Vidas Negras Importam/Black Lives Matter

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A palavra francesa “Carrefour” significa, em português, “cruzamento”, “encruzilhada”. A palavra encruzilhada vem de cruz. A palavra cruz é carregada nas costas. As costas sustentam o passado, a ascendência, o trabalho. O trabalho, no passado, não era pago, era escravizado. Os escravizados tinham a pele negra, o sangue vermelho, o joelho de osso. A pele escravizada suava rugas, que envelheciam chicotes e enferrujavam correntes. Correntes, no presente, são presentes, que enfeitam pescoços com cruzes. Cruz é uma palavra com apenas uma sílaba. Fome se escreve com uma sílaba. Justiça se pronuncia em um só fôlego. Preconceito se grita em um assopro. Escravizado é um adjetivo escrito com uma sílaba há séculos. Um século são uma centena, uma sentença de anos que nunca foram alforriados. A alforria podia ser comprada. A carta de alforria está à venda no mercado Carrefour, onde, com fome, João Alberto carrega uma cruz para respirar. “Carrefour” é uma palavra cuja última sílaba é o número “four”, que são quatro pontos cardeais: o Morte, o Susto, o Lese e o Peste. No mercado da vida, o negro é uma mercadoria importada da África. A África exportou vida e rugas para o Brasil. O negro, de quatro, no mercado, cruz no pescoço, é um produto barato na prateleira de importados. A vida, no Brasil, é um equívoco importado. Uma cruz crucificada. A vida pulsa em negros grotões de grades e portas. Vidas negram importam.

English – The French word “Carrefour” means, in English, “crossroads”. The word crossroads comes from cross. The word cross is carried on the back. The back supports the past, ancestry, work. In the past, work was not paid, it was enslaved. The enslaved ones had black skin, red blood, bone knees. The enslaved skin sweated wrinkles, which aged whips and rusted chains. Chains, in the present, are gifts, which adorn necks with crosses. Cross is a word spelled with only one syllable. Hunger is written with one syllable. Justice is pronounced in one breath. Prejudice screams out in one single breath. Slave is an adjective written with one syllable for centuries. A century is a hundred years, a sentence of years that have never been freed. A deed of manumission could be purchased. The deed of manumission is for sale at the Carrefour supermarket, where starving João Alberto carries a cross on his back in order to breathe. “Carrefour” is a word whose last syllable is the number “four”, which are four cardinal points: Death, Fright, Pain and Pest. In the life market, a black life is a commodity imported from Africa. Africa exported life and wrinkles to Brazil. The black slave in the market, cross on his neck, is a cheap product on the imported product shelf. Life in Brazil is an imported mistake. A crucified cross. Life breathes in black lumps of bars and doors indoors in pain. Black lives matter.

6 comentários em “Vidas Negras Importam/Black Lives Matter

  1. Tocante, querido. Lembra-me uma canção, clássica, de Paulo César Pinheiro na voz da Musa Divina Clara Nunes: Canto das Três Raças. Parabéns, uma vez mais, pela inspiração e por rasgar sua voz em palavras impressas.

    Segue o link para um dos vídeos da canção, que me emociona desde o milênio passado.

    Beijos,

    Alê

    Curtido por 1 pessoa

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