha em fazer. Acabo de ler a novela clássica de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”, que coloca o leitor frente a frente com um homem que precisa escolher uma das duas personalidades que lutam dentro de si: o rico e adorado doutor Henry Jekyll ou o sanguinário Edward Hyde. Uma escolha não menos arrepiante do que a de Sofia, já que os dois são o mesmo homem.

Ao desenvolver uma droga que permite que venha à tona uma personalidade inconsciente que habita o seu ser, o médico Henry Jekyll permite que ele entre em contato com seu “segundo eu”, o cruel e feroz Edward Hyde. Jekyll e Hyde, embora opostos na superfície, são expressões de um mesmo ser, complexo, ambivalente e conflituoso, como todos nós.

O espelho nos mostra apenas uma face de nossa essência. Há outros eus escondidos em nossa personalidade, e frequentemente evitamos que eus inconscientes frequentem a superfície de nosso caráter e se expressem de forma consciente. O nome Hyde tem a mesma sonoridade que o verbo “hide” (“esconder”), em inglês. Portanto, “O Médico e o Monstro” é um livro sobre o eu que escondemos dentro de nós.

Robert Louis Stevenson se inspirou em um caso real de um sociopata que viveu e aterrorizou a Inglaterra décadas antes de ele nascer. Edward Hyde é um psicopata que desequilibra a cartesiana Inglaterra vitoriana de Stevenson. “O Médico e o Monstro” é uma novela gótica, de terror, estranha, absurda.  Hyde é a máscara sobre a qual habita Jekyll.

“O Médico e o Monstro” é uma tragédia inglesa, brasileira, grega. E as tragédias gregas eram compostas dos seguintes elementos: máscaras, mitos e mortes. E é justamente aí que reside a incrível atualidade de “O Médico e o Monstro” no Brasil governado pelo coronavírus: em nome da vida, andamos com máscaras. Colado ao nosso corpo, há sempre um Edward Hyde nos ameaçando a vida. E, assim como os mitos nas tragédias gregas decidiam o destino dos personagens, nosso destino hoje está nas mãos de um “mito” em Brasília. Cabe a nós libertar a nossa essência e, em 2022, desmentir o mito que nos rege e recolocar o Brasil nas mãos de outro conceito grego: a democracia. Se “Sofia”, em grego, significa “sabedoria”, que saibamos fazer a nossa escolha com Sofia.

English – Anyone who watched the movie “Sophie’s Choice”, with Meryl Sreep, knows the shiver that causes the moment when Sophie, trapped with her children in a Nazi concentration camp, needs to choose one of the children to die. This is the kind of choice that no parent dreams of making. I have just read Robert Louis Stevenson’s classic novella, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde“, which puts the reader face to face with a man who must choose one of the two personalities who struggle within him: the rich and adored doctor Henry Jekyll or the bloodthirsty Edward Hyde. A choice no less chilling than Sophie´s, since the two are the same man.

In developing a drug that allows an unconscious personality to inhabit his being to emerge, doctor Henry Jekyll allows him to get in touch with his “second self”, the cruel and ferocious Edward Hyde. Jekyll and Hyde, although opposed on the surface, are expressions of the same being, complex, ambivalent and conflicting, like all of us.

The mirror shows us only one face of our essence. There are other selves hidden in our personality, and we often prevent unconscious selves from frequenting the surface of our character and expressing themselves consciously. The name Hyde has the same sound as the verb “hide”. Therefore, “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a book about the self that we hide within us.

Robert Louis Stevenson was inspired by a real case of a sociopath who lived and terrified England decades before he was born. Edward Hyde is a psychopath who unbalances Stevenson’s Cartesian Victorian England. “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is a strange, absurd, gothic, horror novella. Hyde is the mask under which Jekyll lives.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” is an English, Brazilian, Greek tragedy. And Greek tragedies were composed of the following elements: masks, myths and deaths. And this is exactly where the incredible link between “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” and Brazil, today governed by the coronavirus: in the name of life, we walk in masks. Glued to our body, there is always an Edward Hyde threatening our lives. And, just as the myths in the Greek tragedies chose the fate of the characters, our fate today is in the hands of a “myth” in Brasília. It is up to us to liberate our essence and, in 2022, to deny the myth that governs us and to put Brazil in the hands of another Greek concept: democracy. If “Sophie”, in Greek, means “wisdom”, I hope we will be wise and make our choice with Sophie.

Um romance que mascara angústias com roupas de falsa felicidade/A novel that masks anguish with clothes of false happiness

Sobre sapatos, sandálias e suas (devidas) caixas

A literatura é uma roda que não para de girar. Escritores clássicos e consagrados se misturam a produções contemporâneas, alimentando um moinho de palavras e tecendo enredos em livros que não param de sair do forno. Um deles é o romance “Sobre Sapatos, Sandálias e suas (devidas) Caixas”, da escritora Sada Ali, nascida em Barretos, interior de São Paulo. O livro foi lançado em fevereiro de 2021 e traz um enredo que chacoalha o asfalto da cidade de São Paulo.

Uma maneira de enxergar o enredo é observar, em detalhes, o monótono cotidiano da família Monroe, da elite paulistana – um aristocrata inglês, dono de uma empresa na área de calçados de luxo, sua esposa ninfomaníaca e duas filhas, com mordomos, motoristas, carros blindados e um permanente medo de ser roubado. Esta narrativa é complementada pelos personagens que orbitam a família: amantes, funcionários e moradores de espaços menos nobres da cidade. O dinheiro e o poder dos Monroes é o motor de disputas financeiras e sentimentais, com direito a um sequestro cinematográfico, mas é incapaz de saciar as angústias que unem 100% dos personagens. O terço final do romance lembra um pouco a série espanhola “La Casa de Papel”. Sada, que é psicóloga, mergulha nas descrições psicológicas de cada um, talvez com palavras carregadas de didatismo, mas sem deixar que eles se tornem menos interessantes.

Os conflitos psicológicos de um elenco de milionários e miseráveis, que convive através de uma parede invisível que os separa, são recheados pelos vestidos, ternos, camisetas e, claro, sapatos, que vestem para mascarar uma falsa felicidade. Na nova fornada de livros saindo do forno, esta é uma leitura que prende da primeira à última página.

English – Literature is a spinning wheel of classical and renowned writers mixed with contemporary productions, feeding a windmill of words and weaving plots in books that keep coming out of the oven. One of them is the novel  “Sobre Sapatos, Sandálias e suas (devidas) Caixas” (“On Shoes, Sandals and their (due) boxes”), by writer Sada Ali, born in Barretos, Brazil. The book was released in February 2021 and has a plot that shakes the asphalt of the city of São Paulo.

One way of looking at the plot is to observe, in detail, the monotonous daily life of the Monroe family, of the São Paulo elite – an English aristocrat, owner of a company in the area of ​​luxury shoes, his nymphomaniac wife and two daughters, with butlers, drivers, armored cars and a permanent fear of being robbed. This narrative is complemented by the characters that orbit the family: lovers, employees and residents of less noble spaces in the city. The money and power of the Monroes is the engine of financial and sentimental disputes, with the right to a cinematic hijacking, but it is unable to satisfy the anxieties that unite 100% of the characters. The final third of the novel is somewhat reminiscent of the Spanish series “Money Heist”. Sada, who is a psychologist, delves into the psychological descriptions of each one, perhaps with words full of didacticism, but without making them become less interesting.

The psychological conflicts of a cast of millionaires and the miserable, who live through an invisible wall that separates them, are filled with dresses, suits, T-shirts and, of course, shoes, which they wear in order to mask a false happiness. In the new batch of books coming out of the oven, this is a reading that you cannot put down from the first to the last page.

“Unorthodox” (“Nada Ortodoxa”) é uma minissérie perfeita para ser assistida na Páscoa/“Unorthodox” is a perfect miniseries to be watched at the Passover

Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots: Feldman, Deborah:  9781982148201: Amazon.com: Books

Hoje, durante a Páscoa cristã, muitos de nós celebramos o renascimento após a morte. O ovo de Páscoa traz o simbolismo da vida. Mas, neste momento, também é celebrada a Páscoa judaica, que comemora a liberdade do povo judeu após um longo período de escravidão no Egito. Com a ideia de liberdade em mente, assisti, em uma sentada aos 4 episódios da interessante minissérie na Netflix “Nada Ortodoxa” (“Unorthodox”, no original). O tema aqui, assim como na Páscoa judaica, é a liberdade, mas a liberdade de uma jovem nascida em uma ultraortodoxa comunidade judaica, com casamento arranjado e repressão à feminilidade.

Etimologicamente, o adjetivo “ortodoxo”, do grego, é a junção das palavras “ortho” (verdadeiro, correto) e “doxa” (opinião). Ou seja, ortodoxo está relacionado ao rigor, a quem segue estritamente as normas estabelecidas. Em “Nada Ortodoxa”, a ainda adolescente Esty foge de um casamento arranjado, de uma tradição que a reprime, do cabelo raspado, do uso de peruca, da passividade feminina em uma comunidade no Brooklyn, Nova Iorque, para a liberdade e o cosmopolitismo de Berlim, onde pretende ter aulas de música em um conservatório e arriscar-se em aventuras inimagináveis até então.

Esty é muito bem interpretada pela jovem atriz israelense Shira Haas, e a série é falada em alemão, inglês e, principalmente, em ídiche. Para quem não está acostumado com o ortodoxismo judaico, a mistura de línguas e a rigidez da cultura conservadora desta comunidade, assistir a “Nada Ortodoxa” é uma boa reflexão durante a Páscoa judaica, que é uma celebração à liberdade que Esty procura. Com apenas 4 episódios, esta é uma minissérie certeira. Combina também com um meio amargo ovo de chocolate.

English – Today, during Christian Easter, many of us celebrate rebirth after death. The Easter egg brings the symbolism of life. But at this time, Passover is also celebrated, and it commemorates the freedom of the Jewish people after a long period of slavery in Egypt. With the idea of ​​freedom in mind, I binge watched on Netflix the 4 episodes of the interesting miniseries “Unorthodox”. The theme here, as with Passover, is freedom, but the freedom of a young woman born in an ultra-orthodox Jewish community, with arranged marriage and repression of femininity.

Etymologically, the adjective “orthodox”, from the Greek, is the combination of the words “ortho” (true, correct) and “doxa” (opinion). In other words, orthodox is related to rigor, to who strictly follows the established norms. In “Unorthodox”, the still teenager Esty flees from an arranged marriage, from a tradition that represses her, from shaved hair, from wearing a wig, from female passivity in a community in Brooklyn, New York, to freedom and cosmopolitanism in Berlin, where she intends to take music lessons in a conservatory and take chances on until then unimaginable adventures.

Esty is very well performed by young Israeli actress Shira Haas, and the series is spoken in German, English and, mainly, in Yiddish. For those who are not used to Jewish orthodoxism, the mixture of languages ​​and the rigidity of the conservative culture of this community, watching “Unorthodox” is a good reflection during Passover, which is a celebration of the freedom that Esty seeks. With only 4 episodes, this is a very good miniseries. And it also matches a bittersweet chocolate egg.

Jacqueline Woodson escreve uma novela curta, mas cuja leitura insiste em ficar dentro do leitor/Jacqueline Woodson writes a short novel; however, it insists on remaining inside the reader

Um outro Brooklyn | Amazon.com.br

“Por muito tempo, minha mãe ainda não estava morta”. Este é o intrigante início do livro “Um Outro Brooklyn”, da escritora americana Jacqueline Woodson. Em 111 páginas, Woodson leva o leitor a Nova Iorque, no Brooklyn, onde, nos anos 70, a personagem Augusta cresceu. O livro é sobre memórias, sobre ser mulher e negra, sobre dor, sobre perda. E sobre a morte. Jacqueline Woodson escreve em prosa poética e conduz o leitor a um passado que toca bem de perto no presente que o Brasil vive.

Augusta não aceita a morte. É antropóloga e centra sua pesquisa em rituais funerários de várias culturas. O motivo para a volta ao Brooklyn que deixou na juventude é o enterro do pai. A morte do pai traz a Augusta as memórias de uma juventude que ficou distante, embora mal resolvida, para ela. Uma singela novela que pode ser lida rapidamente. Mas que tem fôlego para ficar dentro do leitor por muito tempo. Por muito tempo, este livro ainda não estará morto.

English – “For a long time, my mother wasn’t dead yet.” This is the intriguing beginning of the novel “Another Brooklyn”, by American writer Jacqueline Woodson. In 111 pages, Woodson takes the reader to Brooklyn, New York, where, in the 70s, protagonist Augusta grew up. The book is about memories, about being a woman and black, about pain, about loss. And about death. Jacqueline Woodson writes in poetic prose and leads the reader to a past that is  closely connected to the present times in Brazil.

Augusta does not accept death. She is an anthropologist and focuses her research on funerary rituals from different cultures. The reason for the return to the Brooklyn that she left in her youth is her father’s funeral. The death of her dad brings to Augusta the memories of a youth that was distant, although poorly resolved. A simple novel that can be read quickly. But one which has the strength to stay inside the reader for a long time. For a long time, this novel won´t be dead yet.

“Terra em Transe” não é um filme; é uma ideia/”Earth Entranced” is not a movie; it is an idea

Terra em Transe - 2 de Maio de 1967 | Filmow

Finalmente respirei fundo e assisti até o fim a um filme do Glauber Rocha. “Terra em Transe” não é um filme fácil. É denso, uma narrativa lenta para quem está acostumado com o cinema do século 21. Mas Martin Scorsese adorou. É em preto e branco. E se passa em um país fictício, Eldorado, mas que, logo nas primeiras cenas, percebe-se que é uma metáfora para o Brasil. Assistir a “Terra em Transe” não é assistir a um filme; é assistir a uma ideia. A democracia na narrativa de Glauber Rocha é uma ironia.

A palavra “democracia”, do grego, significa, governo do povo. O povo, em “Terra em Transe”, é feito de figurantes que não têm voz. Na única cena em que é dada ao povo a oportunidade de falar, o protagonista branco e macho (Jardel Filho, em uma interpretação excelente) tapa a boca do pobre sujeito que seria o porta-voz dos desprovidos. “Terra em Transe” é um filme do Terceiro Mundo. Além do sofrimento, cabe ao povo também o silêncio. As mulheres são apenas figurantes. Reduzidas ao erotismo, as personagens femininas também são silenciadas. 

Produzido em 1967, durante a ditadura militar no Brasil, “Terra em Transe” define Eldorado como uma república de bananas, corrupta, machista, violenta e inescrupulosa. Glauber Rocha atirou para todos os lados: direita, centro e esquerda. Gosto de artistas que provocam. Glauber Rocha é um provocador.

English – Finally I took a deep breath and watched a Glauber Rocha movie until the end. “Earth Entranced” is not an easy film. It is dense, a slow narrative for those who are used to 21st century cinema. But Martin Scorsese loved it. It is in black and white. And it takes place in a fictitious country, Eldorado, but that, in its first scenes, one realizes that it is a metaphor for Brazil. Watching “Earth Entranced” is not watching a movie; is to watch an idea. Democracy in Glauber Rocha’s narrative is ironic.

The word “democracy”, from the Greek, means government of the people. The people, in “Earth Entranced”, are made up of extras who have no voice. In the only scene in which the people are given the opportunity to speak, the white and male protagonist (Jardel Filho, in an excellent interpretation) covers the mouth of the poor fellow who would be the spokesman for the destitute. “Earth Entranced” is a Third World film. In addition to suffering, it is also up to the people to remain silent. Women are just extras. Reduced to eroticism, female characters are also silenced.

Produced in 1967, during the military dictatorship in Brazil, “Earth Entranced” defines Eldorado as a banana republic, corrupt, sexist, violent and unscrupulous. Glauber Rocha shot fire at all political sides: right, center and left. I like artists who provoke. Glauber Rocha is a provocateur.

O filme “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” é o Brasil que se nega a aceitar a cor de sua pele/Movie “M8” is Brazil and the denial of its blackness

M8': Jeferson De e Mariana Nunes de bisturis afiados

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Deveria doer ler esta estatística. Mas ela é disfarçada de silêncio. Esta dor está na Netflix, no recém-lançado filme de Jeferson De “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”. É sobre morte de negros que o Brasil silencia; é sobre o racismo contra negros; é sobre o silêncio de um país que maltrata sua maioria negra; é sobre o aumento de alunos negros em universidades graças à política de cotas. É um pedido de socorro.

O ator Juan Paiva constrói uma interpretação segura para o protagonista que mora em uma favela no Rio de Janeiro e entra em contato com a elite branca que estuda medicina na Universidade Federal do RJ. Um elenco estrelado por Zezé Motta, Lázaro Ramos, Mariana Nunes e Ailton Graça aborda o cadáver M8, cujo corpo é objeto de estudos de anatomia na faculdade. Um corpo que carrega uma história de vida, de desaparecimento e muito sofrimento para sua família. M8 é a cara do Brasil anônimo que vive dentro de cada um de nós. Assistir a este filme impactante é soltar um grito de socorro. Espero que o grito ecoe para além da tela da Netflix.

English – Every 23 minutes, a young black person is murdered in Brazil. It should hurt to read this statistic. But it is disguised as silence. This pain is on Netflix, in Jeferson De’s recently released film “M8”. It is about the death of blacks which is silenced in Brazil; it is about racism against blacks; it is about the silence of a country that mistreats its black majority; it is about the increase of black students in universities thanks to affirmative action. It’s a cry for help.

Actor Juan Paiva builds a safe interpretation for the protagonist who lives in a slum in Rio de Janeiro and gets in touch with the white elite who study medicine at the Federal University of RJ. A cast starring Zezé Motta, Lázaro Ramos, Mariana Nunes and Ailton Graça addresses the M8 corpse, whose body is the subject of anatomy studies in college. A body that carries a story of life, disappearance and much suffering for his family. M8 is the face of an anonymous Brazil that lives within each one of us. To watch this impactful film is to cry out for help. I hope the scream echoes beyond the Netflix screen.

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