Ocupar é preciso/Occupying is precise

Acabo de ler o mais recente romance do brasileiro, filho de argentinos, Julián Fuks, “A Ocupação”. Ocupar a mente é brincar de esconde-esconde com o ócio. Ocupar a casa pode ser colocar filhos para habitá-la. Ocupar a sociedade pode ser participar, nas ruas, de protestos a favor de mais democracia, mais educação, mais habitação. O romance de Julián Fuks trata das diversas formas como somos ocupados e invadidos em nossos relacionamentos, no trabalho ou na falta de ocupação. Narrado em três níveis, “A Ocupação” tem em seu eixo central a invasão do Hotel Cambridge, prédio abandonado no centro de São Paulo e invadido pelos sem-teto, muito deles imigrantes de países como a Síria ou a Bolívia. Paralelamente, há a história do difícil relacionamento conjugal do narrador com a esposa, além de seu pai, que definha no leito de um hospital. O Brasil é silenciosamente ocupado; nós nos ocupamos de abrir espaços nas vidas que invadimos cotidianamente. Com uma linguagem lírica, Jilián Fuks nos convida a passear por casas ocupadas, a ocupar a nossa casa, a revisitar a nossa vida. Difícil resistir à leitura desta curta narrativa em uma só sentada.

English: I just finished reading the novel “A Ocupação” (“Occupy”), by Brazilian author Julián Fuks. The book is about the occupation of Hotel Cambridge, a building which was abandoned in downtown São Paulo. Hotel Cambridge is now is home to hundreds of people from various countries, like Syria and Bolivia. Julián deals with the lives of people who are invisible in a society occupied by commitments and dreams, which not always come true. I could not put it down up to its last page.

Um poeta que (en)cantou o mundo/A poet who (en)chanted the world

Estava mais angustiado que o goleiro na hora do gol. Assim me senti ao terminar de ler agora a biografia do cantor e compositor Belchior, “Apenas um rapaz latino-americano”, escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros. Belchior foi, mais do que cantor, mais do que músico, mais do que pintor, um poeta, que musicou angústias, amores e protestos. E sua música traduziu um pouco dos conflitos e embates que teve com Caetano Veloso e, principalmente, com o conterrâneo Fagner. Um livro que certamente vai agradar aos fãs do músico cearense e vai ser um boa porta de entrada ao infinito universo deste Bob Dylan brasileiro. Na próxima edição da Revista “Germina”, publicarei, na minha coluna lá, uma resenha crítica sobre esta biografia. Por enquanto, deixo a sugestão, para a leitura ficar mais gostosa, de ler o livro e ouvir as músicas de Belchior ao mesmo tempo.  

English: I felt somehow disturbed after reading Belchior’s biography “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (“Just a Latin American Boy” – title of one of his songs). Belchior was much more than a singer: he was a composer and a painter, but, above all, he was a poet. Considered by himself the Brazilian Bob Dylan, Belchior’s songs are a bridge that connects him with love, with his city, his country, his time and his past. I will elaborate all of these ideas shortly in my column, which will be published in the next issue of the “Germina” magazine.

Um belo romance indiano/A beautiful Indian novel

Há um ano estive na Índia e, de todas as viagens que fiz aos cinco continentes, com certeza, esta foi a experiência em que me senti mais longe do Brasil. Apesar de, como o Brasil, ser um país ricamente pobre, a Índia se apresenta ao mundo com uma aquarela de cores bem distintas de nós. Para não perder de vista o gosto que o subcontinente indiano me trouxe, li agora um romance que veio na bagagem desta viagem. Da jovem e premiada autora Arundhati Roy, “O Deus das Pequenas Coisas” é a história de dois irmãos gêmeos, um menino e uma menina, que são obrigados a se separar, ainda crianças, para se encontrarem décadas depois. Assim como o Brasil e a Índia, os irmãos Esthappen e Rahel se sentem muito distantes, uma distância que se acentua pela semelhança entre si, mas,  ao se encontrarem, tentam tratar de uma ferida que teima em não cicatrizar. Arundhati Roy é uma ótima porta de entrada para a moderna literatura indiana. 

English: One year ago I went to India and, from all the trips I took to the five continents, this was for sure the one that made me feel the farthest from Brazil. Although it is, like Brazil, a richly poor country, India has different colors than Brazil. In order not to lose the cool taste India has provided me with, I have now read a novel that I brought along from this trip. By young author Arundhati Roy, “The God of Small Things” is the story of two twins, a boy and a girl, who are forced to drift apart at a young age, to reunite decades later. Just like Brazil and India, the twins Esthappen and Rahel feel the distance between them grow as time goes by – a distance that is fed by the similarities in them. When they meet again, they try to heal a wound which never seems to disappear. Arundhati Roy is an excellent door to modern Indian literature.

Um poema meu na “Revista Conexão Literatura”/My poem published in Magazine “Conexão Literatura”

Foi publicado hoje na edição de janeiro de 2020 o meu poema “A Tua Mais Completa Tradução”, no qual eu brinco com as palavras em inglês e português a fim de sugerir as ideias de ação, formação, informação e transformação. Se quiser ler o poema, clique no link (espero que curta):

In today´s issue of Magazine “Conexão Literatura” my poem “A Tua Mais Completa Tradução” (“Your most complete translation”) was published. In this poem, I play with words in English and in Portuguese in order to suggest the ideas of action, formation, information and transformation. If you want to read it, just on this link (hope you enjoy it):

http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2020/01/poema-tua-mais-completa-traducao-por.html?fbclid=IwAR0IheaqDXLBV95_2X0EzDPYRjfnzXsyCFHRcZP9hgyzOFzOnficm-rAkFE

“Roda Viva” é digestão cerebral/”Life Goes On” is digestion for the brain

Ir ao teatro Oficina, em São Paulo, assistir a uma peça dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa é um ritual único e desafiador. Afinal, quem se dispõe a esperar em uma fila para comprar ingresso (e correr o risco de voltar pra casa de mãos vazias) para ver uma peça de 5 ou 6 horas sentado em uma arquibancada de cimento sem encosto? O interessante disso é que, quem vai, geralmente, quer voltar.

Foi assim comigo na noite de ontem, quando assisti à peça “Roda Viva”. A história de um músico que, com o objetivo de fazer sucesso a qualquer preço, se vende para um empresário ambicioso, que o força a se descaracterizar para atingir a glória, é um texto menor de Chico Buarque. No entanto, nas mãos de Zé Celso, a peça ganha um vigor absurdo, ao som de uma competente banda que toca ao vivo e, principalmente, do excelente ator que interpreta o empresário Anjo, Guilherme Calzavara. Apesar do fraco desempenho do protagonista, que faz o papel do músico Ben Silver (Roderick Himeros), assistir a “Roda Viva” é um desconfortável programa de sábado à noite, que levamos anos para digerir no cérebro.

In English: Going to Oficina Theater, in São Paulo, in order to see a play directed by Zé Celso Martinez Corrêa is a challenging ritual. You usually need to wait in line to get a ticket to watch a 5-6 hour long play sitting on an uncomfortable cement bench. Surprisingly, most people who undergo this ritual generally enjoy the experience.

I went to Oficina yesterday to watch “Life goes on” (“Roda Viva”) – the story of a singer whose aim is to become famous at any price and falls in the hands of an ambitious manager, who makes him change his original style to first gain and eventually lose fame. Although “Roda Viva” is a minor text by Chico Buarque, in the hands of Zé Celso, the play becomes super powerful. The highlight is the performance of actor Guilherme Calzavara and the awesome band on stage (although Oficina has no specific stage). “Roda Viva” is an uncomfortable Saturday night show, which will take years to be digested by the brain.

“Perdidos no Espaço” 50 anos depois/”Lost in Space” 50 years later

A minha infância e a minha adolescência foram marcadas pela televisão. Estou falando dos anos 70. E a televisão foi muito importante na minha formação intelectual. Foi ela que me apresentou, por exemplo, o universo do Monteiro Lobato. A minha imaginação foi também muito alimentada por séries de ficção americanas, como “O Túnel do Tempo”, “Terra de Gigantes” e “Perdidos no Espaço”. Quem cresceu nesta década carrega consigo para sempre esse universo.

Foi, portanto, com nostalgia que assisti na Netflix às duas temporadas de “Perdidos no Espaço” (a segunda acabou de ser lançada). Quem viu a série original (produzida nos anos 60) vai querer ver a atual. E quem não viu a original pode ter uma pequena ideia das fantasias que passavam pela mentes dos cinquentões e sessentões de hoje quando eram jovens.

Já adianto dizendo que, apesar das inúmeras “licenças poéticas” científicas da série em preto e branco que a ciência atual já negou faz tempo, a série original tinha mais apelo do que a recente produção da Netflix. Em tempos de Guerra Fria, um personagem malvado como o Dr Smith era, na verdade, a personificação de alguém que se opunha aos americanos. Ele foi criado para ser o vilão, o invasor, o desonesto, egoísta, o antiético, inescrupuloso: adjetivos que o americano comum associava imediatamente aos comunistas soviéticos. Mas, justamente por se opor à arrogância imperialista americana, o Dr Smith era um personagem antissistema, que, para o Brasil da ditadura militar, representava uma lufada de ar fresco. Além do mais, nos Estados Unidos, o Dr Smith era identificado com os hippies, que eram contra a Guerra do Vietnã (que os americanos patrocinaram e perderam – no tempo e no espaço).

A versão atual traz pouco da contracultura dos anos 60. A começar pelo personagem da nada convincente Parker Posey, que faz a Doutora Smith (sim, na Netflix, o malvado é uma mulher), que não tem o carisma que o ator Jonathan Harris dava ao Doutor Smith. É inegável, porém, que as mulheres têm muito mais voz e força na série da Netflix. A Maureen atual é uma mulher que se impõe com ideias próprias e com conhecimento científico, algo impensável para a subserviente esposa Maureen original. Na Netflix, ela até se separa do marido no início da primeira temporada. As duas filhas atuais (Penny e Judy) são mais ativas e menos coadjuvantes do que as de 50 anos atrás. Acompanham, portanto, as conquistas femininas neste século. Mas acho isso pouco em comparação ao vulcão de imaginação que a Família Robinson (referência ao romance de Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”) original provocou em jovens há meio século. Além do mais, o personagem atual Don West (Ignacio Serricchio) não tem a mesma simpatia do Major West (Mark Goddard) dos anos 60. 

Apesar de não achar que os jovens que estão sendo apresentados a “Perdidos no Espaço” agora irão querer revê-la daqui a 50 anos, recomendo esta série para os que querem se perder no tempo neste ano que se inicia agora.

In English: My childhood and my teenage have been strongly influenced by TV. I refer to the 1970s, when television shaped my intellect by introducing me to great writers, such as Brazilian novelist Monteiro Lobato. My imagination has also been stimulated by American TV series, like “The Time Tunnel”, “Land of the Giants” and “Lost in Space”. Anyone who grew up in the 60s/70s will bring this universe with them forever. It was, therefore, with a degree of nostalgia that I watched on Netflix the first two seasons of “Lost in Space”, a reimagining of the 1965 series.

I start off by saying that, despite a great deal of “poetic license” in the black and white series that current science has already denied, the original “Lost in Space” has more appeal than the reimagining of it by Netflix. During the Cold War, an evil character like Dr Smith was the impersonation of a brave man who dared to challenge the United States. He was the villain, the invader, the selfish man with no scruples; he carried all of the adjectives an ordinary American would immediately connect to the communists from the Soviet Union. However, for being anti-establishment, Dr Smith represented the possibility of being free from the arrogance of the American imperialism. (In Brazil in the 1970s, during the military dictatorship, Dr Smith represented a possibility of saying no to censorship and to torture). Besides, in the USA, Dr Smith was identified with the hippies, who were against the establishment and the Vietnam War, which the Americans lost – in time and in space.

The current version of “Lost in Space” has very little of the countercultural vibe from the 1960s. The not-so convincing actress Parker Posey, who plays the role of Dr Smith (yes, on Netflix, the evil character is a woman), does not have the same charisma actor Jonathan Harris originally gave Doctor Smith.

It is undeniable, however, that the female characters have a much stronger voice on the Netflix series. Maureen is now a woman with her own opinions and scientific knowledge – something unimaginable for the obedient wife in Maureen’s original “Lost in Space”. The two daughters (Judy and Penny) are more active and less of supporting actresses than their peers from the 1960s. However, I think this is very little in comparison to the volcano of imagination that the original Robinson Family (an obvious reference to  Daniel Defoe’s novel, “Robinson Crusoe”) caused in children and teenagers half a century ago. Besides, current character Don West (played by Ignacio Serricchio) is miles away from the competence shown by Major West (Mark Goddard) in the 60s.

Although I don’t think that young people, who are being introduced to “Lost in Space” now will feel like watching it again in 50 year’s time, I recommend this Netflix series to the ones who are willing to get lost in time in this year (2020), which has just begun.

Clarice Lispector faz 100 anos/100 years of Clarice Lispector

Um dos motivos pelos quais eu sou escritor atende pelo nome de Clarice Lispector. A primeira vez que li um romance escrito por esta ucraniana, que acidentalmente virou brasileira, eu fiquei “chapado” e quase aprendi a escrever. E até hoje, quando escrevo, escuto o eco de Clarice no fundo das minhas palavras. Como ela nasceu há exatos cem anos, em 2020 o nome Clarice Lispector será um dos mais pronunciados por aqui.

Assisti hoje à peça “Minhas Queridas- Cartas de Clarice Lispector às Irmãs”. Não se trata da literatura de Clarice no palco, pois o texto da peça é inspirado em cartas que ela escreveu para suas duas irmãs durante os 15 anos em que viveu em diversos países no exterior, acompanhando o marido diplomata, Maury Gurgel Valente. Trata-se mais da vida de Clarice, que traduziu a própria existência em sua ficção; portanto, o espetáculo é uma oportunidade de assistir a um pouco da literatura que ela escreveu. A peça procura entrar no universo clariciano pela margem: o espectador chega à ficção dela partindo da sua (sofrida) realidade. A mistura da vida real e da ficção de Clarice é muito bem articulada por um texto fluido e equilibrado entre as atrizes Marilene Grama e Simone Evaristo, que representam as irmãs e a própria autora. Há algumas “piscadelas” para o público em referências ao texto clariciano. Não poderiam faltar uma barata, um ovo e uma galinha (não necessariamente reais) no palco.

Com um cenário móvel, de três paredes que se transformam, e uma trilha sonora original com um potente blues, o ano do centenário de Clarice Lispector começa com esta peça, que introduz com competência um dos principais nomes de nossa literatura. Recomendo muito esta montagem, que fica em cartaz no Sesc Pinheiros até o dia 8 de fevereiro.


In English: I am a writer as a result of authors who influenced me. One of them is definitely Clarice Lispector. She would have turned 100 if she was still alive. Therefore 2020 will witness a number of plays, books and movies inspired by her work. Born in Ukraine, she came to Brazil when she was 2 years old. She always felt a foreigner anywhere in the world. The play “Dear Sisters”, which I watched today at Sesc Pinheiros, in São Paulo, is a great opportunity to be in touch with non-fiction texts by Lispector. The play is based on letters that she wrote to her 2 sisters when Clarice was living in various countries in Europe and in the US, when she was married to Diplomat Maury Gurgel Valente. The two actresses take turns as one of the sisters and as Clarice herself. The stage set consists of three movable walls and a powerful soundtrack of sad Blues. Elements of her fiction – as a cockroach, an egg and a chicken – will be on stage. I highly recommend this play.

Peça”Brincando com o Fogo”/Play “Playing with Fire”

Uma das principais companhias teatrais de São Paulo (o Grupo Tapa) encenando um dos mais renomados dramaturgos do século XIX (o sueco August Strindberg) só poderia resultar em uma bela produção nos palcos brasileiros, certo? Só que não. Fui ontem ver a estreia da peça “Brincando com o Fogo” no Teatro Aliança Francesa em São Paulo e não tive vontade de me levantar para aplaudir no final. O autor sueco escreve textos que se passam em espaços fechados (geralmente o interior de uma casa) para retratar criticamente as relações de  famílias burguesas. No entanto, nesta montagem do Tapa, o que se vê é um texto raso sobre um triângulo (ou quinteto) amoroso, envolvendo um casal que tem um relacionamento morno e burocrático e um amigo, que passa uma temporada morando em um quarto na casa deles. Além destes três, há os pais do marido, que são presença constante e incômoda (para o casal) na casa que o pai deu para o filho (um artista pouco chegado ao trabalho) morar de graça. O pai do artista, aliás, parece ter um caso amoroso com a moça que trabalha na casa do casal. 

A interpretação dos atores é artificial e pouco inspirada, com falas mornas que não dão a dramaticidade necessária possivelmente imaginada por Strindberg. O cenário (a sala do artista, com quadros que ele produz e um espelho que reflete o personagem nele pintado) não compromete e aponta para uma ideia interessante de metalinguagem. O saldo final, no entanto, é frustrante.

In English: One of the most renown theater companies in Brazil (Grupo Tapa) performing a text by one of the most famous playwrights ever (Swedish August Strindberg) should certainly be a successful combo. However, the performance of “Playing with Fire” in São Paulo is nothing less than embarrassing. Actors deliver a poor performance with lines artificially articulated. In a word: frustrating.

Filmes do Ano/Movies recently watched

Começo de ano é época de Oscar e de Globo de Ouro, ou seja, de pensarmos em cinema como pensamos em futebol – como uma competição, na qual os melhores são premiados. Confesso que ver filmes ou ler livros pensando em prêmios, para mim, tira muito do encanto que o cinema ou a literatura provocam. Penso que um filme ou um livro têm valor intrínseco, que não aumenta ou diminui quando comparado a outros. Dito isso, teço abaixo rápidos comentários sobre alguns filmes bacanas a que assisti nas últimas semanas (abençoadas férias!) e que, muito provavelmente, estarão nas listas dos indicados ao Oscar. Quase todos ainda em cartaz (pelo menos em São Paulo).

Começo com três filmes  brasileiros interessantes: “Carcereiros” – um roteiro que deixa o espectador preso na cadeira por 90 minutos, com muita tensão e um bom passeio pelo interior do sistema prisional brasileiro; “Bacurau” – belo filme de resistência em tempos irresistíveis, vale por uma cena, na qual os brasileiros brancos de classe média do Sul/Sudeste que se acham menos latinos do que os nordestinos são colocados sob a mesma ótica de acordo com o olhar dos norte-americanos e europeus; e “A Vida Invisível”, singela narrativa de duas irmãs que enfrentam os desafios de viver em um Rio de Janeiro patriarcal. São três filmes com tons e cores diferentes, o que mostra que em 2019 o cinema brasileiro produziu mais do que açucaradas comédias globais.

A Netflix tem sido um boa alternativa para assistir a lançamentos de qualidade. “O Irlandês” é um dos últimos filmes dirigidos por um Scorsese ainda com fôlego. Joe Pesci, Robert De Niro e Al Pacino vão na mesma toada, do ocaso com dignidade. “Dois Papas”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, traz diálogos bem-humorados entre Francisco e Bento XVI (a cena da pizza é a melhor). Jonathan Pryce e Anthony Hopkins em forma, representando muito bem o País de Gales, onde ambos nasceram. E “História de um Casamento”, com momentos magníficos de Adam Driver, Scarlett Johansson e Laura Dern, que encenam um divórcio que torcemos para que não aconteça (será?). Por fim, “Coringa” (só vi agora!), um filme que, graças à brilhante atuação de Joaquin Phoenix, me deixou perturbado por dois dias.

No entanto, o melhor filme que vi estes dias não foi americano nem brasileiro. Foi o coreano “Parasita”, que mostra que Brasil e Coreia do Sul têm muito em comum. Uma família pobre que vive em um porão consegue, de maneira pouco ética, trabalhar na confortável casa de uma família de classe alta. Conflitos sociais e relações hipócritas são retratados com atuações convincentes. Se o Haiti é aqui, a Coreia também está logo ali na esquina.

In English: As the year begins, the movie season comes to its summit as the Oscar, the Golden Globe and the BAFTA take place. I will mention here some of the films I have recently watched (I am on vacations!!! And I am sure they will be among the winners). Netflix has been an interesting alternative to the movie theater. “The Irishman” is a Scorcese worth watching. Just like the director, Joe Pesci, Robert De Niro and Al Pacino are probably saying good-bye as actors with dignity. “Two Popes”, directed by Brazilian Fernando Meireles, has funny dialogs between Pope Francis and Pope Benedict XVI (the pizza scene is the best!). Welsh actors Jonathan Pryce and Anthony Hopkins have had convincing performances. “Marriage Story” has superb moments with Adam Driver, Scarlett Johansson and Laura Dern. I really enjoyed it. And fitinally “Joker” (I know, I only watched it now!): Joaquim Phoenix’s performance has made me disturbed for tow days.

Although I recently watched three very interesting Brazilian movies (“Bacurau”, “Invisible Life” and “Carcereiros”), the movie that struck the most was the South Korean “Parasite”. By watching it, we realize that there are a lot of commonalities between Brazil and South Korea. If you haven’t watched it yet, please do so.

Leituras para 2020/Readings in 2020

O ano novo começa, e a pilha de livros que me acompanharão em 2020 não para de crescer. Entrei o ano lendo a instigante biografia de Susan Sontag, escrita por Benjamin Moser. Ao meu lado, repousam, aguardando a sua vez, “Belchior – Apenas um Rapaz latino-Americano” (Jotabê Medeiros), “Oblómov” (Ivan Gontcharóv), “Sobre os Canibais” (Caetano W, Galindo), “Operação Condor” (Anna Lee e Carlos Heitor Cony), “Incidentes na Vida de uma Menina Escrava” (Harriet Ann Jacobs), “Haroldo de Campos, Tradutor e Traduzido” (orgs: A. Guerini, W. C. Costa e S. Homem de Mello), “O Asno de Ouro” (Apuleio), “Metrópole à Beira-Mar” (Ruy Castro), “The God of Small Things” (Arundhati Roy), “A Ocupação” (Julián Fuks), “Vida a Granel” (César Magalhães Borges), “L´Ecole des Femmes” (Molière) e “O Quarto de Giovanni” (James Baldwin). Comentarei aqui alguns dele, conforme eu os for lendo.

In English: The new year has just begun, and the pile of books next to me keeps growing. I spent the turn of the year reading Benjamin Moser’s biography on Susan Sontag. Some of the next in line include: “Incidents in the Life of a Slave Girl” (Harriet Ann Jacobs); “Giovanni’s room” (James Baldwin); “The God of Small Things” (Arundhati Roy); “The Golden Ass” (Apuleius); “L´Ecole des Femmes” (Molière); “Oblómov” (Ivan Gontcharóv); singer Belchior’s biography, (by journalist Jotabê Medeiros); “Sobre os Canibais” (Caetano W, Galindo); “Operação Condor” (Anna Lee e Carlos Heitor Cony); “Haroldo de Campos, Tradutor e Traduzido” (orgs: A. Guerini, W. C. Costa and S. Homem de Mello); “Metrópole à Beira-Mar” (Ruy Castro); “A Ocupação” (Julián Fuks); and “Vida a Granel” (César Magalhães Borges). I will comment on some of them in this blog as I finish reading them.