Filmes do Ano/Movies recently watched

Começo de ano é época de Oscar e de Globo de Ouro, ou seja, de pensarmos em cinema como pensamos em futebol – como uma competição, na qual os melhores são premiados. Confesso que ver filmes ou ler livros pensando em prêmios, para mim, tira muito do encanto que o cinema ou a literatura provocam. Penso que um filme ou um livro têm valor intrínseco, que não aumenta ou diminui quando comparado a outros. Dito isso, teço abaixo rápidos comentários sobre alguns filmes bacanas a que assisti nas últimas semanas (abençoadas férias!) e que, muito provavelmente, estarão nas listas dos indicados ao Oscar. Quase todos ainda em cartaz (pelo menos em São Paulo).

Começo com três filmes  brasileiros interessantes: “Carcereiros” – um roteiro que deixa o espectador preso na cadeira por 90 minutos, com muita tensão e um bom passeio pelo interior do sistema prisional brasileiro; “Bacurau” – belo filme de resistência em tempos irresistíveis, vale por uma cena, na qual os brasileiros brancos de classe média do Sul/Sudeste que se acham menos latinos do que os nordestinos são colocados sob a mesma ótica de acordo com o olhar dos norte-americanos e europeus; e “A Vida Invisível”, singela narrativa de duas irmãs que enfrentam os desafios de viver em um Rio de Janeiro patriarcal. São três filmes com tons e cores diferentes, o que mostra que em 2019 o cinema brasileiro produziu mais do que açucaradas comédias globais.

A Netflix tem sido um boa alternativa para assistir a lançamentos de qualidade. “O Irlandês” é um dos últimos filmes dirigidos por um Scorsese ainda com fôlego. Joe Pesci, Robert De Niro e Al Pacino vão na mesma toada, do ocaso com dignidade. “Dois Papas”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, traz diálogos bem-humorados entre Francisco e Bento XVI (a cena da pizza é a melhor). Jonathan Pryce e Anthony Hopkins em forma, representando muito bem o País de Gales, onde ambos nasceram. E “História de um Casamento”, com momentos magníficos de Adam Driver, Scarlett Johansson e Laura Dern, que encenam um divórcio que torcemos para que não aconteça (será?). Por fim, “Coringa” (só vi agora!), um filme que, graças à brilhante atuação de Joaquin Phoenix, me deixou perturbado por dois dias.

No entanto, o melhor filme que vi estes dias não foi americano nem brasileiro. Foi o coreano “Parasita”, que mostra que Brasil e Coreia do Sul têm muito em comum. Uma família pobre que vive em um porão consegue, de maneira pouco ética, trabalhar na confortável casa de uma família de classe alta. Conflitos sociais e relações hipócritas são retratados com atuações convincentes. Se o Haiti é aqui, a Coreia também está logo ali na esquina.

In English: As the year begins, the movie season comes to its summit as the Oscar, the Golden Globe and the BAFTA take place. I will mention here some of the films I have recently watched (I am on vacations!!! And I am sure they will be among the winners). Netflix has been an interesting alternative to the movie theater. “The Irishman” is a Scorcese worth watching. Just like the director, Joe Pesci, Robert De Niro and Al Pacino are probably saying good-bye as actors with dignity. “Two Popes”, directed by Brazilian Fernando Meireles, has funny dialogs between Pope Francis and Pope Benedict XVI (the pizza scene is the best!). Welsh actors Jonathan Pryce and Anthony Hopkins have had convincing performances. “Marriage Story” has superb moments with Adam Driver, Scarlett Johansson and Laura Dern. I really enjoyed it. And fitinally “Joker” (I know, I only watched it now!): Joaquim Phoenix’s performance has made me disturbed for tow days.

Although I recently watched three very interesting Brazilian movies (“Bacurau”, “Invisible Life” and “Carcereiros”), the movie that struck the most was the South Korean “Parasite”. By watching it, we realize that there are a lot of commonalities between Brazil and South Korea. If you haven’t watched it yet, please do so.

Leituras para 2020/Readings in 2020

O ano novo começa, e a pilha de livros que me acompanharão em 2020 não para de crescer. Entrei o ano lendo a instigante biografia de Susan Sontag, escrita por Benjamin Moser. Ao meu lado, repousam, aguardando a sua vez, “Belchior – Apenas um Rapaz latino-Americano” (Jotabê Medeiros), “Oblómov” (Ivan Gontcharóv), “Sobre os Canibais” (Caetano W, Galindo), “Operação Condor” (Anna Lee e Carlos Heitor Cony), “Incidentes na Vida de uma Menina Escrava” (Harriet Ann Jacobs), “Haroldo de Campos, Tradutor e Traduzido” (orgs: A. Guerini, W. C. Costa e S. Homem de Mello), “O Asno de Ouro” (Apuleio), “Metrópole à Beira-Mar” (Ruy Castro), “The God of Small Things” (Arundhati Roy), “A Ocupação” (Julián Fuks), “Vida a Granel” (César Magalhães Borges), “L´Ecole des Femmes” (Molière) e “O Quarto de Giovanni” (James Baldwin). Comentarei aqui alguns dele, conforme eu os for lendo.

In English: The new year has just begun, and the pile of books next to me keeps growing. I spent the turn of the year reading Benjamin Moser’s biography on Susan Sontag. Some of the next in line include: “Incidents in the Life of a Slave Girl” (Harriet Ann Jacobs); “Giovanni’s room” (James Baldwin); “The God of Small Things” (Arundhati Roy); “The Golden Ass” (Apuleius); “L´Ecole des Femmes” (Molière); “Oblómov” (Ivan Gontcharóv); singer Belchior’s biography, (by journalist Jotabê Medeiros); “Sobre os Canibais” (Caetano W, Galindo); “Operação Condor” (Anna Lee e Carlos Heitor Cony); “Haroldo de Campos, Tradutor e Traduzido” (orgs: A. Guerini, W. C. Costa and S. Homem de Mello); “Metrópole à Beira-Mar” (Ruy Castro); “A Ocupação” (Julián Fuks); and “Vida a Granel” (César Magalhães Borges). I will comment on some of them in this blog as I finish reading them.

Feliz Ano Novo / Happy New Year

Através dos anos, desenvolvi o hábito de não iniciar a leitura de um livro antes de ter terminado de ler o livro anterior. Por mais páginas que tenha um romance, leio-o até o final. Pelo prazer de ler e por respeito ao autor. Mesmo que a leitura seja indigesta, é raro um livro cuja leitura eu tenha abandonado antes do final. Só assim eu poderei ter uma opinião completa sobre o livro. Transferi para as séries de TV a que assisto em streaming o mesmo hábito. Costumo não iniciar uma série nova antes de terminar a que estou assistindo. Acabei de ver, na Netflix, a ótima série espanhola “Vis a Vis”, sobre o universo prisional feminino. Agora estou livre para iniciar nova maratona.

Estou lendo o calhamaço que Benjamin Moser escreveu sobre a vida e a obra da instigante intelectual americana Susan Sontag, “Sontag – Vida e Obra”, e estou adorando. São quase 700 páginas que Moser oferece ao leitor para entrar na mente de uma pensadora e ativista, que era, mais do que um musculoso intelecto, humana, com conflitos de carne e osso. Entrarei o ano novo com Sontag na cabeça. Feliz 2020 a todos!

In English: Throughout the years I have developed the habit of not starting to read a book before finishing reading the previous book. No matter how many pages a novel has, I read it to the end. For the fun of reading and for respect to the author. Even if the book is indigestible, I rarely quit reading a novel before its last page. Only by doing so will I be able to have a complete opinion on the book. I have transfered the same habit to the TV series on Netflix. I do not usually start to watch a new series before finishing the one I am currently watching. I have just finished watching the cool Spanish series “Vis a Vis”, on the female prisional universe. Now I am free to start binge watching a new series.

I am reading Benjamin Moser’s biography on the intriguing American intellectual Susan Sontag, “Sontag – Her Life and Work”, and I am truly enjoying it. In almost 700 pages, Moser provides the reader with the opportunity to enter the mind of an activist and thinker, who had not only a brain with muscles, but also a mind full of human conflicts. I will start the new year with Susan Sontag on my mind. Happy 2020, everyone!