“Breaking Bad” e “Ozark” unem na hipocrisia os Estados Unidos ao Brasil/“Breaking Bad” and “Ozark” unite Brazil and the USA in hypocrisy

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“Breaking Bad” e “Ozark” são duas séries da Netflix que prendem a atenção do espectador desde o primeiro momento. São muitas as semelhanças entre elas: os protagonistas são pessoas comuns; em “Breaking Bad”, o professor de química Walter White. Em “Ozark”, o planejador de finanças Marty Byrde. Ambos casados, com filhos. Amam a família e a ela se dedicam para lhe oferecer uma vida decente. Até que, pensando no bem-estar da família, acabam imersos no mundo do crime. São dois roteiros muito bem escritos, com atores que desempenham seus papéis com segurança. Mas White e Byrde são alegorias para a hipocrisia que vem pautando as administrações dos Estados Unidos (do Brasil).

Walter White, em “Breaking Bad”, ao ser diagnosticado com câncer no pulmão, com enormes dívidas, um filho com paralisia cerebral e a mulher grávida, decide produzir metanfetamina com um ex-aluno. Marty Byrde, em “Ozark”, contrai uma dívida com um traficante mexicano ao não conseguir êxito em um esquema de lavagem de dinheiro. Para pagar a dívida com um esquema milionário de lavagem, leva sua família de Chicago para os Montes Ozark. 

Ao deslocar a ação, nas duas séries, para o interior dos EUA – “Breaking Bad” se passa no Novo México; “Ozark” se passa no Missouri -, as duas séries carregam os espectadores para dentro de um país que se mostra ao mundo como magnânimo por suas grandes cidades externas, na costa do Atlântico e na costa do Pacífico. Assistir às tramas e às reviravoltas constantes nelas nos ajuda a entender o interior de um país que sustenta a ética através da hipocrisia. E, nas entranhas destas séries, escondem-se princípios que justificam a eleição de um presidente como Donald Trump. Que estes estados americanos sirvam de metáfora para o país enxergar suas sujas entranhas. E que o Brasil consiga entender que o estado em que se encontra hoje também é resultado de uma falsa ética que atropela o Estado. Que a vacina mande para longe o câncer que tem nos tirado o fôlego. Walter White e Marty Byrde conectam estados enfermos nos Estados Unidos  e no Brasil.

English – “Breaking Bad” and “Ozark” are two Netflix series that catch the viewer’s attention from the first moment. There are many similarities between them: the protagonists are ordinary people; in “Breaking Bad”, the chemistry teacher Walter White. In “Ozark”, the finance planner Marty Byrde. Both married, with children. They love their family and dedicate themselves to offering them a decent life. Thinking about the family’s well-being, they end up immersed in the world of crime. They are two very well written scripts, with actors who play their roles safely. But White and Byrde are allegories for the hypocrisy that has been guiding the administrations of the United States (of Brazil).

Walter White, in “Breaking Bad”, when diagnosed with lung cancer, with huge debts, a son with cerebral palsy and a pregnant woman, decides to produce meth with a former student. Marty Byrde, in “Ozark”, contracts a debt to a Mexican drug dealer for failing a money laundering scheme. To pay the debt off with a millionaire money laundering scheme, he takes his family from Chicago to the Ozark Mountains.

When moving the action, in both series, to the interior of the USA – “Breaking Bad” takes place in New Mexico; “Ozark” takes place in Missouri -, the two series take viewers into a country that shows itself to the world as magnanimous for its large cities on the Atlantic coast and the Pacific coast. Watching the plots and the constant twists in them helps us to understand the interior of a country that sustains ethics through hypocrisy. And in the core of these series are hidden principles that justify the election of a president like Donald Trump. May these American states serve as a metaphor for the country to see its dirty insides. And may Brazil understand that the state it is in today is also the result of a false ethics that runs over the State. May the vaccine send away the cancer that has taken our breath away. Walter White and Marty Byrde connect sick states in the United States and Brazil.

O poema épico “Eneida”, do romano Virgílio, daria uma boa série na Netflix/Epic poem “The Aeneid”, by Roman poet Virgil, would make a good series on Netflix

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Acabo de ler “Eneida”, um grande poema épico, publicado no ano 19 antes de Cristo. Escrito pelo poeta romano Virgílio, “Eneida” é uma continuação da “Ilíada”, de Homero, e é um fio que aponta para o futuro, pois, a partir de Virgílio, foram escritos, séculos depois, “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, e “Os Lusíadas”, de Camões. “Eneida” foi escrito por Virgílio a pedido do imperador Augusto, que queria um poema que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Neste sentido, “Eneida” está para o imperador Augusto, assim como “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, está para Getúlio Vargas. 

O poema é a história do herói Eneias, um troiano sobrevivente da Guerra de Troia. Ele narra como conseguiu fugir da guerra com o pai e com o filho, com a ajuda de sua mãe, Vênus. A “Eneida” é uma narrativa que envolve amor, traição, muita (mas muita mesmo) luta e que nos traz a história da fundação de Roma. Tivesse vivido uns anos mais, Virgílio poderia ter conhecido um jovem judeu, filho de um carpinteiro, que pregou a paz e acabou crucificado aos 33 anos. A “Eneida” é grande poesia, é mitologia grega e mitologia romana temperadas com história e uma pitada de ufanismo. Mas a leitura é deliciosa, especialmente se for acompanhada de Homero, Camões e Dante. Os poetas conversam em versos, mesmo que separados por séculos. Se o Brasil tem uma forte presença da colônia italiana que imigrou para a América do Sul, talvez Eneias esteja caminhando por nossas esquinas de dura poesia concreta. A obra-prima de Virgílio daria uma boa série na Netflix. 

English- I just read “The Aeneid”, a great epic poem, published in the year 19 BC. Written by the Roman poet Virgil, “The Aeneid” is a continuation of Homer’s “Iliad”, and it is a thread that points to the future, since, inspired by Virgil, centuries later, Dante Alighieri’s “Divine Comedy” and Camões´s “The Lusiads” were written. “The Aeneid” was written by Virgil at the request of Emperor Augustus, who wanted a poem that would sing the glory and power of the Roman Empire. In this sense, “The Aeneid” is for Emperor Augustus the equivalent to “Aquarela do Brasil”, by Ary Barroso,  for President Getúlio Vargas.

The poem is the story of the hero Aeneas, a Trojan survivor of the Trojan War. He narrates how he managed to escape the war with his father and son, with the help of his mother, Venus. “The Aeneid” is a narrative that involves love, betrayal, a lot (I do mean a lot) of fighting and one which tells the history of the foundation of Rome. Had Virgílio lived a few more years, he could have met a young Jew, the son of a carpenter, who preached peace and ended up crucified at the age of 33. “The Aeneid” is great poetry, it is Greek mythology and Roman mythology seasoned with History and a hint of nationalism. But its reading is delicious, especially if accompanied by Homer, Camões and Dante. Poets talk in verse, even if separated by centuries. If Brazil has a strong presence of the Italian colony that emigrated to South America, perhaps Eneias is walking around our roman-like streets. Virgil’s masterpiece would make a good series on Netflix.

Um poema meu publicado na mais recente edição da Revista “Conexão Literatura”/My poem published in the latest edition of magazine “Conexão Literatura”

Revista Conexão Literatura - N° 56 Fevereiro/2020 - Livreando

Queridos leitores do blog, foi publicado na mais recente edição da revista “Conexão Literatura” o meu poema ‘A Palavra Engana”. Para ler o poema (publicado na página 8) e a edição completa, veja o link:

Clique para acessar o conexao_literatura68.pdf

English – Dear blog followers, my poem “A Palavra Engana” has been published in the latest edition of magazine “Conexão Literatura”. Check it out on page 8 on the link below:

Clique para acessar o conexao_literatura68.pdf

“Lupin” é uma série que nos diz que vidas negras são inteligentes/”Lupin” is a series which tells us that black lives are intelligent

Lupin (TV Series 2021– ) - IMDb

Quando pensamos em Robin Hood, nos vem à cabeça a imagem de alguém que rouba dos ricos para dar aos pobres. Pois Assane Diop, o protagonista da série “Lupin”, que estreou nos primeiros dias de 2021 na Netflix, traz semelhanças com Robin Hood. No entanto, Diop dá seus golpes nos ricaços de Paris com um único objetivo em mente: vingar a morte de seu pai, preso e acusado injustamente, por uma família de milionários, de um roubo que não cometeu. O curioso é que o herói em “Lupin” é vivido por um protagonista negro, o ator Omar Sy (do filme ‘Os Intocáveis”), o que traz um tempero a mais a esta interessante série francesa.

Inspirado na série de livros do personagem Arsène Lupin, do autor de romances policiais franceses Maurice Leblanc, a série da Netflix é centrada no “cavalheiro ladrão” Assane Diop, leitor voraz dos romances de Leblanc. Assane tem como maior arma sua inteligência, que o coloca sempre um passo à frente de quem o quer capturar. Ao assistirmos à série, nós torcemos para que suas estratégias funcionem – e não nos decepcionamos. No entanto, aí reside um ponto fraco em “Lupin”: de tão esperto, suas ações tornam-se previsíveis. Quem sabe na próxima temporada os roteiristas calibrem este detalhe no enredo. 

Gostei de ver um protagonista negro, que é, ao mesmo tempo, talentoso, bonito e inteligente. Um poderoso ingrediente em tempos de “Black Lives Matter”. Ponto para a Netflix. Esta é uma daquelas séries que sentimos dificuldade em parar de ver até que acabe o último episódio. Pena que a primeira temporada só tenha 5 episódios. Que chegue logo a continuação de “Lupin”. E que ator interessante este Omar Sy. Olho nele! 

Termino o texto com a ironia presente no nome do autor do romance que inspirou a série: “Leblanc”, em francês, significa “O branco”.

English – When we think of Robin Hood, the image of someone who steals from the rich to give to the poor comes to mind.  Assane Diop, the protagonist of the “Lupin” series, which debuted in the early days of 2021 on Netflix, bears similarities to Robin Hood. However, Diop cheats on the wealthy in Paris with a single goal in mind: to avenge the death of his father, imprisoned and unjustly accused, by a family of millionaires, of a theft he did not commit. The interesting thing is that the hero in “Lupin” is acted out by a black protagonist, actor Omar Sy (from the movie “The Intouchables”), which brings an extra spice to this intriguing French series.

Inspired by the novel series on the character Arsène Lupine, by the author of French crime novels Maurice Leblanc, the Netflix series is focused on the “gentleman thief” Assane Diop, a voracious reader of Leblanc’s novels. Assane’s greatest weapon is his intelligence, which always puts him one step ahead of anyone who wants to capture him. As we watch the series, we always hope his cunning strategies work – and we do not get disappointed. However, therein lies a weakness in “Lupin”: he is so clever, his actions become predictable. Perhaps, next season, screenwriters will calibrate this detail in the plot.

I liked to see a black protagonist, who is, at the same time, talented, handsome and intelligent. A powerful ingredient in times of “Black Lives Matter”. Well done, Netflix. This is one of those series that we find it difficult to stop watching until the last episode is over. Too bad the first season only has 5 episodes. May the second season of “Lupin” come soon. And what an interesting actor this Omar Sy. Watch him closely! 

I end this text remembering the irony inside the name of the author of the novel which inspired the series: “Leblanc”, in French, means “The white”.

O Filme “Rosa e Momo” nos lembra que Sophia Loren e Fernanda Montenegro unem a Itália ao Brasil/Movie “The Life Ahead” shows us that Sophia Loren and Fernanda Montenegro unite Italy to Brazil

ROSA E MOMO | Crítica do filme Netflix - YouTube

Estreou na Netflix há pouco mais de um mês o mais recente filme estrelado por Sophia Loren, “Rosa e Momo”. Eu diria que Sophia Loren está para a Itália assim como Fernanda Montenegro está para o Brasil. E o filme “Rosa e Momo”, com Sophia Loren, lembra o enredo de “Central do Brasil”, com Fernanda Montenegro: garoto órfão sem lar acaba sendo acolhido por mulher idosa, solteira e pobre. Garoto e mulher, após um início em que se estranham, começam a desenvolver afeto um pelo outro. Este é apenas o início das histórias, e as semelhanças terminam aí. São dois belos filmes, e “Rosa e Momo” mostra uma Itália muito parecida com o Brasil, e uma trilha sonora que inclui a música “Malandro”, na inconfundível voz de Elza Soares. O filme me emocionou.

A separação, a violenta quebra de relações humanas e políticas, a difícil luta pela sobrevivência e para ganhar dinheiro, legalmente ou não, são temperados com improváveis relações harmônicas entre negros e brancos, judeus e muçulmanos (na católica Itália), prostitutas, transgêneros e heterossexuais. Os conflitos modernos entre as pessoas fazem transparecer que, por trás de qualquer rótulo que criamos, habita um ser humano. “Rosa e Momo” é um filme sobre as relações humanas.

Para terminar, lembro aqui que o anúncio, na cerimônia do Oscar de 1999 de melhor filme estrangeiro (“Central do Brasil” foi indicado), na qual Fernanda Montenegro foi também indicada como melhor atriz, foi feito por… Sophia Loren. “Rosa e Momo”, Sophia e Fernanda; somos todos filhos de um realismo que emociona. Se não viu, veja “Rosa e Momo”.

English – The latest film starring Sophia Loren, “The Life Ahead”, debuted on Netflix a little over a month ago. I would say that Sophia Loren is for Italy just like Fernanda Montenegro is for Brazil. And the film “The Life Ahead”, with Sophia Loren, reminds us of the plot of “Central Station”, with Fernanda Montenegro: an orphan boy without a home ends up being welcomed by an elderly, single and poor woman. Boy and woman, after a start in which they behave like strangers, begin to develop affection for each other. This is just the beginning of the stories, and the similarities between both movies end there. Those are two beautiful films, and “The Life Ahead” shows an Italy which is very similar to Brazil, and a soundtrack that includes the song “Malandro”, by the unmistakable voice of Elza Soares. The movie has touched me.

Separation, violent breakdown of human and political relations, difficult struggle for survival and to earn money, legally or not, are tempered with unlikely harmonic relationships between blacks and whites, Jews and Muslims (in Catholic Italy), prostitutes, transgenders and heterosexuals. Modern conflicts between people make it clear that, behind any label we create, inhabits a human being. “The Life Ahead” is a film about human relations.

Finally, I would mention here that the announcement, at the 1999 Academy Awards ceremony for best international feature film (“Central Station” was nominated), in which Fernanda Montenegro was also nominated as best actress, was made by… Sophia Loren. “The Life Ahead”, Sophia and Fernanda; we are all children of a moving realism. If you didn’t see it, please watch “The Life Ahead”.

Ganhadora do Nobel, poeta polonesa Wislawa Szymborska escreve sua vida em ótima biografia/Nobel Prize Winner Polish Poet Wislawa Szymborska writes her life in a great biography

Wisława Szymborska: Kraków's Grand Dame of Poetry

O nome da polonesa Wislawa Szymborska pode ser estranho para você, mas trata-se de uma das principais poetas do mundo, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Acabo de ler a sua biografia, “Quinquilharias e Recordações”, e, em cada página de sua vida, me senti inspirado e estimulado a ler e a escrever. O livro cobre com suavidade e lirismo os 88 anos de sua vida. Admirada por gente como Woody Allen e Zygmunt Bauman, entre tantas outras pessoas influentes, a biografia traz o mérito de rechear passagens da vida de  Szymborska com versos que inspiraram a polonesa a escrever as reflexões, as angústias e os amores que viveu.

Só para deixar uma palhinha a vocês do saboroso gosto das páginas desta biografia, coloco aqui a resposta de Szymborska a um jornalista, que perguntou a ela se já não precisava mais escrever após ganhar 1 milhão de dólares com o Nobel: “Nenhum dinheiro vai substituir a força mágica, o tormento e a delícia de escrever”.

A leitura flui gostosa ao lermos poemas e a história de Szymborska sobre a necessidade de manter as aparências, sobre aulas na escola, sobre sonhos, sobre judeus no campo de concentração na Polônia, sobre sua decepção com o comunismo, sobre museus, sobre o 11 de Setembro, sobre Hitler, sobre Ella Fitzgerald e sobre a morte. E o pano de fundo da vida de Szymborska  é a história e a vida cultural que marca a Polônia, a Europa e o mundo durante oito décadas do século vinte. Guerras, revoluções, o comunismo, ditadura, Sindicato Solidariedade e volta à democracia: tudo está lá, ao fundo e nos versos de uma poeta que precisa ser mais lida no Brasil. “Quinquilharias e Recordações” é uma bela porta de entrada ao universo de Wislawa Szymborska, uma poeta que tem muito a nos dizer.

English – The name of Polish woman Wislawa Szymborska may be strange to you, but she is one of the leading poets in the world, winner of the 1996 Nobel Prize in Literature. I have just read her biography, “Dusty Keepsakes”, and on each page of her life, I felt inspired and encouraged to read and write. The book covers the 88 years of her life with softness and lyricism. Admired by people like Woody Allen and Zygmunt Bauman, among so many other influential people, the biography has the merit of filling in passages in Szymborska’s life with poems that inspired the Polish woman to write about her reflections, anxieties and the men she loved.

Just to give you a taste of the pages of this biography, see here Szymborska’s answer to a journalist, who asked her if she no longer needed to write after winning 1 million dollars in the Nobel Prize: “No money will replace the magical force, the torment and the delight of writing ”.

Her poems and what inspired her to write them are a nice reading, as, through them, we get to know Szymborska’s views on the need to keep up appearances, on her classes at school, on dreams, on Jews in concentration camps in Poland, on her disappointment in communism, on museums, on September 11th, on Adolf Hitler, on Ella Fitzgerald and on death. And the backdrop to Szymborska’s life is the history and cultural life that marked Poland, Europe and the world for eight decades in the twentieth century. Wars, revolutions, communism, dictatorship, the trade union Solidarity and a return to democracy: everything is there in the background and in the poems of a writer who should be more read in the world. “Dusty Keepsakes” is a beautiful gateway to the world of Wislawa Szymborska, a poet who has a lot to say to us.

“Festa de Formatura”: Um elenco estrelado em uma sucessão de clichês/”The Prom”: a starred cast in a sequence of clichés – 14 de janeiro de 2021

A Festa de Formatura Netflix: musical LGBT (2020)

Ver um filme com Meryl Streep é ter a quase certeza de assistir a uma atriz indicada ao Oscar pelo filme visto. Ela teve nada menos do que 20 indicações em sua carreira. É inegável que se trata de uma das mais completas e versáteis atrizes americanas. No entanto, ficarei surpreso e desapontado se Meryl Streep for indicada ao próximo Oscar por seu mais recente filme, “A Festa de Formatura” (“The Prom”), que estreou no mês passado na Netflix. 

Trata-se de um filme construído com base em uma sucessão de clichês. Apesar da premissa interessante e justa (uma adolescente lésbica decide levar  sua namorada ao baile de formatura, e um grupo de pais conservadores decide cancelar a festa em protesto contra a “boa” reputação da comunidade provinciana), o que se vê é um excesso de didatismo e maniqueísmo para explicar que é normal ter orientações sexuais diferentes, que os pais não precisam se preocupar caso tenham filhos não heterossexuais, que o amor sincero e fiel existe, que o egoísmo e o narcisismo são condenáveis.

De bom, os números musicais esteticamente bem desenvolvidos e uma boa transposição da Broadway para Hollywood. No entanto, o elenco estelar foi mal aproveitado, e resultou em um açucarado filme que caberia como uma luva na “Sessão da Tarde”.

English – To see a film with Meryl Streep is to witness a most likely Academy Awards nomination for best actress. She has had no less than 20 nominations in her career so far. It is undeniable that she is one of the most complete and versatile American actresses. However, I will be surprised and disappointed if Meryl Streep is nominated in the next Academy Awards for her latest film, “The Prom,” which debuted on Netflix last month.

It is a movie built on a succession of clichés. Despite the interesting and fair premise (a lesbian teenager decides to take her girlfriend to the prom, and a group of conservative parents decides to cancel the party in protest against the “good” reputation of the provincial community), what is seen is an excess of didacticism and manichaeism to explain that it is normal to have different sexual orientations, that parents need not worry if they have non-heterosexual children, that sincere and faithful love exists, that selfishness and narcissism are reprehensible.

A positive feature in this picture are the aesthetically well-developed musical numbers and a good transposition from Broadway to Hollywood. However, the stellar cast was misused, and resulted in a wishy-washy film, with no other ambition.

Um livro sobre canibais que não me alimentou/A book about cannibals that did not feed me

Sobre os canibais: Contos | Amazon.com.br

Caetano W. Galindo é um dos principais tradutores literários brasileiros. É dele, por exemplo, a premiada tradução do livro “Ulysses”, de James Joyce, ao português. Eu confesso que tentei, por duas vezes, ler o “Ulysses”, mas não passei da página 25. No entanto, reconheço o mérito do Galindo como tradutor, pois ele foi capaz de recriar em português uma obra cerebral que, para mim, é intraduzível. Justamente por isso, estava curioso para conhecer o lado ficcionista de Galindo e li agora seus contos em “Sobre os Canibais”. Infelizmente, me decepcionei com o livro.

Os temas no conto passeiam pela morte, por decepções amorosas, pela angústia existencial. Mas são irregulares. Apenas um ou dois foram capazes de me fazer suspirar, como o conto “Pentimenti”, que me lembrou a canção “Cotidiano”, do Chico Buarque, e o conto “Sozinho”, que leva o leitor a ter uma epifania. Os outros 40 contos são curtas histórias mal curtidas (no sentido de conservadas em molho) que não curti. Galindo tenta ser cerebral nos contos, tenta fazer trocadilhos e tenta subverter a linguagem e a pontuação. Abusa do uso de parênteses que não levam a lugar algum. Abusa da metalinguagem que não é capaz de tirar o leitor da história. Fica brega ao tentar transformar uma instalação artística em literatura. E acaba caindo em uma simplicidade que contrasta com o potencial que Galindo demonstra em suas traduções. Por isso, me desapontei com os contos de sua ficção. Fui com muita sede ao pote e terminei de ler “Sobre os Canibais” canibalizado por uma expectativa que não se concretizou. Acho melhor eu continuar a ser um leitor vegetariano mesmo. Se alguém leu “Sobre os Canibais”, fique à vontade para deixar suas impressões aqui.

English Caetano W. Galindo is one of the main Brazilian literary translators. For example, the award-winning translation of the novel “Ulysses”, by James Joyce, into Portuguese. I confess that I tried, twice, reading “Ulysses”, but I did not go anywhere beyond page 25. However, I recognize Galindo’s merit as a translator, as he was able to recreate in Portuguese a work that, for me, is untranslatable. Precisely for this reason, I was curious to know the fictional side of Galindo and I have now read his short stories in “Sobre os Canibais” (“About Cannibals”). Unfortunately, I was disappointed by the book.

The themes in the stories range from death, to love conflicts, to existential anguish. But they are irregular. Only one or two stories were able to make me sigh, like the short story “Pentimenti”, which reminded me of the song “Cotidiano”, by Chico Buarque, and the short story “Sozinho”, which leads the reader to have an epiphany. The other 40 are short stories badly elaborated which I did not enjoy. Galindo tries to be brainy in his short stories, tries to make puns and tries to subvert language and punctuation. He abuses the use of parentheses that lead to nowhere. He abuses metalanguage that is not able to take the reader out of the story. His style is tacky when tries to transform an artistic installation into literature. And it ends up falling into a simplicity that contrasts with the potential that Galindo shows in his translations. Therefore, I was disappointed by the tales of his fiction. I was hungry to read his fiction and ended up reading “About Cannibals” cannibalized by an expectation that did not materialize. I guess I’d better continue to be a vegetarian reader anyway. If anyone has read “About Cannibals”, feel free to leave your opinion here.

Um filme que vacina contra o preconceito/A movie which is a vaccine against prejudice

Ma Rainey's Black Bottom (2020) - IMDb

O ano novo começa agora, e 2021 nos traz a pergunta: algo mudará? O recém-lançado filme na Netflix “A Voz Suprema do Blues” (no original “Ma Rainey´s Black Bottom”) sugere que há muito o que fazer, especialmente na questão do preconceito racial e na forma desigual como brancos e negros somos vistos. Foi o último filme de Chadwick Boseman (o Pantera Negra), que filmou em meio a sessões de quimioterapia. Ele e Viola Davis estão muito bem no filme; se não viu, fica aqui uma dica. Dizem que o filme vai receber uma penca de indicações ao Oscar (incluindo melhor ator e melhor atriz). A história se passa em 1927 e fala sobre a cantora de blues Ma Rainey, que tinha um gênio forte e era autora de suas músicas. Fala também sobre a briga dela com o produtor, que quer que ela grave versões mais “brancas” para suas canções. E fala também do trompetista no papel desempenhado por Boseman, com diálogos fortes e um drama intenso que ele vive como negro.

Ano novo, dilemas velhos. Que 2021 nos traga vacinas com anticorpos para diversos vírus, como o racismo e o preconceito. “A Voz Suprema do Blues” é uma vacina altamente recomendada.

English The new year starts now, and 2021 asks this question: will something change? The recently released Netflix movie “Ma Rainey´s Black Bottom” suggests that there is a lot to be done, especially on the issue of racial prejudice and the uneven way in which whites and blacks are viewed . It was Chadwick Boseman (the Black Panther)´s last movie, which he shot in the midst of chemotherapy sessions. He and Viola Davis are very well in the film; if you haven’t seen it, here’s a tip. They say the film will receive a handful of Oscar nominations (including best actor and best actress). The movie is set in 1927 and is about the blues singer Ma Rainey, who had a strong genius and was the author of her songs. It is also about her fight with the producer, who wants her to record more “white” versions for her songs. And it is also about the trumpeter in the role played by Boseman, with strong dialogues and an intense drama that he lives as a black man.

New year, old dilemmas. May 2021 bring vaccines with antibodies to various viruses, such as racism and prejudice. “Ma Rainey´s Black Bottom” is a highly recommended vaccine.

Um livro sobre brasileiros para o Brasil e para o mundo/A book about Brazilians for Brazil and for the world

Elis Regina cantou que o “Brazil não conhece o Brasil; O Brasil nunca foi ao Brasil”. Acabo de ler um livro que é uma grande oportunidade de o Brasil conhecer o Brasil. O recém-lançado “Brasileiros” é feito de textos sobre grandes brasileiros, como Cazuza, Getúlio Vargas, Monteiro Lobato, Rui Barbosa, Luiz Gonzaga, Zilda Arns, Di Cavalcanti, Oscar Niemeyer, Dom Pedro I e Vladimir Herzog, entre tantos outros, escritos por não menos ilustres brasileiros como Paulo Ricardo, Fernanda Montenegro, Renato Aragão, Ancelmo Gois, Pedro Bial, Nelson Motta e Cacá Diegues.

Os artigos são intimistas e nos deixam orgulhosos de termos tido tanta gente bacana no Brasil. Mas são irregulares, alguns emocionam, como o de Fernanda Montenegro sobre Irmã Dulce; mas outros pouco acrescentam, como o autocentrado depoimento de Renato Aragão sobre Oscarito. No entanto, ao chegar à última página, respiramos um ar mais forte, capaz de jogar em nossos pulmões algum otimismo de que o Brasil, hoje tão maltratado por seus governantes, é capaz de superar esta fase sombria e voltar a ser um país com futuro.

Aproveito para registrar aqui que este blog faz nesta semana 1 ano. Agradeço a você, querido leitor e seguidor, por me acompanhar por aqui e desejo um 2021 cheio de bons livros, filmes, muita música e arte. Espero que possamos seguir juntos. Grande abraço!

English – Singer Elis Regina sang that “Brazil does not know Brasil; Brazil has never been to Brasil ”. I have just read a book that is a great opportunity for Brazil to get to know Brazil. The recently launched “Brasileiros” (“Brazilians”) is made up of texts about great Brazilians, such as Cazuza, Getúlio Vargas, Monteiro Lobato, Rui Barbosa, Luiz Gonzaga, Zilda Arns, Di Cavalcanti, Oscar Niemeyer, Dom Pedro I and Vladimir Herzog, among many others, written by no less illustrious Brazilians like Paulo Ricardo, Fernanda Montenegro, Renato Aragão, Ancelmo Gois, Pedro Bial, Nelson Motta and Cacá Diegues.

The articles are intimate and make us proud to have had so many great people in Brazil. But they are irregular, some are emotional, like Fernanda Montenegro’s article on Sister Dulce; but others add little, such as Renato Aragão’s self-centered testimony about Oscarito. However, when we reach the last page, we breathe a stronger air, capable of throwing into our lungs some optimism that Brazil, now so mistreated by their governors, is able to overcome this dark phase and once more become a country with a future.

I take this opportunity to register here that this blog is celebrating its first year now. Thank you, dear reader and follower, for accompanying me here. I wish you a 2021 with lots of good books, films, music and art. Hope we can continue together. XX

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